Coronavírus

11/03/2021 | domtotal.com

A dor que reverbera em milhões

Se ainda há esperança, que possamos respeitar a situação e dar a ela a devida importância

Como nós conseguimos chegar a um número tão absurdo por uma doença que pode ser evitada? Como a gente deixou chegar a esse ponto?
Como nós conseguimos chegar a um número tão absurdo por uma doença que pode ser evitada? Como a gente deixou chegar a esse ponto? (Michael Dantas/AFP)

Isabela Amorim Santiago

A morte é algo inerente à vida. Todos nós vamos morrer um dia, quer você queira, quer não. Independente se você acredita que há uma vida após a morte, se você crê na chamada "vida eterna", em reencarnação, céu ou inferno, a morte é um destino certo para todos. Isso é um fato.

Mas você já vivenciou a morte de alguém próximo?

As primeiras mortes que eu vivenciei na vida foram das minhas bisavós, dona Sinha e dona Nana - as quais eu tive a honra de conhecer e conviver, de perto ou de longe, até a minha adolescência. A minha avó paterna, dona Nenzinha, faleceu em 2019, após uma cirurgia no coração. Foi uma imensa perda pra mim e pra toda a minha família.

A perda mais dolorosa que eu tenho hoje, no entanto, é a do meu primeiro namorado, o Rick. Nós namoramos de 2012 a 2018, quando ele veio a óbito no dia 24 de março. Ele teve um tipo raro de câncer e em cerca de nove meses transformou-se em metástase óssea e tomou conta até do cérebro. O Luiz Henrique era o grande amor da minha vida e perdê-lo foi uma das coisas mais dolorosas pelas quais eu já passei.

Não falo isso pra que ninguém tenha pena de mim, porque eu não preciso de pena. Eu prometi a mim mesma que, mais que sobreviver, eu iria viver apesar do meu luto. Só que eu tive como me despedir dele. Eu me preparei para vivenciar essa dor que tem uma magnitude que eu não desejo nem mesmo ao meu maior inimigo. Ninguém, a não ser quem já passou por isso, sabe o que é perder o grande amor da sua vida.

Mas foi uma perda de uma mãe também. Uma mãe que ficou dilacerada por perder seu filho caçula aos 24 anos de uma forma tão dura e absurda. A dor foi de todos.

Hoje a minha dor se soma a de tantos outros brasileiros e brasileiras que perderam seus grandes amores - pais, mães, filhos(as), irmãos, avós, namorados(as), esposos(as) e tantos outros parentes.

A grande diferença entre a dor que eu senti da dor de hoje dessas mais de 270 mil famílias é que eu tive a oportunidade de dizer ao meu grande amor o quanto ele era amado e o quanto eu o amava e estava do seu lado, independente de qualquer coisa.

Como nós conseguimos chegar a um número tão absurdo por uma doença que pode ser evitada? Como a gente deixou chegar a esse ponto?

Sim, o governo do presidente Bolsonaro tem sua imensa parcela de culpa ao minimizar a todo momento a doença, ao confundir as pessoas, colocando a economia em primeiro lugar; ao incentivar aglomerações e o uso de medicamentos sem eficácia comprovada em nenhum lugar do mundo. Não tiro dele a culpa. E ele vai ter essa conta pesada até o final dos seus dias - disso eu não tenho dúvidas.

Mas e nós? Quando nós deixamos de achar um absurdo ver no noticiário dezenas, centenas e milhares de pessoas morrendo? Quando a gente passou a tratar a doença, tal como Bolsonaro, como uma simples "gripezinha" que não merece maiores preocupações? Em que momento a gente passou a colocar os nossos próprios interesses acima de qualquer outra coisa?

Em que ponto dessa pandemia a gente deixou de acreditar na ciência e proclamar a alto e bom som (assim como a tal influencer que pegou a doença e depois debochou dela) "foda-se a vida"? Em que momento a gente passou a normalizar a morte e a banalizar a vida?

Creio que muita gente ainda vai sofrer com essa pandemia e muitas famílias ainda vão passar pela dor de perder pessoas amadas. Eu sei bem o que é isso. A diferença aqui é que é possível evitar. A diferença da Covid-19 para um câncer é que dá para evitar. 

Se ainda há esperança, que possamos respeitar a situação e dar a ela a devida importância. Usem máscara, se vacinem, fiquem em casa, acreditem na ciência!

A morte é inerente à vida. Só que, da forma como estamos lidando com esse vírus, estamos acelerando o processo de morte não apenas de pessoas ou de famílias, mas também da esperança de uma humanidade um pouco melhor.

*Isabela Amorim Santiago é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e Relações Públicas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente integra a equipe de jornalismo do Dom Total.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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