Religião

12/03/2021 | domtotal.com

Sexualidade e humanização: um encontro singular plural

A sexualidade nos torna singulares diante de nossos semelhantes

Sexualidade diz respeito à organização do corpo e das experiências que o marcam desde o nascimento
Sexualidade diz respeito à organização do corpo e das experiências que o marcam desde o nascimento (Unsplash/Luiza Braun)

Débora Ferreira Bossa*

Sexualidade e humanização têm o corpo humano como objeto comum, sendo complementares, têm o compromisso de abordar o corpo sob perspectivas distintas. Isso, porque a sexualidade, em seu sentido amplo, implica, necessariamente a experiência singular a partir do exercício individual diante do laço que se estabelece com o semelhante e com a cultura. Esta, a cultura, compreende as trocas compartilhadas com outros seres que nos antecedem e nos sucedem, ou seja, coloca-nos em uma linhagem familiar, bem como em história compartilhada, o que configura o processo de humanização.

Tornar-se humano requer, em justa medida, oferecer interpretações singulares às experiências coletivas. Assim, se por um lado vivemos em uma cultura e em seu processo homogeneizador, por outro, temos a sexualidade que, em sua moção pulsional como força que impele à satisfação, é responsável por nossa singularização. Vejamos um pouco mais sobre esse processo a partir da cena de nossa chegada ao mundo dos vivos.

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O bebê humano, diferente dos demais filhotes do reino animal, não consegue sobreviver em seu habitat sem a presença permanente de um semelhante. O bebê precisa ser apresentado ao seio materno e aprender que este objeto é a fonte de nutrição. Além de higienizado e alimentado, o bebê precisa ser acolhido e apresentado a um campo de linguagem para sua inscrição no mundo. Sem isso, o bebê humano não sobrevive, porque não basta suprir as necessidades biológicas, é preciso oferecer um campo de afeto para seu desenvolvimento. Nesse sentido, podemos dizer que o humano não nasce com instinto de sobrevivência como os demais animais.  O ser humano nasce, necessariamente, em um habitat cultural, e, por isso não é dado naturalmente.

Ao nascer, o bebê é acolhido por outro ser humano, e que minimamente oferece um campo cultural e de linguagem, campo que o coloca em uma linhagem familiar, e ao mesmo tempo oferece as imagens sobre as quais irá construir seus ideais. Nascer como filhote de humano não é suficiente para se tornar humano, é preciso um processo que se estrutura a partir das trocas afetivas.

O mundo já existia antes da chegada desse bebê, de modo que este precisa ser apresentado e reconhecido por seus semelhantes. Nesse processo, a humanização diz respeito à inserção em um laço cultural, a partilha de trocas sociais e a necessidade de reconhecimento como corpo e sujeito. Humanizar, portanto, acomete o humano em um processo de homogeneização que o diferencia dos demais seres.

Contudo, a homogeneização, ou seja, a entrada na cultura dos laços compartilhados, não é igualitária, e não pode ser. É diante da igualdade que marcamos nossa diferença a partir da constituição psíquica, que nada mais é do que o longo e árduo processo que nos singulariza. Processo que, diante de nossas experiências afetivas, damos destinos e interpretações singulares às contingências que nos cercam. Assim, humanizar-se exige também o esforço de experimentar o singular diante do coletivo. Esse traço de singularidade é a marca da sexualidade humana.

Sexualidade não se reduz ao sexo ou à reprodução que garantiria mais bebês humanos no mundo. A sexualidade é, em psicanálise, tratada em seu sentido amplo, e compreende as moções pulsionais que têm sua origem no corpo e se inscrevem no psiquismo como marcas das experiências singulares de prazer e desprazer experimentadas no corpo autoerótico.

Sexualidade diz respeito à organização do corpo e das experiências que marcam esse corpo desde o nascimento. Voltemos à nossa cena inicial, o bebê é apresentado ao seio materno, que o nutre enquanto corpo biológico, mas o humano não se reduz à sua biologia, essa relação de nutrição é construída a partir da satisfação pulsional. Isso quer dizer que existe nessa cena algo que se inscreve no psiquismo do bebê que caminha para além da nutrição, é, portanto, uma experiência de troca afetiva, que comporta a ambivalência. O bebê se alimenta, mas olha e escuta a mãe, não com seu olho ou com seu ouvido, mas com o vínculo, a partir dos ideais, das imagens que são oferecidas. Assim, o bebê faz algo singular com essa experiência de inserção no laço familiar, experiência de prazer e desprazer que ultrapassa a nutrição.

O fazer algo de singular diante da experiência que lhe foi oferecida enquanto cultura humana, é da ordem da organização da sexualidade. Esta, mais uma vez, diz respeito não ao sexo, mas às experiências de prazer e desprazer que marcam nosso corpo e produzem representantes psíquicos, diante dos quais constituímos respostas singulares diante do caráter homogeneizador da cultura. Assim, se por um lado a humanização nos torna humanos e diferentes de outros animais, a sexualidade nos torna singulares diante de nossos semelhantes, ou seja, um processo singular frente ao plural.

*Docente no Departamento de Psicologia da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Psicóloga e Mestre em Psicanálise e Cultura pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Endereço: R. Ver. Geraldo Moisés da Silva, s/n - Universitário, Ituiutaba - MG, 38302-192. E-mail: deborabossa@gmail.com.



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