Religião

12/03/2021 | domtotal.com

A mudança de rota de Francisco: rumo ao Oriente

Por que a viagem ao Iraque foi um divisor de águas para o Vaticano?

Francisco cumprimenta jornalistas antes de viajar para o Iraque, no último dia 5 de março
Francisco cumprimenta jornalistas antes de viajar para o Iraque, no último dia 5 de março (Vatican Media)

Mirticeli Medeiros*

Até o início de 2020, Francisco já planejava algumas viagens, mas não imaginava que a pandemia o faria não somente adiá-las, mas repensá-las completamente. Foi o caso da visita apostólica a Malta, agendada para maio de 2020, que não só foi cancelada, como sequer foi cogitada novamente.

Enquanto isso, muitos chefes de Estado fazem de tudo para inserir seus países nos planos de viagem do papa. Como sabemos, são os presidentes que devem, segundo o protocolo diplomático, enviar um convite formal à Santa Sé, expressando esse desejo.

E o mais incrível: a presença do pontífice vem sendo requisitada não somente pelos católicos. É o caso da Eslováquia, com quase 73% de protestantes. A presidente do país, Zuzana Čaputová, em encontro com o papa Francisco, em dezembro do ano passado, oficializou o pedido. É tanto que Francisco pensa na possibilidade de fazer uma escala em Bratislava, em setembro deste ano, depois de participar do Congresso Eucarístico Internacional em Budapeste, na Hungria.

A questão é que, agora, também por causa da crise, as viagens do papa passarão por uma seleção mais criteriosa. Ao que tudo indica, Francisco não viajará tanto este ano, mas pretende privilegiar lugares onde a presença do pontífice poderá causar algum tipo de impacto. A lista de espera é longa:

Na África, Sudão do Sul, África do Sul e Etiópia. Na Europa, Montenegro e Chipre; Na Ásia, Indonésia e Timor Leste; Na Oceania, Papua-Nova Guiné.

Pelo que o próprio papa adiantou aos jornalistas em seu voo de retorno a Roma, após visita ao Iraque, é que o Líbano será seu próximo destino. Até pouco tempo, Beirute não esperava receber a visita do papa, haja vista a situação que o país atravessa. 

Na lista de prioridades de Francisco estão os países nunca antes visitados por um papa e também aqueles onde os cristãos são minoria. O pontífice renunciou até um retorno à sua terra natal para poder ir ao maior número de lugares possível, principalmente aqueles que correspondam aos critérios da sua 'geopolítica das periferias'.

Interessante que, à diferença dos outros sumos pontífices, Francisco 'desobedece' muitas protocolos da milenar diplomacia pontifícia. Até a era Bergoglio, os papas evitavam visitar países em situação de instabilidade. Com sua ida ao Iraque, Francisco quebrou a regra mais uma vez. Ele sabe o que representa, hoje, não somente para os católicos. Consideram-no um 'líder global', e ele é consciente disso.

O ministro das relações exteriores da Santa Sé, o arcebispo Paul Gallagher, revelou ao site de notícias Crux Now que Francisco quer salvar o cristianismo no Oriente Médio. O êxodo em massa dos cristãos preocupa o Vaticano. Esse teria sido um dos motivos pelos quais o papa insistiu em visitar o Iraque. Sabia dos riscos que corria, mas não voltou atrás na sua decisão. Quis 'confirmar' a fé dos cristãos nessa fase de reconstrução pós-califado.

O Oriente Médio, portanto, foi para o topo da lista do pontífice após a pandemia. Embora descarte, por enquanto, uma viagem à Síria, sua ida ao Líbano representa a intenção de explorar mais a região. Depois de passar pela prova de fogo, que foi o Iraque, Francisco parece interessado em conhecer melhor esse cenário complexo. "O pastor deve estar com a Igreja que sofre", disse Francisco, ao justificar porque não queria desistir do Iraque. E, pelo jeito, é isso que o move, no auge dos seus 84 anos, a subir naquele avião.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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