Religião

12/03/2021 | domtotal.com

Visita do papa Francisco ao Iraque já produz efeitos no país

Um dos principais impactos está na modo com que o país deverá tratar as minorias étnicas e religiosas

Um momento do encontro inter-religioso no Iraque
Um momento do encontro inter-religioso no Iraque (Vatican Media)

Elise Ann Allen*
Crux

A recente viagem do papa Francisco ao Iraque terá, sem dúvida, um impacto duradouro no país de uma forma que só o tempo dirá, no entanto, na fumaça imediata, alguns desenvolvimentos significativos já podem ser vistos.

De acordo com algumas observações, mesmo antes de acontecer a histórica viagem de 5 a 8 de março, a primeira visita papal ao Iraque estava tendo um impacto no país nos níveis mais altos.

Em dezembro, o parlamento iraquiano votou por unanimidade para declarar o Natal um feriado nacional anual. Anteriormente, os cristãos tinham o dia 25 de dezembro de folga, mas não era considerado feriado para o resto da população na nação de maioria muçulmana.

Na época, a mudança foi entendida como um preâmbulo da visita do papa, que, apesar de uma série de obstáculos como a pandemia de coronavírus, a ciática do papa, os ataques de foguetes e outras ameaças potenciais à segurança, ocorreu com o que a maioria descreveria como sucesso esmagador.

Na segunda-feira, o dia da partida do papa Francisco, o governo iraquiano fez outro movimento importante, que alguns também estão atribuindo à visita do papa quando o presidente Barham Salih ratificou uma lei que beneficia os sobreviventes yazidis do genocídio do Isis de 2014-2017.

Após anos de atraso, a chamada "lei do sobrevivente yazidi" foi aprovada pelo parlamento do Iraque em 1º de março e ratificada por Salih em 8 de março, que também é o Dia Internacional da Mulher.

Durante sua visita a Mossul em 7 de março, o papa Francisco presidiu uma cerimônia em memória das vítimas da guerra, do terrorismo e da violência, chamando especificamente a atenção para o sofrimento que inúmeras mulheres e meninas enfrentaram quando foram vendidas como propriedade por militantes do grupo terrorista Isis.

Em seu discurso, Francisco agradeceu "a todas as mães e mulheres deste país, mulheres de coragem que continuam dando a vida, apesar das dificuldades e das dores", pedindo que as mulheres "sejam respeitadas e protegidas. Que tenham respeito e oportunidades".

Em comentários durante uma Assembleia Parlamentar Iraquiana no Dia Internacional da Mulher, Salih disse que teve "a honra de aprovar a lei das sobreviventes yazidis em justiça por seu sofrimento e o sofrimento de todos os habitantes do Iraque devido à brutalidade terrorista".

"A aplicação desta lei é uma responsabilidade nacional imprescindível no contexto da justiça das vítimas", disse, e elogiou as mulheres iraquianas que contribuíram para a luta contra o terrorismo, dizendo que inúmeras mulheres "resistiram com armas e muitas delas foram martirizadas como um exemplo do qual nos orgulhamos em sacrifício e heroísmo".

Originalmente redigida para oferecer justiça exclusivamente às mulheres yazidis que foram sequestradas pelo Isis, a versão da lei aprovada na segunda-feira também se aplica a homens e mulheres pertencentes a outras minorias étnicas e religiosas, incluindo turcomanos, shabak e cristãos, bem como aos homens yazidis que sobreviveram aos massacres do Isis.

De acordo com o site de notícias curdo iraquiano Rudaw, como parte da legislação, os sobreviventes do Isis têm oportunidades de emprego garantidas, já que estão recebendo 2 por cento das oportunidades de emprego no setor público do Iraque com uma renda fixa e uma porção de terra.

Segundo a nova lei, o dia 3 de agosto será considerado um dia de comemoração dos crimes cometidos contra os yazidis.

Essa lei marca o primeiro reconhecimento legal do genocídio yazidi pelo governo iraquiano. Anteriormente, o termo "genocídio" era usado apenas pelo Governo Regional do Curdistão (KRG).

No Twitter, Salih elogiou a lei como "um passo importante para ajudar os sobreviventes das atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico contra os yazidis, cristãos e turcomanos. A justiça e a restituição são cruciais para garantir que tais crimes horríveis nunca aconteçam novamente".

Vários ativistas yazidis também elogiaram a medida, incluindo Murad Ismael, que considerou a ratificação da lei "um passo importante em direção à justiça".

Nadia Murad, uma mulher yazidi que sobreviveu ao cativeiro do Isis e recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2018, disse via Twitter que a aprovação do projeto de lei dos sobreviventes yazidis "é um primeiro passo importante para reconhecer o trauma de gênero da violência sexual e a necessidade de reparação tangível".

"A implementação da lei precisará ser focada de forma abrangente no apoio e na reintegração sustentável dos sobreviventes", disse.

Em seu voo de retorno do Iraque a Roma, o papa Francisco disse aos jornalistas que viajavam a bordo que se inspirou a visitar o país depois de ler o livro de Murad, "Que eu seja a última: minha história de cárcere e luta contra o Estado Islâmico", que conta a história de seu tempo no cativeiro do ISIS.

Apesar das medidas significativas que foram tomadas no Iraque em torno da viagem papal, alguns expressaram temor de que agora que o papa se foi, os ataques aumentarão.

Também na segunda-feira, depois que o papa já havia partido, uma pessoa morreu em uma explosão perto da ponte al-Aimmah em Bagdá, que deixou outras três em estado crítico.

O grupo de mídia e segurança do Iraque disse que a explosão foi causada por uma granada de mão que detonou em um depósito de lixo perto da ponte. Mais cedo naquele dia, três membros de uma célula terrorista que se acredita estar planejando ataques suicidas foram presos.

Antes da visita do papa, vários ataques com foguetes foram realizados visando as operações dos Estados Unidos no Iraque, com alguns caindo em áreas civis. Muitos no lugar acreditam que esses ataques continuarão e temem que possa haver uma escalada de violência.

No entanto, para a comunidade cristã do Iraque, a maioria ainda está nas nuvens, celebrando uma visita que nunca pensaram que aconteceria.

Imagens como a do padre Roni Momika, mais conhecido na imprensa internacional como "o padre dançarino", liderando fiéis pela música e a dança, antes da chegada do papa, ainda estão sendo amplamente compartilhadas nas redes sociais como um lembrete da alegria ainda palpável para a comunidade cristã do Iraque.

Em uma declaração após o retorno do papa Francisco do Iraque, o Comitê Superior da Fraternidade Humana dos Emirados Árabes Unidos chamou a visita de "um momento importante para o mundo e uma verdadeira promoção dos valores defendidos pelo documento sobre a fraternidade humana".

O comitê foi estabelecido em agosto de 2019 como um meio de implementar o documento da fraternidade humana assinado pelo papa Francisco e pelo grande imane da prestigiosa mesquita Al-Azhar do Egito, Ahmed el-Tayeb, durante a visita do papa a Abu Dhabi em fevereiro de 2019.

No comunicado, o cardeal Ayuso Guixot, que fez parte da delegação do papa ao Iraque e atua como presidente do Conselho do Vaticano para o Diálogo Inter-religioso e é membro do comitê, disse que o objetivo do papa com a visita é "promover o diálogo cultural e uma cultura de convergência e inclusão para que todos em nossa sociedade possam desfrutar de paz em suas vidas, independentemente de sua raça, cultura ou religião".

O professor Mohamed al-Mahrasawi, presidente da Universidade Al-Azhar, também membro do comitê, disse que a visita do papa curou "as feridas do povo iraquiano após anos de guerras e destruição" e foi um apelo à tolerância, à cidadania e à coexistência pacífica "entre todos os iraquianos e todos os povos da região".

"É a melhor resposta aos apelos ao ódio e extremismo que tirou a vida de muitos e deslocou milhões de pessoas inocentes", disse al-Mahrasawi.

Da mesma forma, o juiz Mohamed Abdelsalam, secretário-geral do comitê, disse que a visita papal lançou luz sobre a rica diversidade religiosa e cultural do Iraque e mostrou como essa diversidade pode "ser um caminho para alcançar a paz e a coesão entre as comunidades".

"Também trazia uma mensagem poderosa de que o mundo inteiro deve apoiar as vítimas de guerras e extremismo, não abandoná-las em nenhuma circunstância", disse, acrescentando que a comissão lançaria um estudo avaliando os resultados da visita papal, a fim de desenvolver projetos futuros para o benefício "de todos os iraquianos".

Publicado originalmente por Crux

*Siga Elise Ann Allen no Twitter: @eliseannallen



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