Brasil

12/03/2021 | domtotal.com

A farsa

Voto de Gilmar Mendes torna-se histórico ao nomear arbitrariedades cometidas por quem deveria zelar pela Constituição

Ministro Gilmar Mendes preside sessão da 2ª turma realizada por videoconferência
Ministro Gilmar Mendes preside sessão da 2ª turma realizada por videoconferência (Fellipe Sampaio /SCO/STF)

Eleonora Santa Rosa*

Nunca imaginei que pudesse apreciar e louvar o ministro Gilmar Mendes pela leitura de seu voto, acachapante, sobre a suspeição do ex-ministro da Justiça do governo que aí está, o outrora poderoso discricionário autoritário Moro, por sua conduta condenável e moralmente indefensável na condução do processo de julgamento do ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva. Uau! Quem não teve a oportunidade de ver a sessão, que leia o voto, histórico. Não sou admiradora de GM, mas justiça lhe seja feita: sua manifestação foi brilhante, corajosa, nomeando o que de fato aconteceu e a série de arbitrariedades e ilegalidades cometidas por aqueles que deveriam ter no respeito à Constituição sua máxima profissional e comportamental.

É de dar náuseas o teor das conversas que vieram à tona por parte dos membros do MP do Paraná, um festival de horrores. Comportavam-se como intocáveis, acima de tudo e de todos, formando uma espécie de casta privilegiada, inalcançável, apartada da sociedade, com poderes supremos, manipulando eleições, candidaturas ao sabor de sua orientação ideológica em substituição ao desejo popular. Prejudicaram em sã consciência, distorceram provas, forjaram matérias em associação com a mídia formadora de opinião, constrangeram testemunhas, abusaram dos instrumentos que a lei oferecia, emitiram comentários jocosos, desrespeitosos, arrogantes, de um cinismo sinistro. Agentes da lei travestidos de justiceiros em favor de seus próprios interesses políticos, gananciosos por recursos e fama. Em nome de suas convicções viciadas e contaminadas montaram um circo expresso no famoso “Power Point” eivado de informações capengas, julgamentos precipitados e condenações antecipadas. No entanto, como se sabe, com a História não se brinca, a sentença que recairá sob seus ombros será dura e duradoura, nada acolhedora, pois extrapolaram suas atribuições e responsabilidades, com plena consciência de seus atos.

Não se trata aqui de defender partido político, corrupção, usurpação da máquina pública ou congênere, mas de observar, infelizmente o travestimento de parte do MP, em função do comportamento de alguns poucos, em corte marcial, totalitária, onde os princípios básicos legais são rechaçados e desrespeitados, como, por exemplo, o mais primário e fundamental deles: o da presunção de inocência.

Pensando sobre os fatos desta semana inesquecível e tristíssima em que chegamos ao trágico número de mais de 270 mil mortos pela Covid, com uma pandemia descontrolada, com o Brasil como pária do mundo, com o desgoverno em que nos encontramos e com a coletiva do ex-presidente Lula, dono de uma performance de dar inveja e ciúme aos atuais ocupantes dos postos principais da República, me lembrei do contundente e sempre atual poema Frases Feitas, de Affonso Ávila:

façamos a revolução antes que o povo a faça antes que o povo à praça antes que o povo a massa antes que o povo na raça antes que o povo: A FARSA

o senso grave da ordem o censo grávido da ordem o incenso e o gáudio da ordem a infensa greve da ordem a imensa grade DA ORDEM terra do lume e do pão terra do lucro e do não terra do luxo e do não terra do urso e do não terra da usura e DO NÃO mais da lei que dos homens mais da grei que os come mais do dê que do tome mais do rei que do nome mais da rês que DA FOME (...) modesto como convém

façamos a revolução
antes que o povo a faça
antes que o povo à praça
antes que o povo a massa
antes que o povo na raça
antes que o povo: A FARSA

o senso grave da ordem
o censo grávido da ordem
o incenso e o gáudio da ordem
a infensa greve da ordem
a imensa grade DA ORDEM

terra do lume e do pão
terra do lucro e do não
terra do luxo e do não
terra do urso e do não
terra da usura e DO NÃO

mais da lei que dos homens
mais da grei que os come
mais do dê que do tome
mais do rei que do nome
mais da rês que DA FOME
(...)
modesto como convém
austero como é do gosto
aufere como é do gosto
ao ferro como é do gosto
ar estéril como é do gosto
austero comendo A GOSTO
(...)
aos inimigos bordoada
aos amigos marmelada
aos contíguos marmelada
aos conspícuos marmelada
aos promíscuos marmelada
aos ambíguos MARMELADA
(...)
O crime é não vencer
o crime é não vender
o crime é não vir a ser
o crime é não virar cedo
o crime é o NÂO VEZES CEM

libertas quae sera tamen
liberto é o ser que come
livre terra ao sertanejo
livro aberto será a trama
LIBERTO QUE SERÁ O HOMEM


Affonso Ávila - Código de Minas & Poesia anterior. 1969.

*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ocupou diversas funções públicas de relevo e desenvolveu projetos de educação patrimonial e de patrimônio cultural de repercussão nacional. Ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR (de novembro de 2017 a novembro de 2019), é considerada uma das mais experientes e respeitadas profissionais no campo da viabilização, implantação e soerguimento de equipamentos culturais no país. Estrategista e gestora cultural, tem larga experiência editorial; foi responsável pela publicação de mais de meia centena de obras voltadas à história e à cultura de Minas Gerais, tendo sido coordenadora editorial das consagradas Coleções Mineiriana e Centenário da Fundação João Pinheiro. Diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, é autora do livro Interstício

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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