Esporte

15/03/2021 | domtotal.com

Cadê o futebol que estava aqui?

Decidi, diante de tão dolorosas circunstâncias e sem perspectivas à vista, viver de nostalgia

São Raimundo x Cruzeiro, pela Copa do Brasil, realizado no Estádio Canarinho, em Boa Vista, no dia 11 de março
São Raimundo x Cruzeiro, pela Copa do Brasil, realizado no Estádio Canarinho, em Boa Vista, no dia 11 de março (Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

Afonso Barroso*

Por falta de motivação, faz tempo que não escrevo sobre futebol. Mas a falta de motivação foi tanta que acabou me motivando a voltar a esse assunto. Sou cruzeirense, o mundo inteiro sabe disso – ou devia saber. E o que vejo hoje no futebol do meu time é a ausência completa e acabada de futebol.

Jogadores atuais do Cruzeiro, em sua maioria absoluta, deveriam dedicar-se a outro tipo de modalidade esportiva que não o jogo da bola no pé e no chão, o football. Talvez pudessem se dar bem no vôlei ou no basquete ou no handebol, quem sabe no rúgbi.

Vejo, com profunda tristeza e nostalgia, o que fizeram com o Cruzeiro e o futebol do Cruzeiro. Vejo a completa falta de conhecimento dos fundamentos mais elementares do jogo, como o passe, por exemplo. Meu Deus, como dão passes errados! Às vezes parece que encaram os companheiros de camisa como adversários. Negam-se a entregar-lhes a bola quando eventualmente se veem com ela nos pés. E quando entregam, a bola já não é redonda como entrou em campo. Vai quadrada, retangular, oval, qualquer figura geométrica, menos redonda. Dar passe certo é o que deve todo jogador fazer, e o meu time não sabe fazer isso. É o que se constata quando se vê um jogo do Cruzeiro. Noventa minutos de sofrimento em que já não se torce por um gol, mas por um passe certo, um drible, um chute a gol

É também com profunda tristeza e nostalgia que vejo jogadores sem o mínimo de habilidade para dominar a bola, coisa que a maioria dos peladeiros como eu sabia fazer de olhos fechados. Vejo a bola bater-lhes na canela e se oferecer ao adversário mais próximo.

A tristeza e a nostalgia aumentam quando se percebe que nenhum dos atletas que vestem o uniforme do Cruzeiro, nenhum mesmo, sabe dar um drible para se livrar do assédio de um adversário.

O mesmo se diga quando algum consegue espaço para chutar a gol. Chuta pra fora, para o alto, para o raio que o parta, menos para o gol. E olha que são raros, raríssimos, os momentos em que o campo se abre para o chute. Ninguém se desloca, ninguém sabe confundir o adversário, ninguém tem nada com o jogo e nem consigo mesmo. Estão em campo para cumprir tabela, um compromisso profissional com jeito amador.

Se falo de nostalgia é porque me lembro, inevitavelmente, do tempo em que comecei a torcer pelo Cruzeiro, e dos tempos que se seguiram, gloriosos e entusiasmantes. Vi jogar Tostão, que passava um jogo inteiro sem errar um passe sequer. Vi Dirceu Lopes, que driblava em progressão e só era parado quando agarrado despudoradamente ou puxado pela camisa, num tempo em que não havia advertência com cartão amarelo. Vi Piazza roubando bolas dos adversários como se fossem (desculpem o lugar comum) como se fossem pirulitos da boca de criança. Vi Natal rompendo a ala direita e correndo veloz para o gol. Vi Hilton Oliveira em altíssima velocidade pela ponta esquerda, deixando o marcador para trás, sem ação, para cruzamentos que eram aproveitados pelo centroavante Evaldo, o arisco Evaldo de chute preciso e notável presença de área.

Decidi, diante de tão dolorosas circunstâncias e sem perspectivas à vista, viver de nostalgia. De lembranças dos gloriosos tempos em que o Cruzeiro sabia jogar futebol como poucos times no mundo. Porque o futebol que estava aqui, meus amigos, o gato comeu. Ou melhor, os ratos comeram

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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