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16/03/2021 | domtotal.com

Bolsonaro mente

A primeira live depois do Lula

Live o presidente do dia 11 de março
Live o presidente do dia 11 de março (YouTube/Jair Bolsonaro)

Alexis Parrot*

A volta da possibilidade de uma candidatura de Lula nas eleições presidenciais de 2022 deixou Bolsonaro sem dormir. Após o histórico discurso do petista na última quarta-feira, o atual ocupante do Palácio do Planalto usou a live semanal para tentar reescrever a história, posando de grande herói nacional no enfrentamento à Covid – quando todos sabem que o enredo é bem outro.

Infantil, para rebater a pecha de negacionista e terraplanista da qual foi acusado por Lula, apresentou-se em companhia de um globo terrestre giratório.

Baixo como de costume, chamou Lula de "carniça", "presidiário" e "jumento". Ao defender a cloroquina, sugeriu que o ex-presidente seria um cachaceiro ao perguntar o que ele indicaria como tratamento para a Covid: "ele recomenda o quê? 51? Só pode ser 51, curtido em cobra surucucu e pico de jaca dentro da garrafa". Uma aula de finesse e debate político de alto nível, sem dúvida.

Abriu o espetáculo na última quinta-feira com a mentira mais absurda: "Estou esperando alguém mostrar um áudio meu ou um vídeo dizendo que era uma gripezinha, estou esperando".

Não precisa esperar mais.

A afirmação foi dada em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV no dia 24 de março de 2020, às 20:30h : "No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse acometido pelo vírus, não precisaria me preocupar. Nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho." O trecho sobre a gripezinha está em 3:00 minutos:

Sem tirar Lula da mira e sempre tentando desqualificá-lo, pediu para compararmos o padrão de todos os seus ministros àqueles de governos do PT.

Comparemos, então: Fernando Haddad, Gilberto Gil e Celso Amorim de um lado; Weintraub, Mario Frias e Ernesto Araújo de outro. Waldir Pires, Juca Ferreira e Olivio Dutra na época do PT; um general, Regina Duarte e Damares nesse tempo do presidente que nem partido tem. Para fechar com chave de ouro, se antes tivemos Alexandre Padilha e José Gomes Temporão na Saúde, agora completamos 270 mil mortos pelo coronavírus sob a égide de Pazuello.

Na live, contou mais uma vez a mentira sobre a vacinação da própria mãe. Segundo ele, o profissional que aplicou a vacina na dona Olinda voltou para rasgar o cartão de registro da idosa, forjando a marca que teria sido aplicada, trocando de AstraZeneca para Coronavac. Repetiu a afirmação de que a irmã teria tirado uma foto – que nunca foi mostrada.

Outra pérola: "Nós fomos trabalhando ao longo do tempo. Nós já temos mais de dez milhões de vacinados no Brasil. Daí vem os inteligentes: 'Faça igual Israel, que já vacinou mais da metade do seu povo. 'Tu sabe a população de Israel? Não sabe. É menor que a capital do estado de São Paulo, em torno de 9 milhões de pessoas".

Queria ver comparar com a vacinação nos Estados Unidos, país com números populacionais mais parecidos com os nossos. Dos mais de trezentos milhões de habitantes, o presidente Biden estima que todos os adultos estarão vacinados antes do dia 4 de julho. Por aqui, as estimativas apontam para uma data bem mais distante: meados de 2022.

Aliás, sempre que abre a boca para tratar da pandemia, Bolsonaro ou mente ou presta algum desserviço. Defendeu mais uma vez o tal tratamento precoce contra a Covid, citando a pesquisa bancada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia sobre a eficiência do vermífugo Anitta.

O resultado foi publicado na revista científica American Respiratory Journal, em 28 de dezembro do ano passado. Segundo o estudo, dentro do grupo observado de infectados com a Covid-19 que tomaram o medicamento, houve uma redução de carga viral de 55% em 5 dias.

O que Bolsonaro não conta é que entre aqueles que não tomaram, a redução foi de 45% durante o mesmo período, uma diferença de apenas dez pontos percentuais – esta, a verdadeira taxa de efetividade do remédio.

Outra coisa que o governo e Bolsonaro não divulgam é a conclusão a que chegou a pesquisa, expressa com todas as letras no artigo científico publicado: o remédio não é efetivo contra a Covid.

Voltou também ao assunto da urna eletrônica, uma de suas obsessões. Afirmou que em algumas sessões pelo Brasil, "o cara chegava lá, pegava o super bond (sic) e botava um pinguinho no número 7. Pimba! Então você não votava 17, isso em locais mais humildes... Agora, se você apertava 13, votava sem problema." Mais um mentira sem provas, entre tantas outras.     

Atacou a possibilidade de lockdown e, contrariando declarações mais antigas ("todo mundo vai morrer um dia", por exemplo), disse lamentar a perda de toda e qualquer vida.

Bolsonaro mente, dizendo que não é contra a máscara. Se não é mesmo, por que não usa?

Mente ao dizer que o Distrito Federal está em estado de sítio – porque o governador Ibaneis (MDB) decretou toque de recolher.  

Mente em sintonia com Pazuello, ao concordar com o ministro quando este afirma que "o sistema de saúde não está colapsado, está impactado".

Mente, dizendo que está preocupado com a liberdade do povo; sua preocupação repousa de fato é na reeleição.

Bolsonaro mente tanto que, ao ouvi-lo afirmar que a terra é redonda, já começo a achar que deve ser mesmo é quadrada.

Frase da semana

De Lourival Panhozzi, presidente da Abredif (Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário), em entrevista à CNN, citando a ocasião em que Bolsonaro afirmou que não era coveiro:

"Eu convido ele [Bolsonaro] a ser coveiro para ficar um dia dentro de uma funerária acompanhando as famílias que perdem um ente querido, para ele ter a real noção do que está acontecendo no Brasil".

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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