Religião

17/03/2021 | domtotal.com

Negativa a bênção de casais homoafetivos gera decepção com a Igreja

Esclarecimento da CDF foi entendido como manobra contra sínodo dos bispos alemães

'Nós nos indignamos, sobretudo, com a violência e a dor que esse documento promove e legitima', diz nota de católicos LGBTs
'Nós nos indignamos, sobretudo, com a violência e a dor que esse documento promove e legitima', diz nota de católicos LGBTs (Unsplash/Nick Karvounis)

O documento da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), do Vaticano, provocou várias críticas e comentários negativos, sobretudo na Alemanha e nos Estados Unidos, mas países de língua portuguesa também tiveram sua manifestação, como Brasil e Portugal.

"Aceitando o quanto o papa Francisco fala sobre o carácter sinodal da Igreja, é decepcionante ver tentativas de curto-circuitar" o processo do Caminho Sinodal da Alemanha, escreve um dos colunistas católicos mais respeitados nos EUA, o padre Thomas Reese, no Religion News Service (RNS), jornal digital independente.

"Este ataque preventivo, contudo, não será bem-sucedido", acrescenta Reese, que cita ainda: "A discussão prosseguirá, explicou o bispo Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal Alemã, mesmo que 'os pontos de vista apresentados pela Congregação para a Doutrina da Fé devam e irão naturalmente encontrar o seu caminho nestes debates'".

Thomas Reese acrescenta que se deve sublinhar que o documento do Vaticano trate "do casamento e bênçãos na igreja, e não do casamento civil". Até porque o papa Francisco já reconheceu "a necessidade de reconhecimento legal das uniões homossexuais", embora preferisse chamar-lhes uniões civis em vez de matrimônio.

James Martin, padre jesuíta dos EUA que acompanha pessoas homossexuais e escreveu um livro sobre o tema, criticou também o documento em declarações ao Corriere della Sera, interpretando-o igualmente como uma resposta aos bispos alemães e ao debate que está decorrendo no âmbito do Caminho Sinodal da Igreja Católica na Alemanha.

"Deus criou-te, Deus ama-te e Deus quer que sejas feliz", era o que diria aos homossexuais católicos o padre James Martin, que há ano e meio foi recebido pelo papa e na ocasião confessou sentir-se "encorajado, consolado e inspirado".

"Sem comentários" e "pretensas aberturas"

À pergunta sobre se não há contradição entre dizer, como faz o documento do Vaticano, que se acolhem as pessoas reconhecendo os elementos positivos que possa haver numa união homossexual e que ao mesmo tempo se fale de pecado, James Martin diz apenas: "Sem comentários".

"Os primeiros destinatários da mensagem evangélica são aqueles que estão nas periferias", acrescenta Martin, 60 anos, ao Corriere. Dizendo que esse tipo de bênçãos ainda é uma prática rara, afirma: "A Igreja é chamada a continuar a aproximar-se das pessoas LGBT, como 'respeito, compaixão e sensibilidade', como diz o Catecismo, imitando o contato de Jesus com todos aqueles que se sentem marginalizados. Este caminho é um caminho, seja para a Igreja, seja para os católicos LGBTQ".

No Brasil, a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, publicou em seu site sua indignação, mas revela que não houve surpresa sobre a postura vaticana. "Vislumbramos neste documento aquela face da Igreja que o próprio Cristo criticou tão duramente nos doutores da Lei de seu tempo. Vemos aí aquela face da Igreja que se apropria do poder de interpretar a Palavra de Deus não para propagar a Vida e fazê-la jorrar em abundância, mas para fechar portas e recusar-se a ir ao encontro de seu Povo", afirma uma nota pública do grupo.

Em Portugal, a associação Rumos Novos – Católicas e Católicos LGBTQ, reagiu também ao texto da CDF que determina que "a bênção das uniões homossexuais não pode ser considerada lícita", afirmando: "Ainda que não constituindo uma surpresa, mesmo após as pretensas aberturas do papa Francisco, para muitas e muitos (pais, mães, filhos, filhas, amigos e amigas) este documento foi profundamente decepcionante e mesmo desencorajante".

O comunicado enviado ao 7Margens e intitulado Uma voz que não vem de Deus! foi divulgado nesta terça-feira (16). Recorda que "a caminhada de católicas e católicos LGBTQ no seio da Igreja Católica tem sido longa e dolorosa" e que a Rumos Novos trabalha "com casais de pessoas do mesmo sexo para que no seio do amor de Cristo que os une, sejam testemunhos vivos desse mesmo amor, escolhendo amar como Cristo amou e não como alguma hierarquia pretende que Ele ame".

A associação conclui apelando "aos católicos e católicas LGBTQ de todas as idades; aos e às que já saíram do armário e aos e às que permanecem ainda aterrorizados nos bancos da igreja; aos pais, mães, familiares e amigos que hoje se viram novamente desamparados" para que "não desesperem, pois Cristo está com eles e elas".

No seu texto no RNS o padre Thomas Reese acrescenta outros dados: "A maioria dos católicos americanos, como a maioria dos americanos, apoiam a legalização do casamento gay, mas isto não é necessariamente verdade em qualquer outra parte do mundo. Segundo o Pew Research Center, 61% dos católicos americanos apoiam a legalização do casamento homossexual. O apoio é ainda maior na Europa Ocidental (exceto Itália e Portugal), mas noutras partes do mundo, a maioria dos católicos e seus compatriotas opõe-se à legalização do casamento homossexual".

E sobre a imagem de Francisco acrescenta: "Enquanto para os americanos o papa parece estar ultrapassado, ele é visto como revolucionário em muitas outras partes do mundo, especialmente nos 71 países onde os gays ainda são criminalizados. Nestes países, o apoio da Igreja à descriminalização do sexo gay e à legalização das uniões homossexuais seria um grande progresso".

Leia abaixo a nota da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT.

Nota sobre declarações da Congregação para a Doutrina da Fé

Acompanhamos neste 15 de março a repercussão das lamentáveis declarações da Congregação para a Doutrina da Fé, ao recusar a possibilidade de que uniões entre pessoas do mesmo sexo sejam abençoadas por sacerdotes da Igreja. É com indignação, mas sem maiores surpresas, que tomamos conhecimento tanto da negativa em si quanto dos argumentos por meio dos quais o documento procura justificá-la.

Nós nos indignamos, mas não nos surpreendemos, porque vislumbramos neste documento aquela face da Igreja que o próprio Cristo criticou tão duramente nos doutores da Lei de seu tempo. Vemos aí aquela face da Igreja que se apropria do poder de interpretar a Palavra de Deus não para propagar a Vida e fazê-la jorrar em abundância, mas para fechar portas e recusar-se a ir ao encontro de seu Povo. Ao perder de vista a mensagem de serviço, amor e acolhimento incondicionais do Evangelho, a lei torna-se letra morta. Essa é a face de parte da Igreja, que cai, mais uma vez, no legalismo vazio tantas vezes denunciado por Cristo.

Nós nos indignamos, mas não nos surpreendemos, quando o documento fala em respeito às pessoas que somos e sublinha a necessidade de evitar qualquer discriminação injusta, aparentemente sem se dar conta da incoerência fundamental entre suas palavras e a atitude que essas palavras traduzem. Nos indignamos, mas não nos surpreendemos, com a perversidade de chamar de "respeito", "acolhimento" e "amor" o que não passa de recusa de parte da Igreja ao diálogo e à escuta da experiência de fé que compartilhamos e do testemunho de seguimento de Cristo que damos com nossas vidas.

Nós nos indignamos, sobretudo, com a violência e a dor que esse documento promove e legitima contra todas aquelas pessoas que se movem nas margens das normas sexuais e de gênero vigentes – e não só contra as pessoas que somos, mas também contra nossas famílias, nossos amigos e todas aquelas e aqueles que nos amam e nos enxergam para além das normas. Não nos surpreendemos porque vemos mais uma vez, neste documento, como os doutores da Lei, em nome de uma lei sem Amor, conspiram para condenar à morte Emanuel, Deus Conosco, que vive em nossas vidas e santifica nossos corpos.

Por isso, hoje, é desde a nossa indignação – indignação santa, que nasce da fome e sede de justiça que só o Cristo Vivo pode saciar – é desde nossa indignação que nos dirigimos hoje àquelas e àqueles de nós que podem estar feridos, e àquelas e àqueles que caminham conosco, para que perseveremos na fé, mesmo sob perseguição. Permaneçamos firmes em Cristo. Mantenhamo-nos juntos, fieis ao Evangelho e na certeza de que Ele caminha conosco. Pois ouvimos o que nos foi dito: nosso lugar à mesa não nos será tirado, nem a morte terá a última palavra.

A Palavra de Deus é viva, se encarna em nossos corpos e se revela na História. A própria pergunta que motivou a redação deste documento revela a ação do Espírito que sopra e se manifesta nos desejos e questionamentos do Povo de Deus, diante da realidade das pessoas LGBTI+. É nessa pergunta que pulsa, sim, o Corpo do Cristo Vivo, e com Ele permanecemos em comunhão. Sempre na convicção de que a Verdade triunfará, seguimos dando nosso testemunho de fé, afirmando nossa pertença filial à Igreja de Cristo, nossa herança, e construindo uma Igreja capaz de celebrar a diversidade e acolher a todas e todos nós.

Coerentes com o Evangelho de Cristo, sejamos a palavra encarnada do Espirito que sopra. Sejamos nós esperança para a Igreja. Sigamos sendo sinais das alegrias e das bênçãos do afeto e da sexualidade, em nossas vidas e em nossos corpos.

Sempre em comunhão,

Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT


Sete Margens/ Dom Total



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