Religião

18/03/2021 | domtotal.com

Muitas vidas dilaceradas, tantos direitos violados!

Mundo registrou 79,5 milhões de deslocadas internos e refugiados em 2019, entre 30 e 34 milhões eram crianças

Uma jovem refugiada síria do lado de fora de sua casa em um acampamento informal no Vale Beqaa, no Líbano
Uma jovem refugiada síria do lado de fora de sua casa em um acampamento informal no Vale Beqaa, no Líbano (© ACNUR / Diego Ibarra Sánchez)

Élio Gasda*

O que levaria alguém a deixar sua terra e sua família ou gastar o pouco que lhe resta, caminhando quilômetros intermináveis sob o calor escaldante, enfrentando frio, chuva ou mar bravio? O que levaria alguém a aguardar semanas por uma vaga em transporte precário? Viajar entre os eixos de um caminhão durante dias, até uma país qualquer que não o seu? A resposta escancara os extremos da miséria humana. "Há muitas vidas dilaceradas. Muitos fogem da guerra, de perseguições, de catástrofes naturais. Outros andam à procura de oportunidades para si e para a sua família. Sonham com um futuro melhor, e desejam criar condições para que se realize" (Fratelli tutti, 37).

Violência e exploração: xenofobia, fome, trabalho escravo, tráfico humano, abuso sexual... realidade para milhões de pessoas. Um em cada 97 indivíduos no planeta é migrante. Segundo relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), o mundo registrou em 2019, 79,5 milhões de deslocadas internos e refugiados. Destes, estima-se que entre 30 e 34 milhões sejam crianças.

Dezenas de conflitos violentos estão causando fome e migrações forçadas, destruição e morte, tortura e mutilação. A última década viu o maior número de pessoas deslocadas pelas guerras. Em 2019, ocorreram 358 conflitos no mundo (Instituto Heidelberg para Pesquisa de Conflitos Internacionais – HIIK). Os gastos militares mundiais foram de US$ 1,917 trilhão, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri). Este valor representa 2,2% do produto interno bruto (PIB) global, o que equivale a US$ 249 por pessoa. A guerra é altamente lucrativa para os senhores do dinheiro.

Após 10 anos de guerra, a Síria vive uma sucessão de tragédias. Segundo a ONU, uma década de violência gerou 6,6 milhões de refugiados, 80% de mulheres e crianças, espalhados por 130 países. Para além dos refugiados, estima-se a morte de 300 mil pessoas (Observatório Sírio de Direitos Humanos). 55% dos jovens, entre 18 e 25 anos, tiveram seus estudos interrompidos. 13,4 milhões de sírios precisam de ajuda humanitária, 90% vivem abaixo da linha da pobreza. Falta luz, água, gasolina e comida. Mais da metade da população não tem acesso a alimentos suficientes (Comitê Internacional da Cruz Vermelha).

Papa Francisco, em seus oito anos de pontificado, tem dedicado atenção especial à crise humanitária dos migrantes e refugiados. Sua primeira viagem como papa, em 2013, foi à Lampedusa, sul da Itália, uma das principais portas de entrada de refugiados na Europa. E agora, em sua viagem ao Iraque, encontrou-se com Abdullah Kurdi, pai de Alan, o garoto de 3 ano, que teve o corpo encontrado em uma praia. Morreu junto com o irmão e a mãe durante um naufrágio, enquanto tentavam chegar a Europa para escapar dos conflitos na Síria. Alan virou símbolo dos que mais sofrem com drama vivido pelos refugiados: as crianças.  

Para esses pobres, papa Francisco apresenta quatro exigências: Acolher, proteger, promover e integrar (Fratelli tutti, 129). Que a sociedade se mobilize para que os muros e cercas sejam derrubados!

Que as guerras sejam interrompidas! A Síria é a prova viva de que "a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra é um fracasso da humanidade" (Fratelli tutti, 261). Que a proposta de Francisco seja concretizada: "com o dinheiro usado em armas e noutras despesas militares, constituamos um fundo mundial para acabar de vez com a fome e para o desenvolvimento dos países mais pobres, a fim de que os seus habitantes não recorram a soluções violentas ou enganadoras, nem precisem de abandonar os seus países à procura duma vida mais digna" (Fratelli tutti, 262).

O direito fundamental à dignidade de cada migrante e refugiado é anterior ao reconhecimento jurídico conferido por um Estado nacional. A crise dos refugiados deve ser enfrentada sob a perspectiva dos direitos humanos. Toda pessoa é uma criatura divina (Sal 139, 14-18), antes de ser membro de uma nação, é parte da família de Deus (Gn 1, 26-30). Quando se hospeda um estrangeiro, acolhe-se o próprio Cristo (Mt 25, 35).

"Ninguém pode ser excluído, não importa onde tenha nascido" (Fratelli tutti, 121). Esse é o princípio da cidadania mundial. Direitos humanos não têm pátria! Perder a nacionalidade não pode significar a perda da dignidade. Não se é menos humano quando se está fora do país de origem.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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