Brasil

17/03/2021 | domtotal.com

Pandemia pode deixar 70% das crianças brasileiras sem aprender a ler, aponta Banco Mundial

Relatório mostra os impactos negativos causados pela Covid-19 na educação de vários países

Pandemia afeta em cheio a educação em todo o mundo
Pandemia afeta em cheio a educação em todo o mundo (Pixabay)

Os impactos negativos causados pela pandemia de Covid-19 na educação brasileira podem ser graves e duradouros. Um relatório do Banco Mundial divulgado nesta quarta-feira (17) mostra que dois em três alunos do Brasil podem não aprender a ler adequadamente um texto simples aos 10 anos. O estudo analisou o impacto da Covid-19 na educação dos países da América Latina e Caribe. Além disso, os prejuízos econômicos na região chegariam a US$ 1,7 trilhão de dólares, em perdas de produtividade dos cidadãos.

“Os efeitos prejudiciais sobre o capital humano são simplesmente uma tragédia”, diz o relatório intitulado Agindo Agora para Proteger o Capital Humano de Nossas Crianças.  

O estudo faz simulações para perdas depois de sete meses de escolas fechadas, dez meses e 13 meses, considerado o cenário mais pessimista. É esse, no entanto, que se aproxima da realidade em diversos estados e municípios brasileiros que ainda não reabriram a educação, diante do quadro grave da pandemia no Brasil atualmente. Outros, como São Paulo, chegaram a voltar com aulas presenciais em fevereiro, mas anunciaram o fechamento, com adiantamento do recesso, depois da piora no número de casos e mortes.

“O ensino remoto não substitui o presencial”, diz o relatório. “Os países precisam estar prontos para reabrir as escolas nacionalmente e investir os recursos necessários para que isso aconteça, para começarem a se recuperar das perdas dramáticas de aprendizagem e outros efeitos negativos da pandemia.”

A defasagem de aprendizagem foi medida por meio de um índice do Banco Mundial chamado “pobreza de aprendizagem”, que usa dados de avaliações educacionais. Ele indica o porcentual de crianças com 10 anos incapazes de ler e entender um texto simples. A pandemia aumentaria esse índice para 93% dos alunos na República Dominicana, que tem o pior quadro. O melhor dele é o Chile, que iria de 31% para 59% das crianças nessa situação.  

O Brasil, que já tinha 50% dos alunos em pobreza de aprendizagem, iria para um índice semelhante à média da região, de 70%. Essas perdas correspondem a 1,3 ano de escolaridade, ou seja, o estudante teria o conhecimento de mais de uma série anterior a que é correspondente à sua idade. Com um tempo maior de escolas fechadas, a defasagem pode subir para 1,7 ano de escolaridade.

“O impacto no Brasil talvez seja mais devastador porque temos um nível de desigualdade maior que grande parte dos países da América Latina”, diz o economista da Prática de Educação do Banco Mundial Ildo Lautharte. Ele ressalta que o “grande temor” é perder as conquistas que o País havia feito nos últimos anos de melhora da qualidade da educação, principalmente nos primeiros anos do ensino fundamental.

O relatório alerta que a pandemia pode fazer com que os sistemas educacionais da região voltem ao que eram nos anos 60, com consequências duradouras para toda uma geração. A América Latina e o Caribe têm hoje 170 milhões de estudantes e já vive a chamada "crise de aprendizagem", com sérios problemas na qualidade e equidade da educação.

O estudo ainda indica a piora dos países em exames internacionais como o Pisa, feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Brasil cairia 36 pontos com 10 meses de escolas fechadas e 50 pontos, com 13 meses. E a diferença de desempenho entre os mais ricos e mais pobres na avaliação aumentaria para até 105 pontos, o que representa um quarto de um ano de escolaridade. Segundo o relatório, as perdas são maiores para estudantes de escolas públicas e para meninas.

As estimativas consideram um efeito moderado do ensino remoto durante a pandemia para a aprendizagem das crianças. Lautharte diz, no entanto, que é difícil saber o quanto ele ajudou, já que houve diversas formas e qualidade diferentes da educação online oferecida no país. “O mais importante do ensino remoto foi manter o vínculo com a escola, o impacto mesmo só vamos ver com as escolas abertas e avaliação dos alunos.”

Para ele, o momento também pode ser visto como uma oportunidade de melhoria nas escolas, com mais flexibilidade, inovação e com o uso da tecnologia. “O ensino híbrido pode ser uma  ferramenta importante para aulas de projeto de vida, para grupos menores de alunos que precisam trabalhar dificuldades específicas”, diz. Nas conclusões do relatório, o Banco Mundial ainda afirma que para resolver o problema, “o financiamento público para educação precisa ser priorizado e bem empregado”.

Economia

O fechamento das escolas também terá reflexos na economia brasileira. A avaliação é da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia, que divulgou nesta quarta-feira (17) o Boletim MacroFiscal com um box especial sobre os custos socioeconômicos dessa medida.

Segundo a secretaria, o impacto será sentido no Produto Interno Bruto (PIB, soma de todas os bens e riquezas produzidos no país), no aprendizado e produtividade do trabalho e no aumento na desigualdade social, já que o acesso ao ensino remoto, ofertado em substituição às aulas presenciais, é distinto, de acordo com as faixas de renda da população.

A SPE considerou que os efeitos da atual crise podem se estender até o final de 2022, resultando em um hiato de três anos na educação de uma grande parcela da população que hoje tem entre 5 e 20 anos (idade escolar). “Um prejuízo de dimensões incalculáveis”, diz o boletim.

“Há duas formas extremas de lidar com o problema. É possível imaginar também soluções intermediárias entre elas. A primeira seria simplesmente deixar o hiato educacional cobrar seu preço no estoque de capital humano brasileiro, de modo que jovens entrem no mercado de trabalho com a mesma idade que entrariam sem a pandemia, porém com uma quantidade menor de anos de educação formal”, diz o boletim. “Essa alternativa seria uma verdadeira catástrofe na acumulação de capital humano e na produtividade do trabalho de uma geração inteira”, avaliou a SPE.

A segunda alternativa seria cobrir esse hiato com anos adicionais de estudo após o término da pandemia. “Mas o efeito visual de se postergar por três anos a entrada dos jovens no mercado de trabalho é ‘dramático’”, diz a secretaria, já que haverá uma proporção menor de adultos em idade laboral e, assim, um encolhimento da população que gera riqueza no país.

De acordo com o boletim, esse efeito deve durar por aproximadamente 15 anos após o término da pandemia, possivelmente até 2038, até que toda essa parcela da população atingida com a paralisação das aulas entre no mercado de trabalho. “Portanto, escolas fechadas hoje causam um país mais pobre amanhã. E esse amanhã deve perdurar por quase duas décadas.”


Agências Estado e Brasil



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