Religião

19/03/2021 | domtotal.com

A celebração da fé em sintonia com a devoção a São José

O pai adotivo de Jesus é aquele que aponta para a experiência com Cristo

Jesus provavelmente aprendeu a rezar os salmos com José e Maria
Jesus provavelmente aprendeu a rezar os salmos com José e Maria (Vatican News)

Lorena Alves Silveira*

Para celebrar os 150 anos do esposo de Maria como padroeiro da Igreja Católica, o papa Francisco declarou, no dia 8 de dezembro de 2020, através da carta apostólica Patris Corde, "Coração de Pai", o "ano de São José". Ao longo da carta, Francisco faz "reflexões pessoais sobre esta figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós". Segundo o papa, este desejo cresce ao longo da pandemia, na qual nossas vidas são sustentadas por pessoas desconhecidas: "São José lembra-nos que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano, têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação".

Por ter sido fundamental na história da salvação, "São José é um pai que foi sempre amado pelo povo cristão, como prova o fato de lhe terem sido dedicadas numerosas igrejas por todo o mundo; de muitos institutos religiosos, confrarias e grupos eclesiais se terem inspirado na sua espiritualidade e adotado o seu nome; e de, há séculos, se realizarem em sua honra várias representações sacras". Esta popularidade de José frutificou em muitas práticas populares, ladainhas, novenas, terços... há uma infinidade de orações. Mas como relacionar esta devoção à Liturgia?

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A relação entre Liturgia e piedade popular é antiga, e foi vivenciada de forma distinta ao longo dos séculos. Como afirma o Diretório sobre piedade popular e liturgia, publicado em 2003 no Brasil, "na nossa época, o tema da relação entre Liturgia e piedade popular deve ser olhado sobretudo à luz das diretivas propostas pela constituição Sacrosanctum Concilium, as quais são ordenadas à busca de uma relação harmoniosa entre ambas as expressões de piedade, na qual, porém, a segunda seja objetivamente subordinada e destinada à primeira. Isso significa que é preciso, antes de tudo, evitar apresentar a questão da Liturgia e piedade popular em termos de oposição, como também de equiparação ou de substituição. De fato, a consciência da importância primordial da Liturgia e a busca das suas mais genuínas expressões não devem levar a descuidar da piedade popular e muito menos a desprezá-la ou considerá-la supérflua ou até mesmo prejudicial para a vida cultual da Igreja".

Se esta relação não pode ser negada e deve ser vivida de forma harmoniosa, neste ano dedicado a uma figura tão popular, a Pastoral Litúrgica, os fiéis e as comunidades de fé precisarão encontrar caminhos para que este ideal se concretize. Pensemos em algumas possibilidades...

O Ofício Divino das Comunidades é uma ótima opção para celebrar o pai de Jesus. Assim como o ofício da memória dos santos e santas, que a comunidade pode rezar na Solenidade de São José, a novena a este santo pode ser realizada através de celebrações do Ofício Divino ao longo dos nove dias. Vale lembrar que Jesus provavelmente aprendeu a rezar os salmos com José e Maria, o que torna esta oração ainda mais saborosa neste ano dedicado ao santo.

O Ritual de Bênçãos também pode ser uma possibilidade para unir de forma saudável a Liturgia à devoção popular. Que tal realizar a celebração de bênção da família e de seus membros? Especialmente neste tempo de pandemia, no qual a Igreja doméstica é convidada a florescer, é oportuno bendizer a Deus por estes laços e pedir a ele a graça de ser no mundo verdadeiras testemunhas de Cristo. A bênção de Deus concedida à família por meio deste rito, provavelmente fortalecerá o caminhar de seus membros, que são chamados a viver na fidelidade aos planos de Deus, tal como viveu a família de Nazaré.

Na preparação das celebrações eucarísticas, a Pastoral Litúrgica, quando oportuno, pode dar preferência à Oração Eucarística I (ou Cânon Romano), que cita São José quando faz memória dos santos. Além disso, nos ritos finais, tanto da missa quanto da celebração da Palavra, a comunidade pode expressar brevemente sua devoção com uma oração simples e concisa, que manifeste o carinho da assembleia por esse santo e o desejo de participar da missão de Jesus, tal como ele.

José também é considerado pelo povo o guardião da boa morte, porque, segundo a Tradição, faleceu entre Jesus e Maria. Motivados por essa compreensão, é importante que celebremos por ocasião da morte do cristão, ainda que em nossos lares, especialmente neste tempo marcado pela tristeza da perda de tantas vidas. Celebrar a morte é reconhecê-la como um evento integrado ao mistério pascal de Cristo, é cultivar a esperança na salvação. Ao finalizar o rito, quem preside pode, por exemplo, recitar com muita simplicidade: "São José, guardião da boa morte, rogai por nós!".

Provavelmente, uma Pastoral Litúrgica bem articulada saberá conduzir a relação entre a vida celebrativa da comunidade e a devoção a São José, e encontrar caminhos para que esta união seja harmoniosa. No contexto atual, inclusive, é muito importante que ela oriente especialmente os fiéis que estão celebrando em suas casas, como Igreja doméstica. É primordial que o mistério pascal de Cristo permaneça como o centro de todas as celebrações litúrgicas, e que a Liturgia se mantenha como fonte privilegiada da vida cristã. Nenhuma devoção deverá ofuscar esta realidade. Afinal de contas, o justo e discreto José jamais se colocaria à frente do seu filho. Ele deve se manter, portanto, como aquele que aponta para a experiência com Cristo e, assim, se torna inspiração para nos ajustarmos à vontade do Pai dos céus.

*Lorena Alves Silveira, membro do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia de Belo Horizonte



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