Religião

19/03/2021 | domtotal.com

Patris Corde: uma inspiração consoladora em tempos de crise

No silêncio, José se dedicou com o coração de pai ao cuidado de Jesus e de Maria

Francisco partilha suas reflexões sobre São José em  carta apostólica 'Patris Corde'
Francisco partilha suas reflexões sobre São José em carta apostólica 'Patris Corde' (Vatican News)

Rodrigo Ferreira da Costa*

Para celebrar os 150 anos da declaração de São José, esposo de Maria, como padroeiro da Igreja Católica (08/12/1870), o papa Francisco proclamou um ano dedicado a São José e publicou uma bela carta apostólica, a Patris Corde (Coração de Pai), no intuito de partilhar suas "reflexões pessoais sobre esta figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós" e "deixar a boca falar da abundância do coração". Ao trazer São José à cena, o papa Francisco não quer apenas compartilhar com toda a Igreja sua devoção pessoal ao pai adotivo de Jesus, mas encontrar na figura de São José, uma inspiração consoladora nesse tempo de crise, para tantos homens e mulheres que no "silêncio" da vida cotidiana da família, da profissão e da comunidade de fé, fazem o bem despercebidamente, sendo para a Igreja um verdadeiro testemunho de santidade e para a humanidade, uma chama de esperança.

Durante todo esse tempo de pandemia do Covid-19, o papa Francisco tem se mostrado muito atento e sensível à dor e ao sofrimento da humanidade, bem como, em seus gestos e palavras, tem procurado animar a todos nós para uma nova agenda mundial, chamando-nos à fraternidade universal, ao cuidado com o outro, à esperança que nos faz olhar para frente e trilhar caminhos novos, construindo juntos nossos sonhos de uma nova humanidade. "Sonhemos como única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos dessa mesma terra que nos abriga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos" (Fratelli tutti, n. 08).

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Não é novidade para a Igreja um papa escrever sobre São José, como o próprio papa Francisco reconhece: "depois de Maria, a Mãe de Deus, nenhum santo ocupa tanto espaço no magistério pontifício como José, seu esposo". Porém, o enfoque que o papa Francisco dá à pessoa de São José, identificando-o com as pessoas comuns do nosso cotidiano, pode ser, sim, uma luz para a Igreja em meio a essa noite tão escura que vivemos. Porque "mesmo no tempo mais sombrio temos direito de esperar alguma iluminação e tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra" (Hannah Arendt).

São José foi o homem do silêncio. Não temos nos Evangelhos uma única palavra pronunciada por ele, porém, em seus gestos de bondade, cuidado e obediência, podemos contemplar o seu coração de pai amoroso, esposo caridoso, homem justo e fiel a Deus. Neste sentido, escreve Francisco: "pudemos experimentar, no meio da crise que nos afeta, que 'as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história' [...]. Todos podem encontrar em São José – o homem que passa despercebido, o homem da presença quotidiana discreta e escondida – um intercessor, um amparo e uma guia nos momentos de dificuldade. São José lembra-nos que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano, têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação".

Neste tempo de crise provocada pela pandemia que nos tirou do eixo, abalou as estruturas da nossa sociedade e atingiu de forma muito profunda a Igreja, principalmente em suas ações litúrgicas, vimos surgir verdadeiros testemunhos de santidade vindos de pessoas comuns, que se colocaram a serviço dos outros para ir ao supermercado, para doar uma cesta básica a quem perdeu o emprego, para fazer uma ligação com palavras de ânimo, etc. Quantos profissionais da saúde, do comércio, da limpeza, da segurança, do transporte... que se arriscam a cada dia em sua profissão para salvar vidas? Bem como, pudemos nos alegrar em ver tantos pais e mães sendo verdadeiros catequistas em suas famílias, exercendo o protagonismo de uma evangelização a partir da casa, das redes sociais, etc. Assim como fez São José, que no silêncio, dedicou-se com o coração de pai, ao cuidado de Jesus e de Maria, pudemos contemplar belos exemplos de pessoas que nunca terão seus nomes lembrados na mídia, nem nos altares das igrejas, mas que viveram a santidade mais perfeita (cf. Mt 6,1).

Na sua exortação apostólica Gaudete et exsultate, sobre o chamado à santidade no mundo atual, o papa Francisco fala da santidade "ao pé da porta", ou seja, a santidade vivida em meio às angústias e lutas do cotidiano da vida. Diz o papa: "Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade 'ao pé da porta', daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da 'classe média da santidade'" (papa Francisco, GE, 07). São José viveu de forma exemplar essa santidade do cotidiano e continua a nos inspirar a vivermos hoje essa santidade anônima e silenciosa que passa quase despercebida aos olhos do mundo, mas que é um farol de esperança para a Igreja e a sociedade. 

A reflexão do papa se desenvolve em torno da figura paternal de São José, que amou a Jesus "com o coração de pai". São José é o pai amoroso que soube dispensar todos os cuidados necessários para com o filho (Jesus) e a esposa (Maria). Ele é o pai de ternura que ensinou a Jesus a suportar com mansidão a fragilidade humana e a agir com compaixão diante da fragilidade do outro. É o pai na obediência que sabe fazer a vontade de Deus, isso certamente tenha inspirado a Jesus, no momento mais doloroso da sua vida, a "preferir que se cumprisse a vontade do Pai, e não a sua" (cf. Lc, 22, 42). José também foi pai no acolhimento que mesmo não compreendendo todas as situações de sua vida, acolhe como dom e com responsabilidade de homem, pois acredita na fidelidade de Deus. Ele é pai com coragem criativa que nos ensina que "se, em determinadas situações, parece que Deus não nos ajuda, isso não significa que nos tenha abandonado, mas que confia em nós com aquilo que podemos projetar, inventar, encontrar". São José é o pai trabalhador com quem Jesus "aprendeu o valor, a dignidade e a alegria do que significa comer o pão fruto do próprio trabalho", ao ponto de ser "o carpinteiro" (cf. Mc 6, 3). Por fim, o papa apresenta São José como o pai na sombra, "que é para Jesus, a sombra do Pai celeste, guarda-O, protege-O, segue os seus passos sem nunca se afastar d'Ele", porém, sabe amá-Lo com um amor casto, ou seja, um amor livre, que não pretende possuir.

Essas características da paternidade de São José evidenciam o seu papel decisivo na história da salvação, pois "colocou-se inteiramente ao serviço do plano salvífico de Deus" (São João Crisóstomo). Por isso, São José é um pai que foi sempre amado pelo povo cristão e nos impele a implorar a sua intercessão, para que no cotidiano de nossas vidas possamos imitar as suas virtudes e o seu cuidado paternal. Como São José, possamos também nós, aprender "a passar despercebidos" no exercício de nossa cidadania e no cultivo da fé, sem nos esquecermos de que as pequenas ações realizadas pelo outro, com amor e justiça, podem fazer a diferença nesse mundo tão necessitado de humanidade e esperança.

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia – Arquidiocese de Teresina-Piauí.



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