Religião

19/03/2021 | domtotal.com

A caridade ainda é um distintivo dos cristãos?

Com seu pontificado, Francisco quer reforçar um modelo de vida que sempre esteve na base da formação da doutrina cristã. O problema é saber se ainda o seguem

Papa Francisco almoça com pobres atendidos pela Igreja Católica em Florença, Itália, em 2015
Papa Francisco almoça com pobres atendidos pela Igreja Católica em Florença, Itália, em 2015 (Vatican Media)

Mirticeli Medeiros*

Quando o imperador Juliano, conhecido como "o apóstata" (331-363 d. C), instaurou sua política religiosa, quis acabar com o cristianismo em Roma, na tentativa de restaurar as antigas virtudes civis e o próprio paganismo. Escreveu um texto chamado Contra os galileus que, anos mais tarde, seria refutado por Cirilo de Alexandria, bispo egípcio, considerado um dos pais da Igreja na era primitiva.

Mas o que estava por trás dessa repulsa aos seguidores de Jesus Cristo, quase 50 anos depois de o cristianismo ter sido reconhecido com uma entre as tantas religiões lícitas do Império?

Neste caso, para responder à pergunta, devemos recorrer à própria história de vida de Juliano. Em 313 d.C, seu tio, Constantino, o Grande, permitiu liberdade de culto aos cristãos. Até aquela data, alguns imperadores haviam perseguido muitos membros da religião nascente.

Em 337 d.C, toda a família de Juliano, com exceção de um irmão, foi assassinada pelo exército imperial, poucos meses após a morte de Constantino. Foi uma forma de evitar que outros membros da dinastia constantiniana viessem a reivindicar o trono. Constâncio II, filho de Constantino, tinha acabado de ser proclamado imperador. Embora as fontes antigas não cheguem a um consenso a respeito de quem teria sido o mandante do crime, Juliano não se conformou com o fato de que, pela ação ou omissão de uma autoridade que se professava cristã, seus parentes tenham sido executados.

Após receber uma sólida formação cultural em Constantinopla, tornou-se um adepto do neoplatonismo, que era considerado, basicamente, uma seita filosófico-religiosa na época. Outro fato que, segundo historiadores, o teria influenciado, foi a presença de bispos arianos na sua formação cristã, os quais, segundo as fontes, se envolviam em escândalos e complôs contra membros da própria Igreja.

Apesar de ter sido declarado "apóstata" pelos dirigentes da Igreja na época, por causa de suas convicções religiosas, Juliano não chegou a martirizar os cristãos. Disse, inclusive, em uma de suas cartas: "Não quero que os galileus sejam mortos e perseguidos injustamente".

No Epistolário de Juliano, que reúne os textos escritos pelo imperador durante o seu governo, uma mensagem, em particular, chama bastante a atenção. Trata-se da epístola 84, endereçada ao sumo sacerdote Arsacio, da província romana da Galácia (hoje, parte da Turquia), em 362 d.C. Nela, o imperador reconhecia que algumas qualidades dos cristãos deveriam ser imitadas, pois era isso, justamente, que os distinguia dos demais cidadãos romanos. Ele destaca três: "a filantropia para com os estrangeiros, o respeito pelos mortos, principalmente no ato de conferir-lhes uma sepultura digna e a austeridade de vida".

Na sua encíclica Deus caritas est, Bento XVI cita o caso do imperador Juliano. O papa emérito, ao comentar o episódio, salienta que "a força do cristianismo se expande para além das fronteiras da fé". E acrescenta: "Por isso é importante que a atividade caritativa da Igreja mantenha todo o seu esplendor".

A caridade sempre foi um distintivo do cristianismo, ainda que, em alguns períodos da história, ela tenha sido negligenciada por algumas autoridades católicas. E revisitando a própria história, é incompreensível se opor a um papa que se esforça para promover, justamente, um dos pilares da doutrina de Jesus Cristo.

Francisco é massacrado, dia e noite, pelos próprios católicos por 'focar no social', como se isso fosse um pecado.

Quando o pontífice argentino fala de uma 'opção preferencial pelos pobres', não quer simplesmente replicar um dos lemas da Teologia da Libertação, e mais precisamente da Teologia do Povo argentina, que influencia bastante o seu pontificado. Ele repetiu, em várias ocasiões, que se baseia, justamente, no Evangelho – o manual, por excelência, dos primeiros cristãos.

E aí, vem o questionamento: o que chama a atenção das pessoas no cristianismo hoje? Os 'Julianos' de hoje nutrem alguma admiração pelos seguidores de Cristo? O que distingue os cristãos daqueles que não professam a fé na atualidade? A religião de Cristo perdeu o poder de atração por causa de seus membros?

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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