Ciência e Tecnologia

21/03/2021 | domtotal.com

Podcasts resgatam o áudio como meio de comunicação, que vive momento inédito

Redes sociais se adaptam em busca de maior sintonia com a tendência do áudio

Versatilidade de podcasts e aplicativos de áudio tem alcançado cada vez mais adeptos
Versatilidade de podcasts e aplicativos de áudio tem alcançado cada vez mais adeptos (Pixabay)

O áudio vive um momento revolucionário graças ao formato digital, um fenômeno liderado pelos podcasts, com a vantagem de ser acessível a qualquer momento. O fenômenotem se espalhado por todo o mundo, também obrigando as redes sociais a se adaptar e incluir mais opções nos formatos restritos e textos e imagens. 

Steve Ackerman, diretor de conteúdo da Somethin' Else, a maior produtora de podcasts do Reino Unido, acredita que vivemos "a idade de ouro do áudio". Ele observa que "a mudança que observamos com o podcast é surpreendente, com uma explosão das audiências", acrescentando que o período pode ser comparado ao início da televisão sob demanda, com o surgimento da Netflix. O trunfo do podcast é que "há algo para todos os gostos: independentemente de ser seguido por milhões de pessoas, ou por apenas 20", acrescenta.

Os números são impressionantes, em particular em alguns países. Na liderança estão os sul-coreanos, com 58% de ouvintes de podcasts no mês passado, seguidos por espanhóis (40%) e suecos (38%), de acordo com a empresa Statista. Nos Estados Unidos, quase 80 milhões de pessoas consomem o formato semanalmente, revelou o último relatório da Edison Research. Na França, 14% dos cidadãos escutam a cada semana podcasts originais, ou seja, que não são retransmissões de rádio, de acordo com um estudo da Havas Paris/Institut CSA.

Os confinamentos aceleraram o processo de escuta e a descoberta, mas o podcast é um "fenômeno de massa que acelera independentemente do que aconteça", afirmou em outubro o diretor do Instituto CSA, Yves del Frate, durante o Paris Podcast Festival. O fenômeno encontra seu lugar inclusive "onde não é possível ter uma tela, como quando você está trabalhando (em alguns empregos), dirigindo, ou correndo", observa Ackerman, para quem é um "novo hábito".

O mesmo acontece com o audiolivro, concebido em um primeiro momento para as pessoas com deficiência visual. Como prova, a plataforma de música por streaming Spotify lançou em janeiro audiolivros próprios narrados por famosos, como por exemplo a atriz Hillary Swank e o ator Forest Whitaker.

As histórias que são apenas ouvidas "podem ser mais palpitantes e cativantes", explica a especialista em fala Elizabeth Fresnel, fundadora do Laboratório da Voz na França. Isto é confirmado por um estudo coordenado pelo psicólogo experimental Daniel Richardson da University College de Londres, que comparou os impactos do áudio e do vídeo no cérebro.

Para a pesquisa, estudantes assistiram e depois ouviram a versão em áudio das principais cenas do filme O silêncio dos inocentes e da série Game of thrones. Richardson constatou uma contradição: os estudantes afirmaram que tiveram uma reação emocional mais intensa com os vídeos, mas seus corpos mostraram o contrário.

"Com a versão em áudio, a temperatura corporal foi mais elevada, o ritmo cardíaco aumentou e diminuiu mais e a atividade eletrodérmica, que mostra a excitação corporal, foi mais perceptível. Seu cérebro foi mais solicitado, e isto se refletiu em sua psicologia", descreveu o especialista.

Uma voz vale mais que mil imagens?

A jornalista Charlotte Pudlowski, que em 2018 foi uma das fundadoras do Louie Media, um dos primeiros estúdios de gravação de podcasts na França afirma que "a voz é portadora de muitas emoções". Em sua produção mais recente, Ou peut-être une nuit, a jornalista examina os mecanismos de silêncio na violência sexual com vários depoimentos.

As vozes destas mulheres "denotam esta violência", relata Pudlowski, que cita como exemplo uma voz que hesita subitamente, ou outra que titubeia com a palavra estupro. "Quando estas histórias são contadas é fácil cair no sórdido: (o áudio) permite evitar o espetacular, o vulgar e encontrar um equilíbrio entre a emoção e a necessidade ver as coisas de fora", afirma. Com o corpo, seja com a postura, seja com as expressões, "é possível eventualmente falsificar as emoções, mas a voz falará muito mais sobre o que alguém é e o que alguém sente", destaca Fresnel.

Mídias sociais se adaptam

As principais redes sociais estão lutando para evitar que os usuários sejam seduzidos por concorrentes apenas de áudio, especialmente porque as pessoas estão cansadas de olhar telas em uma época em que trabalhar, ensinar e brincar remotamente vêm em primeiro lugar por causa da pandemia.

Em uma pausa das fotos estilizadas ou dos vídeos divertidos consumidos como colírio para os olhos no TikTok, Instagram e outras mídias sociais, o Clubhouse reavivou o apetite pelas conversas. Desde o seu lançamento, há quase um ano, o Clubhouse permite que os usuários hospedem chats sobre os mais variados temas em "salas" virtuais em que outros membros da plataforma podem entrar livremente.

O Twitter tem testado desde dezembro o "Spaces" na tentativa de adicionar o recurso de discussão de voz em grupo o mais rápido possível. A rede social começou no ano passado a permitir aos usuários enviar tuítes falados de até 140 segundos.

O Instagram, de propriedade do Facebook, expandiu recentemente suas "Live Rooms" para permitir que até quatro pessoas por sala transmitam vídeos de reuniões virtuais para os seguidores. Uma funcionalidade apenas de áudio está a caminho, de acordo com o Instagram. O Facebook está supostamente trabalhando em uma oferta no estilo Clubhouse, provisoriamente apelidada de "Fireside", em sua principal rede social.

Uma startup já está testando um aplicativo também chamado Fireside, anunciado como um lugar onde os podcasters podem integrar os ouvintes, ganhando dinheiro no processo, de acordo com o site de notícias de tecnologia The Verge.

A plataforma em desenvolvimento Capiche FM estabelece o objetivo de fornecer a qualquer pessoa as ferramentas para lançar um programa de rádio online, permitindo que os ouvintes participem do chat ao vivo e até mesmo solicitem a participação na conversa ao vivo.

O Discord, lançado há cerca de seis anos como uma plataforma para os fãs de jogos eletrônicos se comunicarem enquanto jogam, tornou-se um lugar onde amigos também se encontram para conversar virtualmente, assistir filmes ou até mesmo trabalhar.

No final do ano passado, a empresa sediada em São Francisco anunciou que levantou mais US$ 100 milhões em fundos para crescer e foi avaliada em US$ 7 bilhões. Discord foi uma das plataformas on-line que acabou banindo extremistas simpáticos ao ex-presidente Donald Trump após o ataque ao Capitólio dos Estados Unidos em janeiro.


AFP/Dom Total



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