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22/03/2021 | domtotal.com

Meu encontro com um poeta

Ao ler a poesia de Cesário Verde a gente observa a presença quase constante da mulher

Foto de Cesário Verde em 1880
Foto de Cesário Verde em 1880 (Wikimedia)

Afonso Barroso*

Pego, aleatoriamente, um fascículo da minha coleção Literatura Comentada e deparo com um poeta sobejamente desconhecido no Brasil: o português José Joaquim Cesário Verde. Por certo o conhecem estudiosos da literatura luso-brasileira e alunos das faculdades de Letras, aos quais agora me junto.

Leio primeiro o que se afirma ser a autobiografia póstuma do poeta, em que ele diz ter nascido em Lisboa, num recanto rural de lindo nome: Linda-a-Pastora. "Morri em 1886, aos 31 anos", conta ele. Sabe-se que foi vítima de um mal quase pandêmico e sem cura no seu tempo e que se estendeu até as primeiras décadas do século 20, ceifando incontáveis vidas jovens: a tuberculose, que lhe subtraiu os pulmões e a vida.

Vale a pena conhecer a obra desse poeta que um dia Manoel Bandeira saudou com uma exaltação. Disse Bandeira: "Glória aos poetas de Portugal. Glória ao sempre/Verde Cesário".

A morte precoce não tirou a maturidade de Cesário Verde, que apesar da sua obra não muito extensa, pode ser incluído entre os maiores nomes da literatura portuguesa. Equipara-se a Camões, Fernando Pessoa, José Saramago, Mário Sá Carneiro, Eça de Queiroz e outros mais ou menos conhecidos do público brasileiro.

Ao ler a poesia de Cesário a gente observa a presença quase constante da mulher, que ele descreve como atraente, frágil, mas não submissa. É uma visão poética do amor, da relação equivalente homem-mulher, de certa forma contrariando a realidade do predomínio masculino sobre a figura feminina, o que era uma espécie de dogma social na época.

Poesia é a expressão mais admirável da palavra escrita. Um soneto de Olavo Bilac ou Raimundo Correia, um poema de Drummond ou Manoel Bandeira, um simples verso de João Cabral de Melo Neto, um canto de dor de Castro Alves, um lírico de Gonçalves Dias ou um soneto de Jésus Rocha (este nosso contemporâneo), tudo é motivo de emoção e enlevo para a alma.

É o que se sente quando se lê a poesia de Cesário Verde. Embora seja ela produto da escola literária então vigente, os versos desse jovem poeta navegam entre o realismo e a modernidade. Destaquei e reproduzo aqui alguns desses versos, para deleite do caríssimo leitor e da amantíssima leitora. Vejam como ele trata a figura feminina no caminhar de certa donzela, quem sabe falando de alguém que amava, mesmo que fosse um amor platônico, distante, apenas sonhado:

"Sob os abafos bons que o Norte acolheria/ Com seu passinho curto e em suas lãs forrada/ Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia/ De uma ovelhinha branca, ingênua e delicada".

Coisa fina, não? Pois é com essa finesse, essa delicadeza, que o nosso pouco lembrado poeta desenvolve seus versos. Mas há também aqueles carregados de realismo, como estes:

"Uma tuberculose abriu-lhe cavernas/Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo/ E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas/ Com que se despediu de todos e do mundo/. Pobre rapaz, robusto e cheio de futuro/ Não sei dum infortúnio imenso como o seu/ Viu o seu fim chegar como um medonho muro/ E sem querer, aflito e atônito, morreu".

Parece ter descrito, nesses versos sombrios, de dura realidade, sua própria morte.

Não sou, nem jamais serei crítico literário. Sou apenas um sujeito que gosta de poesia como a de Cesário Verde, a quem o acaso me apresentou. Pelo que agradeço ao acaso.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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