Mundo

19/03/2021 | domtotal.com

Biden e Kamala vão a Atlanta para conter crimes de ódio contra asiáticos nos EUA

Na terça-feira, homem invadiu casa de massagem e matou oito mulheres asiáticas

Em várias cidades foram realizadas manifestações contra a xenofobia, o racismo e a violência
Em várias cidades foram realizadas manifestações contra a xenofobia, o racismo e a violência (Ringo Chiu/AFP)

Para muitos americanos de origem asiática, o massacre de Atlanta que deixou oito mortos - entre eles seis mulheres asiáticas -, não foi surpreendente. Entre as comunidades espalhadas pelos Estados Unidos, o ataque foi visto como o exemplo mais recente da violência racial dirigida contra asiáticos durante a pandemia.

Diante do crescimento da violência, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, viajou nesta sexta-feira (19) a Atlanta acompanhado da vice-presidente Kamala Harris para reiterar seu compromisso com o combate à "xenofobia, intolerância e ódio". Ambos se reunirão com representantes da comunidade asiática e das ilhas do Pacífico e fará um discurso na Emory University. "Eles se reunirão com legisladores estaduais e representantes da comunidade para ouvir sobre o impacto do incidente na comunidade e ouvir sua perspectiva", explicou a secretária de imprensa do governo Biden, Jen Paski.

Para denunciar a violência contra esta comunidade, Biden ordenou que as bandeiras fossem colocadas a meio mastro até segunda-feira como homenagem às oito vítimas. O presidente reconheceu que independentemente das motivações do autor do tiroteio - que ainda não são claras -, compreende que as pessoas de origem asiática estão preocupadas e que vários incidentes ocorridos nos últimos meses são muito "alarmantes".

No sudeste dos EUA, onde fica Atlanta, as comunidades asiáticas vêm denunciando o aumento dos crimes de ódio. Esta semana, flores foram colocadas diante dos spas onde Robert Aaron Long, homem branco de 21 anos, matou oito pessoas na terça-feira. "A supremacia branca está literalmente nos matando", disse Stephanie Cho, diretora da ONG Asian Americans Advancing Justice de Atlanta. "A violência contra as comunidades asiáticas passou despercebida por muitos anos."

Long, autor confesso, foi acusado de homicídio após ser preso. A polícia diz que ele nega qualquer motivo racista e se apresenta como um "viciado em sexo" ansioso para acabar com "uma tentação". A justificativa aceita pelos investigadores, segundo líderes das comunidades asiáticas, apenas reforça a sensação de abandono.

Entre 19 de março de 2020 e 28 de fevereiro de 2021, houve 3.795 relatos de incidentes que variam de comentários racistas a ataques violentos contra asiáticos. Segundo dados do Centro de Estudos do Extremismo da Universidade Estadual da Califórnia, no ano passado, os crimes de ódio contra asiáticos nas 16 das maiores cidades americanas aumentaram 150% em relação ao ano anterior - ainda que o total de crimes de ódio denunciados à polícia tenha diminuído durante a pandemia.

Entre as grandes cidades, Nova York foi a que registrou o maior aumento. Em 2020, houve 28 incidentes. Em 2019, apenas três, de acordo com dados do departamento de polícia da cidade. Só no mês passado, vários ataques a vítimas asiáticas foram denunciados à polícia, incluindo a violência contra uma idosa que foi empurrada para fora de uma padaria no Queens. Mas nenhum dos incidentes foi registrado como crime de ódio. Na verdade, a única pessoa processada por crime de ódio contra um asiático em Nova York este ano foi um taiwanês, acusado de pichar mensagens contra a China.

Os ativistas culpam, em parte, o ex-presidente Donald Trump, que repetidamente se referiu ao coronavírus, registrado pela primeira vez na cidade chinesa de Wuhan, como o "vírus da China". "É assustador", disse Sam, chinês de 20 anos, que não quis revelar seu nome completo, em Atlanta, onde trabalha em uma lanchonete.

O ex-candidato democrata Andrew Yang pediu ao governo que reconheça a natureza racista desses ataques. "Eles são atacados por causa de sua raça. Sabemos disso e temos que começar a agir sobre isso", observou em um comício em Nova York. Yang, um empresário de sucesso, conta que cresceu sob um véu de invisibilidade, tendo sido alvo do ridículo e de desprezo, em um relato no qual, com a voz trêmula, diz que essa hostilidade foi se transformando de forma "mortal, virulenta e odiosa".

Para Sarah Park, presidente da Coalizão Coreano-Americana Metro Atlanta, o racismo envolvido nos ataques é evidente. "Sim, é um crime de ódio contra os americanos de origem asiática", disse Park, criticando a relutância das autoridades em processar a violência. "Temos o direito de proteger nossa comunidade e eles seriam protegidos se todos fizessem sua parte."

"Não somos realmente americanos. Somos perpetuamente estrangeiros. E essa ideia se aplica às mulheres como sendo excessivamente sexualizadas", disse Helen Kim Ho, uma coreana-americana e fundadora do grupo Asian Americans Advancing Justice, de Atlanta. "Tudo isso deve ter acontecido na própria mente deste homem. Além da noção tácita de que os asiáticos são alvos fáceis."

O massacre de oito pessoas na Geórgia fez o presidente dos EUA, Joe Biden, marcar uma reunião hoje em Atlanta com líderes e legisladores estaduais da comunidade asiática. Ele se disse preocupado com o recente aumento da violência contra asiáticos no país. "Sei que os americanos de origem asiática estão preocupados", afirmou. "Neste exato momento, muitos deles - nossos compatriotas - estão na linha de frente da pandemia, tentando salvar vidas, e ainda são forçados a viver com medo por suas vidas andando pelas ruas dos EUA. É errado, não é americano e deve parar."

Para as mulheres, o momento é ameaçador. Assim que Crystal Jin-kim soube do ataque, ela pediu aos pais, que vieram da Coreia, que tomassem cuidado. "Desde criança, ouço insultos raciais dirigidos a mim ou aos meus pais. Testemunhei meus pais serem tratados como estúpidos porque o inglês deles não é perfeito", disse Kim.

Mais de 68% dos casos documentados de assédio e violência contra asiáticos desde o início da pandemia foram contra mulheres. Jane Kim Coloseus ficou furiosa quando a polícia de Atlanta declarou que era cedo para dizer se o massacre tinha motivação racial. "Como mulher asiática, isso traz à tona experiências de assédio que vivenciamos, e isso foi invalidado pelo que o atirador disse", afirmou Coloseus, diretora da ONG Her Term, que recruta mulheres para concorrer a cargos públicos na Geórgia.

Há muito ela sente que precisa ser mais cautelosa no trabalho e nas ruas, em razão do racismo e da sexualização das mulheres asiáticas. "Os asiáticos há muito fazem parte da estrutura dos EUA, mas foram mantidos à margem como minoria-modelo e suas vozes foram ignoradas. Para mim, a equação é direta", disse, sobre a intenção do atirador. "Foi racismo."


Agência Estado/AFP/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!