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22/03/2021 | domtotal.com

Não há vacina para a paranoia

Desde que as pessoas se aperceberam que uma epidemia mortal andava à solta pelo mundo, que se procura uma solução, indo as opiniões sobre a peste da bruxaria ao desespero

Enfermeira prepara dose da vacina Sputnik V (Gam-Covid-Vac) em clínica de Moscou
Enfermeira prepara dose da vacina Sputnik V (Gam-Covid-Vac) em clínica de Moscou (Natalia Kolesnikova/AFP)

José Couto Nogueira*

As atitudes perante as vacinas vão desde a negação absoluta da sua necessidade às manobras para passar à frente de toda a gente e levá-la primeiro, passando pela desconfiança alimentada elas teorias da conspiração (como de que poderão ser responsáveis pelo autismo). Pelo meio, há aqueles que têm medo, mas estão dispostos a arriscar e os que nem podem decidir porque não têm acesso ao elixir.

Não são só as pessoas, individualmente, que mostram comportamentos diversos face à ameaça; os governos, instituições, organizações e as ocasionais manifestações de rua, também contribuem para uma cacofonia de achismos que, no seu conjunto, não pode deixar de ser considerada uma paranoia coletiva.

Neste momento, um ano e pouco sobre a descoberta do mal, mais de setenta laboratórios desenvolvem pesquisas sobre as vacinas, e sete destas vacinas estão já em circulação, certificadas por incontáveis autoridades e reguladores, regionais, nacionais e mundiais, nem todos de acordo, evidentemente. As vacinas aprovadas são dos laboratórios ou consórcios: Moderna, Oxford-AstraZeneca, BioNTech.Pfizer, Sputnik V, Sinofarm, Sinovax e Covaxin.

Uma coisa são as marcas, outra coisa são as fábricas. Uma vacina pode ser produzida em vários locais, dentro da mesma empresa, por acordo entre empresas, ou por subcontrato. Esta profusão de origens, bem-vinda e necessária, provoca uma grande confusão na distribuição, uma vez que todos as queremos, estando os seus produtores ainda estão bem longe de atingir os números da procura. Outros fatores que não deveriam ter interferência, mas têm, são os nacionalismos e regionalismos. Nós primeiro, os outros... logo se vê.

Quem diria, por exemplo, que um país tão clássico como a Itália se apropriaria indevidamente de 250 mil doses de AstraZeneca em trânsito para a Austrália? Este episódio não é único, antes pelo contrário. Os Estados Unidos alegaram não exportar vacinas enquanto não houver em número suficiente para os seus compatriotas. A Europa e o Reino Unido andam num puxa para cá puxa para lá porque as doses produzidas na ilha não alcançam o continente, ou porque as produzidas no continente não chegam à ilha, ou ambas as coisas. Há o consórcio internacional, o Gavi (dirigido pelo carreirista português Manuel Durão Barroso, que nada sabe destes assuntos) cujo programa, Covax, se propõe liricamente enviar vacinas em número equitativo para o mundo inteiro, sobretudo para aqueles países que nem têm para comer, quanto mais para vacinar. No passado dia 3 deste mês, foi com grande fanfarra que a Costa do Marfim e o Gana receberam respectivamente 600 mil e 504 mil doses. Dois países apenas, num universo de mais de uma centena (considerando que há cerca de duzentos ao todo, dependendo da fonte), receberam menos de um milhão de unidades, enquanto outros já vão nas centenas de milhões.

Não deixa de ser interessante que estas vacinas tenham vindo da Índia. Foram fabricadas pelo Serum Institute, em Pune. Esta empresa, fundada em 1966 e especializada em todo o tipo de vacinas, é "apenas" a maior produtora do mundo. Foi esta dimensão colossal – exporta para dezenas de países – que lhe permitiu apostar numa vacina contra o Coronavírus antes dela existir. Ou seja, em agosto do ano passado, ainda nenhuma vacina tendo sido aprovada, já o Serum Institute estavava a construir fábricas e a comprar frascos, numa postura que o seu dono, Adar Poonawalla, apelida de "risco calculado". Atualmente a Índia produz duas, a AstraZeneca (sob o nome Covishield) e outra, criada por um laboratório chamado Bharat Biotech. Assim, é de longe o maior produtor do mundo.

Neste vídeo pode fazer uma visita à fábrica do Serum Institute:


Como não podia deixar de ser – mas devia – existe uma componente política nas histórias do combate à Covid-19. Além das guerras das vacinas, há a das máscaras (e já houve das seringas). Nos Estados Unidos, por razões a que todos assistimos (mas que ainda assim desafiam o bom senso), ser "pró-máscara" é uma postura liberal e de esquerda, enquanto ser "contra-máscara" se tornou uma bandeira dos conservadores e da direita. Já na França e no País Basco, tanto a direita como a esquerda se manifestaram contra as máscaras. Pode dizer-se que são um sinal de respeito pela saúde dos outros, ou que é um atentado à liberdade individual. Nos países ditos mais civilizados, os jovens, que não têm bandeiras tão distintas como tinham no século passado, fazem questão de não usar máscara e juntam-se aos magotes numa demonstração de atrevimento destemido e desafio às normas.

E não é só a plebe rude que tem as suas opiniões estranhas. O ex-presidente dos Estados Unidos, país com 331 milhões de habitantes, aconselhou os seus cidadãos a tomar desinfetante, e disse que a pandemia iria desaparecer por si só; outro, no Brasil, com 213 milhões e o presente recorde de mortes diárias, o presidente insiste que se trata de uma gripezinha que não assusta os verdadeiros machos.

Paralelamente, têm corrido os boatos mais estapafúrdios. Há, evidentemente, os que são contra as vacinas – todas – porque uma epidemia é a vontade de Deus, porque as farmacêuticas, essas bandidas, compactuam com teses demoníacas de alteração do DNA, porque incluem um chip que controla a mente, porque têm efeitos secundários terríveis, ou porque ser contra é simplesmente uma postura "cool", de quem sabe o que os outros não sabem.

Depois há as vacinas cuja origem e falta de transparência no processo de certificação levantam dúvidas, e que mais parecem criações de relações públicas e propaganda política, como é o caso da Sputnik e da Sinovac. A vacina russa não submetida à aprovada dos órgãos internacionais competentes e sabe-se que milhares de soldados do exército russo foram vacinados compulsivamente antes mesmo dos ensaios credíveis serem publicamente apresentados. Quanto à vacina chinesa, basta recordar que metade dos ventiladores que a China vendeu a Portugal tinha falta de peças e funcionava mal. Como se pode confiar num país produtor que até falsifica pasta de dentes?

Ou seja, existe uma dimensão ideológica onde só deveria haver considerações sanitárias, ou existem ainda considerações sanitárias com coloração política.

Todos têm razão e ninguém tem razão alguma, como sempre acontece quando se abate uma grande desgraça sobre os humanos.

A questão não é exclusivamente sanitária, mas do domínio da filosofia; como é que temos conseguido sobreviver a nós próprios?

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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