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23/03/2021 | domtotal.com

Os milagres do dia a dia

Conheça o filósofo holandês Paul van Tongeren, dono do título de 'pensador da Pátria'

Paul van Tongeren mora em Nijmegen, onde foi professor
Paul van Tongeren mora em Nijmegen, onde foi professor (Merlijn Doomernik)

Lev Chaim*

"Pensar significa emoções, opiniões, ponderações e escolhas!", com esta frase aparentemente simples, porém nada mais enganoso, o filósofo holandês Paul van Tongeren dá a sua primeira entrevista à imprensa da Holanda, já na posição de o escolhido para ocupar o cargo honorário de "o pensador da Pátria". Ele foi escolhido para este posto por um seleto grupo de intelectuais para servir de referência pública, intelectual, moral e cívica à nação, que aprecia as artimanhas do bem pensar. Seria um exemplo de um intelectual para todos. Van Tongeren está estabelecido na cidade holandesa de Nijmegen, onde leciona na universidade local e também na universidade da cidade belga de Leuven. Este seu cargo honorário vai de abril de 2021 até abril de 2023.

Quando o comitê seletivo estava em sua casa para convidá-lo a assumir o posto, a primeira pergunta que ouvimos de Van Tongeren foi: "Vocês sabem que idade eu tenho?". Sim, todos ali sabiam e ele foi o escolhido na seleção final entre os melhores filósofos do país. É um homem de 70 anos (até o momento este comitê tinha preferência por mulheres), com uma cultura erudita, mas sempre conectada com grande parte da cultura popular, como se pode ver em seus artigos publicados e em seus livros. Ele não é esnobe e nunca opina sem antes pensar e refletir, consultando as fontes necessárias, mesmo que elas já estejam gravadas em seu cérebro, o que se tornaria uma reavaliação de seus pensamentos. Ou seja, um filósofo diferente de muitos outros, porque nunca tem a resposta para as perguntas na ponta da língua, ou seja, falar sem refletir muito.

Paul van Tongeren disse que nos últimos 20 anos ele trabalhou para construir uma teoria filosófica acadêmica e uma teoria filosófica pública, ou seja, uma filosofia popular mais próxima de nós, os leigos em filosofia. Ao aceitar esse cargo de "o pensador da Pátria", ele propôs aproximar esses dois mundos: o acadêmico e o público. Para ele, esses dois patamares não podem se distanciar um do outro. Ele quer levar ao povo a filosofia acadêmica, como também quer levar à universidade o conhecimento filosófico popular que, para ele, são partes integrantes e indispensáveis para a forma de pensar e raciocinar.

Na universidade, Van tongeren tornou-se um especialista na filosofia de Nietzsche, como também uma referência na virtude ética do grande filósofo Aristóteles. Com base nessas duas ramificações específicas da matéria filosofia, ele já escreveu mais de 10 livros filosóficos também direcionados para leigos na matéria, tal como o seu famoso livro: O milagre do significado (tradução livre do título em holandês, Het wonder van betekenis). Com o seu outro livro, A vida é uma arte (Het leve is een kunst), ele ganhou uma dos maiores prêmios da filosofia, a Taça de Aristótoles, em 2013, prêmio este para distinguir filósofos do país. A versão deste livro em inglês, pela editora Bloomsbury, teve o seu título adaptado para A arte de se viver bem (The art of living well). Portanto, podemos concluir que este novo "pensador da Pátria" é um intelectual erudito que não se gaba de seu próprio conhecimento, tal qual muitos por aí, pelo mundo afora. Ele disse sim ao convite para esse cargo honorário importante após ter discutido o assunto com a sua esposa Franca e os seus três filhos já adultos. É um cargo também estafante porque tudo que ele disser, daqui para frente, vai ser analisado e discutido por todos os colegas e a população em geral.

Como Van Tongeren vê essa sua nova posição de "pensador da Pátria"? Suas palavras: 

"Ser um pensador da pátria é trazer um pensamento tão filosófico quanto religioso. Numa formulação mais curta seria o milagre do significado. Isto para mim está se tornando cada vez mais importante do que todas as outras correntes do pensamento, pois é a corrente onde se apoia a vida humana e tudo que pode ser pensado. É uma coisa muito elementar, mas, às vezes, descubro, para meu horror, que não é fácil demonstrá-lo. A partir do momento em que comecei a pensar o que gostaria de apresentar como o pensador da Pátria, logo conclui que tinha que colocar isso em ordem".

Continuando a sua narrativa, van Tongeren relembrou que, se você olhar com cuidado à sua volta, tudo tem um significado. Mas, para muitos outros, grupo do qual ele não faz parte, dizem que "não existe um significado, mas nós é que damos esse significado". O mesmo que dizer que não existe a "beleza" no próprio objeto de análise, mas nos olhos de quem o analisa. Ou a mesma coisa sobre algo sonoro que você escuta. Se é barulho ou música, com o seu autoconhecimento para distinguir, e se gostar do que está ouvindo, você vai ouvir com mais cuidado para poder interpretar melhor a música que estiver sendo tocada. 

Paul van Tongeren é bem claro em suas afirmações, tais quais aqui, quando ele explica a sua posição frente a matéria filosofia, até então, pensado ser coisa apenas para intelectuais. "Se você pensa que a filosofia é coisa de intelectual, livros ou biblioteca, está completamente enganado. A partir do momento que, pela manhã, você abre a janela, olha o tempo e exclama que o tempo está lindo, feio, cinza, chuvoso ou nublado, você já está exercitando um pensamento filosófico ao interpretar o tempo. Talvez para mim seja isto, o que para outro possa ser uma coisa totalmente diferente". Aí o livro de Paul Tongeren, editado agora na Holanda, pela editora Uitegeverij, Het wonder van betekenis (O milagre do significado).

Portanto meus caros leitores, a Holanda tem esse cargo honorário de "o pensador da Pátria", que tem que ser aceito por todos e por diversos setores da sociedade, mesmo que eles pensem diferente. Paulo van Tongeren não é se misturar-se na política e nem na religião, mas indiretamente fala sobre esses dois tópicos importantes para a sociedade de um modo geral, já que a filosofia abrange um leque de assuntos muito relevantes de nosso pequeno-grande mundo. 

Como disse o filósofo francês Renné Descartes, "penso, logo existo". Não seria uma boa para o Brasil, um cargo desses dado a um intelectual ilibado e com experiência no assunto? Que tal o professor e jurista Modesto Carvalhosa, autor da obra O livro negro da corrupção. Concordam comigo?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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