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23/03/2021 | domtotal.com

IA, o mercado e a academia

O custo de perder o bonde é tão alto que é difícil até de estimar.

Habilidades em programação, aprendizado de máquina, big data, nuvem e segurança cibernética no uso de IA e outras têm sido exigidas de profissionais de diversas áreas
Habilidades em programação, aprendizado de máquina, big data, nuvem e segurança cibernética no uso de IA e outras têm sido exigidas de profissionais de diversas áreas (Unsplash/Marília Castelli)

Jose Antonio de Sousa Neto*

Uma reportagem publicada recentemente pelo Le Figaro da França chama a atenção para o fato de que as chamadas grandes escolas francesas de ensino superior (les grandes écoles) têm buscado responder às prementes necessidades dos mercados e das empresas, que prestam cada vez mais atenção à inteligência artificial e às vantagens que ela representa.

Segundo pesquisa feita pela consultoria Accenture e referenciada na reportagem "três em cada quatro executivos acreditam que, se não implantarem inteligência artificial em seus negócios nos próximos cinco anos, correm o risco de sair do mercado". O que tanto atrai é a capacidade dos programas de computador, por meio de algoritmos, de realizar cálculos pesados lidando com muitas fontes de informação, e sua capacidade de melhorar continuamente".

As escolas de engenharia estão obviamente na vanguarda. "IA pressupõe perfis com uma base sólida de matemática aplicada e informática", explica Vincent Mousseau, diretor de um curso em inteligência artificial ministrado por uma instituição de ensino superior francesa. No contexto do ensino da engenharia, habilidades em programação, aprendizado de máquina, big data, nuvem e segurança cibernética no uso de IA, dentre outros diversos temas relacionados, já são uma premência na construção de uma formação profissional que atenda às exigências da revolução tecnológica e industrial que está em curso.

Um elemento interessante desta realidade é que mesmo linhas que separavam, por exemplo, cursos de engenharia e administração, têm se tornado menos definidas ou mais "permeáveis" no que concerne às necessidades de conhecimentos básicos. Segundo uma importante escola francesa de administração, seus alunos estão na junção das áreas de gestão e de engenharia e a instituição tem como objetivo formar consultores em transformação digital, analistas de negócios, e gestores de projetos que saibam lançar mão das extraordinários ferramentas e dos recursos proporcionados pela ciência de dados e a IA. Na verdade, a necessidade de uma formação básica nestes temas está se tornando "universal", abrangendo inclusive áreas em princípio distantes da engenharia e da administração tais como, dentre tantas outras, as áreas de ciências biológicas e ciências humanas.

No Brasil será muito importante e urgente um empenho comum e uma cooperação entre as instituições de ensino superior do país e o Ministério da Educação. A palavra-chave e estratégica para o país é agilidade. Países como os EUA, o Reino Unido, a França e a China têm priorizado esta discussão e colocado em prática as transformações necessárias. Precisamos pensar no aperfeiçoamento curricular de nossos cursos superiores não como eventos pontuais, mas como um processo permanente e contínuo. Não podemos perder de vista que neste novo mundo temos também um novo paradoxo. Ao mesmo tempo em que acontece um inevitável aumento e aprofundamento das especializações como consequência da evolução do conhecimento e das tecnologias, algumas habilidades, tanto técnicas como humanas, se tornaram cada vez mais transversais às mais diversas áreas do conhecimento. A "gestão" deste paradoxo é preponderante/essencial para a competitividade dos novos profissionais que estaremos formando. Além disso, essa competitividade deve ser compreendida em um contexto global. Em outras palavras, agora e no futuro, os jovens que estamos formando no Brasil vão competir inclusive com profissionais que não são de suas respectivas áreas de formação principal e nem mesmo são, estão ou estarão em nosso país. Já estamos correndo contra o tempo e o custo de perder o bonde é tão alto que é difícil até de estimar.

*Professor da EMGE (Escola de Engenharia e Computação)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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