Coronavírus

24/03/2021 | domtotal.com

Brasil atinge 300 mil mortes por Covid-19 em cenário de agravamento da pandemia

País vive agravamento da pandemia e sistema de saúde em colapso em todas as regiões

Brasil é o segundo país do mundo em número de mortos por Covid-19
Brasil é o segundo país do mundo em número de mortos por Covid-19 (Montagem Thiago Ventura/ Fotos divulgação)

Cássia Maia, Pablo Pires Fernandes e Rômulo Ávila

"Falei para ele ficar tranquilo, que a gente iria cuidar dele com muito carinho e ele iria ficar bem. Mas ele mesmo percebeu que a situação dele era muito grave e, então, me pediu para fazer uma ligação de vídeo-chamada para a filha. Peguei meu celular mesmo e fiz a ligação. Ele conversou com a filha já se despedindo dela", relata ao Dom Total a médica intensivista da Santa Casa de Belo Horizonte, Fernanda Helena Caputo Gomes, de 39 anos.

O caso ocorrido em Belo Horizonte é apenas uma das mais de 300 mil vidas perdidas em pouco mais de um ano da pandemia de Covid-19 no Brasil. Mais de 300 mil vidas interrompidas, mais de 300 mil sonhos transformados em pesadelo, mais 300 mil famílias brasileiras destruídas. A marca atingida nesta quarta-feira é maior tragédia da história do país superando, e muito, a gripe espanhola, responsável por 35 mil óbitos há 100 anos.

O número de óbitos foi de 1.172 nas últimas 24 horas, segundo balanço parcial (10 estados) com dados reunidos pelo consórcio de veículos de imprensa e divulgados às 16h40. Ao todo, são 300.015 mortes confirmadas. 

Para ser ideia do tamanho da tragédia, é como se a população de cidades como Divinópolis, Sete Lagoas, Governador Valadares ou Ipatinga simplesmente fossem dizimadas. As quatros cidades mineiras têm população inferior ao número de óbitos causados pela Covid-19.

E o pior ainda pode estar por vir: o trágico número de mortes é alcançado no pior momento da pandemia no Brasil, com sistema de saúde em colapso em todas as regiões do país. Na terça-feira (23), o boletim a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) alertou para o cenário de "crise humanitária" e pede que os estados adotem imediatamente medidas de lockdown por pelo menos 14 dias. Dos 26 estados da federação, mais o Distrito Federal, apenas dois estados (Acre e Rondônia) estão com a ocupação de UTIs abaixo de 80% e várias cidades vivem vive sob o risco de falta de medicamentos para intubação de pacientes graves e oxigênio. "Este colapso não foi produzido em março de 2021, mas ao longo de vários meses, refletindo os modos de organização para o enfrentamento da pandemia no país, nos estados e nos municípios", diz o boletim.

Enterro de Covid-19 no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus Marcio James/AFPEnterro de Covid-19 no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus Marcio James/AFP

Ação negacionista e falta de coordenação

Em meio ao negacionismo incentivado pelo presidente República, Jair Bolsonaro (sem partido), muitos brasileiros ignoram os riscos, se aglomeram, não usam máscara e acreditam em medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença, como a cloroquina. Desde o início da pandemia, em março de 2020, o presidente desdenhou de todas as recomendações feitas por cientistas e agências sanitárias, recusando-se a liderar um esforço coordenado no combate à crise sanitária.

O infectologista e professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Unaí Tupinambás, que integra o comitê municipal de Belo Horizonte de combate à Covid-19, acredita que muitos erros foram cometidos desde o início da pandemia e que o governo insistiu nesses erros.

"O governo não teve uma política de enfrentamento centralizada pelo Ministério da Saúde, não conseguiu fazer, por exemplo, lá no início, um contingenciamento nos aeroportos de quem chegava da Europa principalmente, nem uma barreira sanitária, depois insistiu em terapias que não tinham nenhuma aprovação, não reforçou o auxílio emergencial e o atrasou para a população, não incentivou o isolamento social, muito antes pelo contrário, menosprezou a pandemia desde o seu início", enumera o infectologista, para quem "o governo federal fez escolhas horrorosas no enfrentamento da pandemia". "E chegamos onde chegamos – agora estamos como o primeiro país em números diários de mortes e de casos de Covid. Este é o preço que nós estamos pagando por falta de um governo sério."

Brasil supera 300 mil mortes por Covid-19 (Michael Dantas) Brasil supera 300 mil mortes por Covid-19 (Michael Dantas)

A médica ginecologista Patrícia Pereira, coordenadora de uma das maiores maternidades públicas de Belo Horizonte, a maternidade do Hospital Risoleta Neves, também condena a falta de uma gestão centralizada por parte do governo federal. "O que observamos foi um total desgoverno", afirma a médica. "Em vez de centralizar as medidas e as decisões, o presidente tomou medidas que dividiu ainda mais a postura e a população e agora estamos colhendo este fruto catastrófico."

Patrícia Pereira acredita que a postura do governo de Minas Gerais, assim como da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), felizmente, foram distintas da adotada pelo governo federal. "O estado de Minas Gerais constituiu um comitê com pessoas técnicas da área da epidemiologia, montou um plano de avaliação do cenário individual de cada município, respeitando as especificidades, mas com o apoio central e uma coordenação", explica.

A médica também destaca a ação da PBH de montar um comitê e se orientar tecnicamente nas decisões. "Sou médica, sou coordenadora de uma maternidade pública de Belo Horizonte, que fica dentro de um hospital geral e, desde o começo da pandemia, vimos que muitas ações da Secretaria Municipal de Saúde foram tomadas junto com os hospitais e com os gestores." E faz questão de ressaltar o esforço das equipes da linha de frente e dos diretores: "A gente viu equipe - em todos os hospitais, não apenas no hospital onde eu trabalho - totalmente disponível, equipe que não mede esforço, que busca recursos, humanos e financeiros, e, mesmo com toda a dificuldade e toda escassez, nunca fechou porta para nada, nunca deixou de abrir um leito quando foi pedido e necessário."

Brasil teve quatro ministros da Saúde em 1 ano (Flickr Planalto)Brasil teve quatro ministros da Saúde em 1 ano (Flickr Planalto)

Declarações esdrúxulas

Mesmo diante de alertas da comunidade científica, o presidente fez declarações que chocaram o mundo pela falta de respaldo médico, solidariedade com as vítimas e preocupação em enfrentar a situação. Disse que a pandemia era superdimensionada, depois afirmou que era apenas "uma gripezinha" e chegou ao cúmulo de questionar: "E daí?", quando confrontado com uma pergunta sobre o número de mortos no país.

Confrontando as evidências, Bolsonaro sempre se eximiu de qualquer responsabilidade, atribuindo falhas no combate à pandemia ao Judiciário e aos governadores e prefeitos. Desde o início da pandemia, o Brasil já trocou três vezes o comando do Ministério da Saúde, na tentativa de impor sua visão negacionista aos ocupantes da pasta.

Diferentemente de vários líderes mundiais, que assumiram a responsabilidade e a liderança no momento de crise, o brasileiro escolheu manter suas inverdades, discursando para seu eleitorado radical e fiel em defesa de tratamento precoce ineficiente, adiando a negociação para compra de vacinas com diferentes farmacêuticas, posicionando-se contra medidas de distanciamento social e questionou a eficácia de vacinas, sugerindo, inclusive, que as pessoas poderiam se transformar em jacaré. Pelo conjunto da obra, foi escolhido como o pior líder do mundo no combate à pandemia – pelo jornal The Washington Post - ou como a maior ameaça ao país, em artigo na revista científica The Lancet.

Além de inúmeras advertências de cientistas brasileiros, o presidente Bolsonaro ainda se recusou a adotar e até mesmo a admitir as recomendações de organismos como a Organização Mundial de Saúde (OMS) ou a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Ambas entidades vinculadas às Nações Unidas reiteraram a necessidade de coordenação federal para lidar com a pandemia e demonstraram preocupação com o aumento de casos no país e a pressão sobre o sistema de saúde.


Mutações do vírus

Outro aspecto que assombra o Brasil são as variações do vírus da Covid-19 (Sars-CoV-2), uma delas originada na Amazônia. As mutações comuns aos vírus são capazes de resistir mais a anticorpos, ganham maior letalidade e, sobretudo, capacidade de transmissão muito maior, aumentando exponencialmente o contágio. Esta semana, a Fiocruz alerta que as mutações seguem evoluindo e que já foram detectadas novas alterações até então não detectadas na proteína spike (ou S) do Sars-CoV-2 em circulação no Brasil. Foram observadas mudanças em 15 amostras do vírus sequenciadas geneticamente.

Diante do cenário extremamente preocupante de mortes e casos, de colapso no sistema de saúde, somado à evolução de variantes, a esperança recai sobre as vacinas. No entanto, a condução das negociações com farmacêuticas pelo Ministério da Saúde foi desastrosa. A briga do governo federal com o governo paulista por conta da chinesa CoronaVac e a falta de diplomacia em negociar com governos de outros países para a liberação de insumos resultaram em um atraso na entrega das doses.

O epidemiologista Unaí Tupinambás acredita que "a vacina vai ter um papel importante, porque vai dar um grau de proteção para quem for vacinado e os dados estão dando conta disso". No entanto, ele reclama da morosidade. "Temos que vacinar o mais rápido possível para poder reduzir essa taxa de mortalidade elevadíssima. Então, nós temos que induzir vacinação imediata pra toda a população acima de 60 anos de idade o mais rápido possível." Tupinambás aposta que, "mesmo com a mutação, a vacina vai ter a sua eficácia, vai reduzir a mortalidade e os casos graves porque a pessoa pode até infectar pelo vírus da Covid, mas quem foi vacinado tem uma chance grande de ter um quadro mais brando".

O futuro, para Unaí Tupinambás, ainda é bastante incerto e sombrio. "A situação para as próximas duas ou três semanas é tensa. Passamos de 3 mil mortes em um único dia e a nossa média móvel de casos de mortos só está aumentando." O epidemiologista não vê a situação com otimismo. "O governo continua insistindo nessa mesma postura, jogando contra a ciência, insistindo em tratamento que não tem eficácia. Então, meu receio é que a gente realmente vá bater nas 500 mil mortes até agosto. Não vejo o cenário com muita esperança caso o governo continue insistindo nessa postura genocida."


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