Religião

25/03/2021 | domtotal.com

Oito filmes mostram o fascínio pelas freiras no cinema

Embora retratadas unidimensionalmente, filmes que falam da vida de religiosas consagradas ainda cativam

Gemma Arterton como a irmã Clodagh na série da FX 'Black Narcissus'
Gemma Arterton como a irmã Clodagh na série da FX 'Black Narcissus' (FX)

Patricia Lawler Kenet*
America

Filmes que mostram o que se passa por trás dos muros do convento, incluindo a vida interior de mulheres chamadas às ordens religiosas, satisfazem uma necessidade em mim que começou no primeiro ano, quando as Irmãs de São José entraram no meu mundo. Essas freiras eram tão severas e reservadas que fizeram minha imaginação de 6 anos de idade explodir. Eu tinha um medo mortal da irmã Joan Isabelle, que dirigia minha primeira série com mão de ferro, mas também gostava de me vestir como ela, vasculhando a gaveta e vestindo peças de linho de minha mãe para parecer o hábito sagrado.

Eu odiava, temia e queria desesperadamente ser freira. Com uma questão tão extraordinária de conflito, não havia outro lugar para onde ir além do cinema. Lá, ao longo dos anos, na escuridão da grande sala, vi freiras cantarem, batalharem por justiça social, lutarem sua sexualidade e, em uma reviravolta surpresa, aprenderem sobre sua herança judaica. Quando estava crescendo, esses filmes eram inundados de sentimentalismo e melodrama, mal arranhando a superfície da vida interior de uma freira. Apesar disso, ou talvez por causa disso, fui capturada. Aqui estão oito dos meus filmes favoritos de freiras, dos alegres aos emocionantes.

Um dos meus primeiros e favoritos de todos os tempos foi Uma cruz à beira do abismo ou The nun's story, indicado ao Oscar de melhor filme de 1959. É o epítome do dramático "filme de freira", com locações variadas (incluindo o Congo), um histórico cenário (Segunda Guerra Mundial) e personagens que incluíam uma ambivalente e bela noviça e uma irascível cidade. O atraente doutor Fortunati (Peter Finch), examina a já excitável irmã Luke, interpretada lindamente por Audrey Hepburn. Que garota católica não sussurrou: "Resista a ele!" enquanto os dedos experientes de Fortunati osculavam suas costas de pássaro? E que garota católica, incluindo eu, poderia deixar de se perguntar o que aconteceria se ela não o fizesse? Ela resiste, para meu desgosto adolescente.

Outro favorito é O céu é testemunha ou Heaven knows, mr. Allison (1957), dirigido por John Huston, em que um cabo da Marinha interpretado por Robert Mitchum naufragou em uma ilha do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial. Ele conhece a irmã Angela (Deborah Kerr), que foi deixada sozinha na ilha depois que a população nativa fugiu com medo de uma invasão. Para se esconder dos japoneses, a freira e o soldado devem coabitar em uma caverna até o resgate. Apesar dos olhos cansados de Mitchum e da barba por fazer, a irmã Angela segue o caminho mais casto. Filmes de freiras como Mr. Allison apresentam um triângulo amoroso em que é difícil competir com o terceiro: o próprio Jesus Cristo.

Embora não seja um filme completo de freiras, A noviça rebelde ou The sound of music (1965) captura a adorável jornada de Maria, uma noviça que se apaixona por um viúvo com sete filhos. Maria volta ao convento e confessa os seus sentimentos à reverenda madre, que diz: "O amor de um homem e de uma mulher também é santo. Minha filha, se você ama esse homem, não significa que ame menos a Deus". Com meninos em meu radar de adolescente e sonhos de entrar no convento se apagando, senti um alívio com as palavras da reverenda mãe.

Mas talvez um dos personagens de freiras mais aclamados e complexos veio no retrato matizado de Meryl Streep da irmã Aloysius Beauvier em Dúvida (2008). A bravura e derrota da irmã Aloysius ao confrontar um padre suspeito de abusar sexualmente de um jovem é relevante 13 anos após o lançamento do filme. A irmã Aloysius oferece um bom equilíbrio para mim: não cantava nem tocava violão, mas também não representava um desvio sexual do tipo que você encontraria em American horror story.

No entanto, alguns dos meus filmes de freira favoritos têm sido aqueles com temas mais sombrios, incluindo Os demônios (1971), Mariette in Ecstasy (2019) e Agnes de Deus (1985). Eu tinha cerca de 15 anos quando assisti Os demônios no Theatre of the Living Arts da Filadélfia, e voltei para vê-lo pelo menos mais uma dúzia de vezes com minha amiga de escola paroquial Mary Ellen Taggart. Adorava ver as freiras completamente fora de controle ?" exatamente como me sentia naquela idade.

Um outro favorito, além de Os demônios é Narciso negro. Só pude ver Narciso negro quando era adulta, quando encontrei o DVD em uma Blockbuster. É difícil imaginar o que meu "eu" de 11 anos teria feito com aquelas imagens que alimentavam minha imaginação selvagem, e meu eu adulto ainda se deleita com isso. Por mais que eu zombasse de meu marido por sua capacidade ilimitada de assistir novamente qualquer filme de Exterminador do futuro, ele me encontrou envolta em cobertores no meio da tarde, com as cortinas fechadas, saciando minha loucura profana de Narciso negro.

Neste aclamado filme britânico de 1947, dirigido por Michael Powell e Emeril Pressburger, Deborah Kerr estrela como a madre superiora de freiras enlouquecidas. A irmã Clodagh é enviada para supervisionar um grupo de freiras em um castelo no topo das montanhas do Himalaia, onde o ar é rarefeito, as paredes pintadas com murais sugerem um passado erótico e os nativos, alheios às restrições do cristianismo, abraçam os prazeres terrenos. Cada freira começa a se perder na atração do hedonismo. A irmã Phillippa, interpretada por Flora Robson, planta flores em vez dos vegetais tão necessários. A irmã Clodagh, enquanto tenta orar, deleita-se com as fantasias da vida secular ?" repleta de colares de esmeralda e um namorado rico.

Como em Uma cruz à beira do abismo e O céu é testemunha, um forasteiro sexy e barbudo se adentra na situação. Dean, interpretado por David Farrar, é um agente do governo britânico. Estupefato com a vida consagrada das freiras e as intenções de caridade, o agente tem certeza de que elas não sobreviverão, dizendo: "Eu lhes dou até a próxima chuva". Com seu chapéu desgastado, shorts enrolados e camisa desabotoada, Dean desperta o desejo da irmã Ruth (Kathleen Byron), que acaba enlouquecendo. Após uma série de eventos trágicos, as freiras deixam sua estranha e bela morada nas nuvens, abaladas e transformadas.

Quando "Narciso Negro" foi lançado em 1947, a Legião Nacional Católica da Decência condenou o filme como "uma afronta à religião e à vida religiosa" por caracterizar as ordens religiosas como "uma fuga para o anormal, o neurótico e o frustrado". Ainda assim, o filme foi um sucesso de crítica e bilheteria, conquistando o Oscar de cinematografia e direção de arte.

A BBC e a rede americana FX exibiram uma nova versão de três partes de "Narciso Negro" no final de 2020. Na versão atualizada, a irmã Clodagh é interpretada pela incandescente Gemma Arterton, cujo rosto - emoldurado por uma touca branca - retrata tristeza, saudade e devoção com grande convicção ao enfrentar os desafios de seus deveres missionários e os conflitos internos.

O novo Narciso negro, que inclui uma das últimas performances de Diana Rigg, não se afasta da história original nem tenta adicionar um novo significado. Apesar disso, a ideia de estar isolado e os desafios decorrentes da perda do ritmo da vida cotidiana ecoam com particular ressonância após os últimos 12 meses. Isso é algo com o qual todos podemos nos relacionar.

De santas a sádicas ?" e cheias de desejo por Deus, pelos homens, pelo poder e por sua própria identidade ?" freiras e filmes sobre elas continuam despertando minha curiosidade. Ainda coloco o controle remoto de lado e vejo quando por acaso transmitem um dos meus filmes antigos favoritos ?" encantada pela solenidade, confortada pelos rituais, elevada pelo compromisso. Estou bem ciente, porém, de que esses filmes do passado muitas vezes retratam as freiras como mulheres unidimensionais ?" todas boas ou todas más. Esperançosamente, no futuro, os cineastas encontrarão uma maneira de retratá-las como mulheres reais com todas as nuances, complexidade e percepção que elas merecem.

Publicado originalmente por America


Tradução: Ramón Lara

*Patricia Lawler Kenet estudou na New York University e na Temple Law School e exerceu advocacia durante 15 anos antes de voltar a escrever. Seus ensaios foram publicados no The Washington Post e no The Rumpus. Seus escritos podem ser encontrados em patricialawlerkenet.com. @lawlerkenet



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