Religião

26/03/2021 | domtotal.com

Um Deus parcial

A justiça de Deus é o indicativo de seu amor profundo e radical pelo ser humano

O Deus de Jesus tem entranhas de compaixão que se contorcem com o sofrimento do pobre. Na foto, pessoas em deslocamento em Moçambique dado o sofrimento na região de Cabo Delgado
O Deus de Jesus tem entranhas de compaixão que se contorcem com o sofrimento do pobre. Na foto, pessoas em deslocamento em Moçambique dado o sofrimento na região de Cabo Delgado (Ajuda à Igreja que Sofre)

Eduardo Rodrigues Calil*

A experiência estruturante e constitutiva do povo de Israel como povo de Deus é a experiência da libertação da escravidão do Egito. Os egípcios forçavam o povo ao trabalho e tornavam-lhe a vida amarga. É gemendo sob o peso da servidão que o povo clama a Deus. O livro do Êxodo narra essa experiência de fé: num momento em que se experimenta o aparente fim, Deus ouve o gemido de seu povo, lembra a sua aliança com Abraão, Isaac e Jacó, vê os filhos de Israel, (re)conhece-os e age: "por isso, desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e vasta" (Ex 3,8).

A justiça de Deus é sua condescendência para com o povo, é o indicativo de seu amor profundo e radical pelo ser humano. Essa experiência indicativa, torna-se um imperativo: um povo que conheceu a escravidão e foi estrangeiro em terra estranha, deve cuidar do estrangeiro (Ex 22,20). Um povo que foi tomado como filho, como esposa, precisa cuidar do órfão e da viúva, não os deixando entregues à própria sorte (Ex 22,21s). A aliança que Deus faz com o povo o compromete a cuidar dos pobres, dos oprimidos, em nome da justiça que eles conheceram no êxodo do Egito. Portanto, a justiça de Deus, indicativo de seu amor, torna-se uma lei interna: a de que sejamos capazes de ajustar-nos à justiça de Deus, que é mais larga que nosso coração.

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Os profetas não se cansarão de lembrar dessa justiça que salva, que justifica, e não deixarão de denunciar a infidelidade do povo à aliança. A denúncia dos profetas vocifera contra a injustiça e o esquecimento do direito que tem sua raiz na idolatria. Uma experiência do Deus de Israel, que seja verdadeira, leva consequentemente a uma vida obediente ao que a lei tem de mais profundo, a saber: a defesa da vida. O sentido da denúncia profética, quando a vida não é defendida, não é tanto o anúncio do castigo, mas o desejo de conversão; que o povo se converta e viva.

Com Jesus Cristo, vemos a expressão máxima da libertação do Pai. Ele realiza o anúncio da boa nova aos pobres e aos pecadores, aos excluídos. Guiado pelo Espírito, ele não cede às tentações dos espetáculos fantásticos, do sucesso fácil nem do poder (Lc 4, 1-13). É ungido pelo mesmo Espírito para anunciar aos pobres uma boa notícia, para remir os cativos e dar vista aos cegos, para restituir a liberdade, para proclamar um ano de graça (Lc 4, 16-21). Por gestos de solidariedade manifesta o seu amor; acolhe a mulher pecadora (Lc 7, 36-43); acolhe as crianças, os estrangeiros (Lc 17, 18); os pecadores, como Zaqueu (Lc 19, 1-5). Mostra, portanto, um Deus ao lado do ser humano, chama-o a viver sua humanidade. Mostra também a alegria de Deus com a conversão do pecador (Lc 15, 11-32) e anuncia que o Reino de Deus é para os pobres (Lc 14, 16-24).

Mas sua mensagem não é ouvida da mesma forma por todos. Os pobres se alegram com essa boa notícia, com o Reino de Deus já presente, mas os ricos... Ai deles, diz Jesus. Ai dos que já ganharam a consolação, dos que vivem com fartura, dos que riem e dos que já recebem suas glórias (cf. Lc 6, 24-26). Os fariseus, mestres da lei, sacerdotes também não se alegram com a mensagem de Jesus, pois foram desautorizados como representantes inequívocos de Deus. Deus não pertence a eles, dirá Jesus. E mais: não é como eles pensam. Jesus alarga a compreensão de quem é Deus, retirando-o das mãos da esfera religiosa, pondo em crise o sistema religioso hebraico, ao mostrar Deus junto aos menores e humilhados, sentando-se junto dos pecadores, fazendo curas desrespeitando o sistema legal sagrado, rompendo com a ideologia dominante do Deus da retribuição, derrubando o sistema econômico e religioso do templo que se sustentava, a partir da exploração dos mais pobres e do sangue dos animais sacrificados. Sua mensagem, portanto, não foi fonte de felicidade para todos, mas de incômodo para bastante gente. A abertura do evangelho de Lucas, só para exemplificar, já nos mostra pelo personagem Simeão, que Jesus seria causa de queda e soerguimento para muitos; um verdadeiro sinal de contradição diante do qual os pensamentos dos corações se revelam (cf. Lc 2, 34-35).

O Deus de Jesus e o Deus que se revela em Jesus é parcial, o que quer dizer que ele toma partido. As Escrituras o mostram amplamente: Deus se põe ao lado dos perdedores, dos oprimidos, dos mais pobres e aflitos. E se é assim que o Pai trabalha, é com isso que Jesus conspira. Se a justiça é fruto da condescendência de Deus que ouve o clamor de seu povo e o socorre, em Jesus, igualmente, se mostra um Deus que tem entranhas de misericórdia e decide por aqueles que são esquecidos. É Deus mesmo que desce de sua "cavalgadura" e em Jesus socorre a nossa humanidade, jogada à margem, estropiada, como na história do bom samaritano (cf. Lc 25-37).

Logo, Deus não se decide preferencialmente pelo pobre, porque ele seja moralmente mais adequado, ou porque ele seja mais fiel e piedoso, irrepreensível e impecável, mas porque seu amor é gratuito e começa por libertar aqueles que estão esquecidos, abandonados, aqueles que não têm ninguém em sua defesa, ninguém por eles. A rigor, não é que Deus não ame os ricos ou os fariseus, os mestres da lei e sacerdotes, mas na teologia bíblica, esses personagens são aqueles que ora se obstinam na surdez a Deus, ora no fechamento absoluto ao outro, no esquecimento e na indiferença ao próximo. Se espremem numa justiça estrita à letra da lei, que esquece a vida, que mata. A experiência indicativa do amor de Deus também é destinada a eles, mas muitos preferem se negar a essa experiência que compromete com o próximo e com o mais pobre. Muitos até professam a fé e dizem crer, até dizem fazer uma experiência do amor de Deus, mas ela não se transforma em compromisso ético, e por isso não passa de mentira (Cf. 1Jo 4,20).

O Deus de Jesus tem entranhas de compaixão que se contorcem com o sofrimento do pobre. A justiça de Deus, afinal, é sua misericórdia atuante e transformadora. A verdade que nos fará livres, segundo Jesus é aquela que no curso do tempo não pode ser objeto de nenhuma desmistificação ?" já que não é um enunciado experimental, lógico, não é uma proposição formal nem metafísica, senão uma apelação prática, ética: a verdade do amor. E na nossa fé, esse amor nasce da experiência de termos sido amados primeiro (1Jo 4,19). Daí que a alegria, o encontro interpessoal e o desejo de gerar a justiça, mesmo frente à dor da fome e do mal, estão além de qualquer teologia, são os motores de quem entendeu o que significa o amor cristão.

*Eduardo Rodrigues Calil é padre da diocese de Uberlândia. Formado em filosofia, teologia e psicologia, além de estar em formação psicanalítica.



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