Religião

26/03/2021 | domtotal.com

O buraco da agulha cada vez mais estreito

Se os pobres, que são os primeiros no Reino de Deus, não se salvam, ninguém se salva

No altar do capitalismo, os pobres não são caminho de salvação: mas vítimas de um holocausto cruel e injusto. Na foto, família na Síria
No altar do capitalismo, os pobres não são caminho de salvação: mas vítimas de um holocausto cruel e injusto. Na foto, família na Síria (Ajuda à Igreja que Sofre)

Felipe Magalhães Francisco*

Quem ouve as narrativas dos três evangelhos sinópticos (Mt 19,24; Mc 10,25; Lc 18,25), que contam sobre Jesus dizer que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, que um rico entrar no Reino dos Céus/de Deus, possivelmente imagina, tão logo, o animal imenso atravessando o buraco de uma ínfimo objeto de cozer. A atualização dos significantes camelo e agulha, tal como conhecemos atualmente, não inviabiliza a compreensão hiperbólica do que Jesus dizia, mesmo que, para o tempo dele, camelo e agulha pudessem significar outras coisas.

Os três evangelhos situam esta assertiva de Jesus, no contexto de um episódio no qual um homem rico o pergunta sobre o que fazer para ter/herdar a vida eterna. Destaque-se, aqui, os dois verbos utilizados pelos evangelhos. O apontamento para o fato de ser um homem rico, de posses, é bastante importante, para que compreendamos o jogo narrativo que segue. Jesus responde àquele homem, aquilo que ele já sabia: a Lei dos judeus definia o significado de ser "justo", isto é, ser cumpridor dos mandamentos. Por sua vez, o homem atesta ser um cumpridor dos preceitos. Mas Jesus aponta para algo que faltava: desapegar-se daquilo que era sua aparente recompensa.

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Um dos pilares da prática religiosa judaica daquele tempo era a teologia da retribuição, que compreendia ser abençoada a pessoa que fosse justa, isto é, cumpridora da Lei; e amaldiçoada a ímpia, que fosse uma descumpridora. Os sinais da bênção eram, basicamente, três: prosperidade, longevidade e prole numerosa. O homem de nossa narrativa é apontado como rico, logo, naquela compreensão, era um homem abençoado: sua riqueza era já sua recompensa por cumprir a Lei. Jesus, por sua vez, tem uma compreensão teológica radicalmente distinta: pauta-se na compreensão da gratuidade do amor. O discípulo e a discípula do Reino atuam desprendidamente, e não à espera de uma recompensa, mas impelidos pela gratuidade nascida do amor.

Para aquele homem, então, faltava algo muito importante: romper com uma lógica retributiva para acessar uma teo-lógica da gratuidade. O vender tudo e dar aos pobres seria o sinal inequívoco deste desprendimento, necessário para acessar existencialmente ao Reino, e desta mudança de mentalidade (= conversão). É o que Jesus aponta como caminho. Os três evangelhos são uníssonos em concluir a incapacidade daquele homem de desprender-se: era muito rico. Aqui, confirma-se a dimensão da recompensa à qual ele se apegava: era mais fácil abrir mão da participação no Reino de Deus que se desfazer daquilo que já dava aparente sentido à sua vida.

O episódio se torna uma oportunidade para que Jesus atue como Mestre para seus discípulos, quando vai mostrar a dificuldade que os ricos têm de assumir o Reinado de Deus: para quem já tem sua paga, abrir mão de tudo para viver a gratuidade do Evangelho é, de fato, muito desafiador. Abrir mão do certo, por aquilo que só a fé é capaz de sustentar, é realmente uma situação provocadora e difícil. É por isso, pois, "que é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, que um rico no Reino dos Céus". Os pobres, por outro lado, não tem a que se apegarem: a eles, só resta Deus. Aos pobres, portanto, é reservada a prioridade para vivência do Reino, pois só têm a Deus a quem confiar. Como prioridade evangélica, só podemos concluir: se os pobres, que são os primeiros, não se salvam, ninguém se salva.

Jesus não conheceu o capitalismo, sistema econômico que sacraliza o apego e o amor pelo lucro a qualquer custo. No altar dessa religião, os pobres não são caminho de salvação: mas vítimas de um holocausto cruel e injusto. Se Jesus tivesse conhecido esta realidade que tanto nos desumaniza, talvez sua metáfora seria ainda mais contundente do que já é. A parcialidade de Deus se manifesta na prática de Jesus, seu enviado e lugar-tenente: essa não é uma parcialidade que exclui os ricos da participação na salvação, mas que coloca como critério inequívoco a condição de que os empobrecidos e empobrecidas sejam os primeiros alcançados. Essa é a verdadeira justiça de Deus e do seu Reino. Com a crueldade desse sistema que oprime, indignifica e mata, o buraco da agulha está ainda mais estreito, e a parcialidade de Deus cada vez mais explícita. Se assim não fosse, o Evangelho já não teria mais sentido.

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena a editoria de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.



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