Religião

24/03/2021 | domtotal.com

Suposto abuso por padre em São Paulo respinga sobre cardeal

Advogado recusado pelo seminário acusa dom Odilo de encobrir caso de rapaz que teria sido abusado dos 17 aos 20 anos

Ao longo do documento, Scherer rebate os argumentos tanto do acusador quanto do seu advogado, dizendo que se trata de uma ação vingativa de um jovem após o término do relacionamento com o padre
Ao longo do documento, Scherer rebate os argumentos tanto do acusador quanto do seu advogado, dizendo que se trata de uma ação vingativa de um jovem após o término do relacionamento com o padre (AFP)

Inés San Martín
Crux Now

Aos 17 anos, Elissandro Nazare de Siqueira tentava ganhar a vida em São Paulo quando conheceu o padre Bartolomeu da Silva Paz, padre conhecido por suas missas animadas e eventos benéficos.

Siqueira é de Manaus, na região amazônica, no norte do Brasil, e nunca terminou a escola. O adolescente se descreve como tímido e, na época em que conheceu o padre, estava trabalhando em uma lanchonete.

A princípio viu Paz como um salvador, pois o padre encontrou para ele um quartinho na casa de um de seus paroquianos, e se tornou o faz-tudo da paróquia Nossa Senhora do Monte Serrate.

No entanto, Siqueira afirma que um relacionamento abusivo começou: Elissandro disse que em uma casa isolada de propriedade da paróquia, o padre o embebedou e o estuprou.

O suposto abuso continuaria por três anos, entre 2014 e 2017. Siqueira afirmou que continuou vivendo sob o domínio do padre por medo e desespero, até que sua namorada lhe deu o apoio necessário para parar com o abuso.

Siqueira encontrou um advogado que o ajudou a apresentar seu caso às autoridades civis e eclesiásticas. As alegações originais eram de exploração no trabalho e abuso sexual. 

O advogado Guilherme Dudus é paroquiano de Nossa Senhora do Monte Serrate. A Justiça do Trabalho do Brasil decidiu que o caso não era de sua competência, uma vez que a idade de consentimento sexual no Brasil é de 14 anos .

O cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, recebeu as denúncias e abriu uma investigação para determinar se eram verossímeis. A arquidiocese determinou que o relacionamento era consensual e não abusivo.

O site católico Crux revisou uma série de documentos, tanto do escritório do advogado como da arquidiocese, assim como documentos do Vaticano, em particular, a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), que se encarrega de revisar as denúncias de atos sexuais crimes cometidos por padres contra menores.

Entre os documentos fornecidos pela suposta vítima e seu advogado está uma carta do cardeal Luis Ladaria, de 12 de abril de 2019, dirigida a Scherer, onde escreve que "vendo a informação apresentada pelo cardeal", o caso é considerado como pro nunc repanatur, o que significa que o caso está encerrado por enquanto.

A arquidiocese argumentou que Siqueira era adulto, apesar de sua carteira de identidade provar que ele tinha 17 anos quando os abusos supostamente começaram: a lei canônica estipula que a idade de consentimento sexual é 18 anos, e isso é considerado um crime no direito da Igreja.

Segundo um canonista com conhecimento do caso, essa contradição por si só é grave e deve ser investigada. Mas, independentemente da idade de Siqueira – 17 ou 18 – o adolescente é uma pessoa vulnerável, compatível com a lei do papa Francisco de 2019 sobre abuso sexual, Vox extis lux mundi. Embora o suposto crime tenha ocorrido antes da divulgação do documento, o padre foi investigado pela Arquidiocese de São Paulo após sua efetivação.

O canonista radicado em Roma também disse que o cardeal violou seu dever de cumprir o artigo quinto do Vox extis, que pede às autoridades eclesiásticas que garantam que aqueles que afirmam ter sido feridos, junto com suas famílias, sejam tratados com dignidade e respeito.

O processo administrativo penal conduzido pela arquidiocese terminou em 27 de fevereiro de 2020: o padre foi considerado culpado de manter uma relação homossexual com Siqueira.

O decreto de 11 de março de 2020 assinado por Scherer e visto pelo Crux argumenta que, embora "comportamentos e ações de tendência homossexual e de infidelidade à promessa do celibato, com escândalo, e não consistentes com a dignidade do sacerdócio", tenham sido cometidos, não foram comprovados "crimes de abuso sexual envolvendo menor, nem crime contra o sexto mandamento, perpetrados com violência, ameaças ou publicamente".

"Conscientes da necessidade de proteger a salus animarum e que nem a correção fraterna nem a advertência, nem o afastamento do ministério sacerdotal foram suficientes para corrigir ou reparar o escândalo, parece necessária a aplicação da pena expiatória", o decreto ordena "a suspensão do ministério, por três anos", de Bartolomeu Paz. Durante este período, o sacerdote está proibido de celebrar missa em público, deve receber um tratamento de um ano em uma "instituição que ajuda os sacerdotes", deve fazer direção espiritual regular com um sacerdote nomeado pela arquidiocese, bem como acompanhamento psicológico.

Não havia menção a Siqueira no decreto, nem indicações de que o adolescente também deveria receber algum tipo de acompanhamento da arquidiocese.

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Depois que a Veja, a maior revista do Brasil, publicou uma reportagem sobre o caso, um segundo homem, Wellington Carvalho Ribeiro de Jesus, 33, se apresentou acusando Paz de abusar dele, em 2004, na véspera de Natal, quando ele tinha 17 anos: o padre, segundo consta na reportagem, deu-lhe algumas cervejas e, quando se sentiu mal, ofereceu uma cama ao jovem. Carvalho acordou com o padre se masturbando na cara dele.

Ao acordar novamente, pela manhã, foi saudado por uma faxineira, que lhe ofereceu o café da manhã. Recusou-se e foi embora do lugar, nunca mais falou com o padre, nem sobre o que tinha acontecido, até ficar sabendo do que tinha acontecido a Siqueira.

Embora o prazo de prescrição tenha expirado, Dudus apresentou uma denúncia formal contra o padre às autoridades civis em seu nome em janeiro deste ano, porque isso poderia ajudar no caso de Siqueira.

O Crux contatou a Arquidiocese de São Paulo, mas eles se recusaram a comentar o processo canônico, pois há um processo em andamento na Justiça cível e não quiseram confirmar se estão investigando a segunda acusação.

Em outro documento revisado pelo Crux, uma carta de sete páginas de Scherer ao advogado do cardeal datada de 2 de julho de 2020, ele argumenta que durante o processo arquidiocesano contra o padre acusado, ele parecia "perdido... e frágil", daí a decisão de não aplicar a pena máxima, que seria a destituição do sacerdócio, mas sim "medidas penitenciais": uma suspensão de três anos do ministério.

Ao longo do documento, Scherer rebate os argumentos tanto do acusador quanto do seu advogado, dizendo que se trata de uma ação vingativa de um jovem após o término do relacionamento com o padre, dizendo que Dudus era uma figura bem conhecida na arquidiocese após seu suposto pedido de aceitação no seminário ser recusado. O advogado nega o fato, embora reconheça que o jovem procurou o sacerdote acusado para discernimento vocacional.

O cardeal também observa que o advogado iniciou uma campanha de "difamação" contra o prelado, acusando-o falsamente de encobrimento, de proteção a um criminoso, de conivência e de não seguir as exigências do papa Francisco sobre a luta contra o abuso sexual clerical. O cardeal também acusa Dudus de estar atrás do dinheiro da Igreja.

Em declarações ao Crux, tanto o advogado como o acusador argumentaram que não estão buscando dinheiro, apesar de terem apresentado uma ação civil de R$900 mil contra o cardeal, os bispos auxiliares de São Paulo, o padre acusado e a arquidiocese. O que eles esperam, disseram, é que o Vaticano investigue Scherer por encobrimento.

A documentação acusando Scherer de encobrimento e o argumento do cardeal no qual baseou sua decisão de suspender o sacerdote por três anos em vez de removê-lo do sacerdócio foram apresentadas à CDF por Vincent Doyle, o fundador da Coping International, uma organização que tenta ajudar filhos de padres católicos.

Embora ajudar as vítimas de abuso sexual clerical esteja fora do escopo do Coping, é uma organização que acolhe denúncias deste tipo. Doyle disse ao Crux que havia decidido encaminhar todas a documentação à CDF depois de "falar com um arcebispo ligado à congregação, que me disse que a informação precisava ser formalmente apresentada imediatamente, já que a vítima era menor de idade".

"A razão pela qual eu trouxe isso de volta à atenção da CDF não é apenas porque Elissandro tinha 17 anos na época, mas também porque as ações do cardeal estão erradas: ele deveria enfrentar penalidades canônicas por supostamente enganar a Congregação para a Doutrina da Fé, no mínimo", Doyle disse.

Publicado originalmente em Crux Now.

Traduzido por Ramón Lara



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