Brasil Política

26/03/2021 | domtotal.com

Sob pressão: As divergências entre o governo Bolsonaro e a luta contra a pandemia no país

Bolsonaro conserva um núcleo duro de apoiadores e 30% de opiniões favoráveis, mas 54% dos brasileiros desaprovam sua forma de gerenciar a pandemia, segundo pesquisa recente do instituto Datafolha

(Arquivo) O presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento
(Arquivo) O presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento (Evaristo Sá/AFP)

O presidente Jair Bolsonaro está sob fogo cruzado por sua indiferença a um enfrentamento firme da pandemia do novo coronavírus, que causa estragos em todo país, onde já deixou mais de 300 mil mortos.

Aliados e adversários, empresários e epidemiologistas, médicos e meios de comunicação mostram-se saturados diante do presidente, que nos últimos dias deu sinais de querer corrigir o rumo, embora não convença.

A ideia de que seu posicionamento contra o uso de máscaras, o incentivo a aglomerações e a rejeição a medidas de distanciamento social foram a causa de muitas dessas mortes é retomada por personalidades e especialistas, ao mesmo tempo em que formadores de opinião não hesitam em chamá-lo de "genocida".

O governador de São Paulo, João Doria, ex-aliado do Bolsonaro que se tornou um de seus principais adversários, chamou-o de "psicopata". "Vejo uma acumulação de desgastes. A paciência dos atores políticos com Bolsonaro está se esgotando", disse Ricardo de João Braga, pesquisador associado ao portal Congresso em Foco, especializado em assuntos parlamentares.

Bolsonaro conserva um núcleo duro de apoiadores e 30% de opiniões favoráveis, mas 54% dos brasileiros desaprovam sua forma de gerenciar a pandemia, segundo pesquisa recente do instituto Datafolha.

"Jair Bolsonaro agora quer convencer os brasileiros de que é presidente da República, e não o irresponsável que todos conhecem", escreveu o jornal O Estado de S. Paulo em editorial nesta quinta-feira (25).

'Diluir pressões'

Na noite de terça-feira (23), Bolsonaro tentou mostrar empatia com "todos aqueles que perderam um membro da família", em um discurso à nação que foi seguido de estrondosos panelaços nas principais cidades do país.

No dia seguinte, ele quis demonstrar união nacional convocando os principais líderes do Congresso e do Supremo Tribunal Federal e vários governadores para uma reunião, depois da qual anunciou a criação de uma comissão para resolver a crise da saúde "sem conflito e sem politização". A foto final, segundo a imprensa, não revelou o clima tempestuoso da conversa.

O único consenso real a ser alcançado parece ter sido a necessidade de focar na campanha de vacinação, dando fim à relutância que Bolsonaro manifestou até recentemente sobre sua eficácia; em certa ocasião, ele chegou a dizer que as vacinas podem causar alterações genéticas e transformar quem se imunizasse em "jacaré".

No entanto, o ex-capitão do Exército parece relutante em mudar seu discurso contra o confinamento ou em parar de recomendar "tratamentos precoces" com o uso de medicamentos como a hidroxicloroquina, sem evidências científicas de eficácia contra a covid-19.

"Em princípio a reunião era algo mais reservado, Bolsonaro e presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo. Depois, por iniciativa do presidente da República, a reunião virou um grande ajuntamento de gente", com a participação de vários ministros, ressalta João Braga.

Bolsonaro esperava, assim, "diluir as pressões", mas isso "gerou um desgosto da parte dos verdadeiros interlocutores", considera o analista.

'O Brasil exige respeito'

Algumas horas depois, o presidente da Câmara dos Deputados, Artur Lira, abandonou os sorrisos de costume e elevou o tom em discurso no plenário. "Estou apertando hoje um sinal amarelo para quem quiser enxergar", afirmou Lira, alertando que o Congresso poderia fazer uso de remédios que "são conhecidos e são todos amargos", e complementou com "alguns, fatais". Uma abordagem interpretada como uma ameaça de abertura de um possível processo de impeachment contra Bolsonaro.

Uma série de pedidos de impeachment já foram apresentados e é justamente o presidente da Câmara que decide se eles podem ser submetidos à votação dos legisladores.

O setor empresarial, que apoiou Bolsonaro em sua eleição em 2018, em meio ao temor do retorno da esquerda, também deu um passo à frente.

"O país pode se sair melhor se perseguimos uma agenda responsável. O país tem pressa; o país quer seriedade com a coisa pública; o país está cansado de ideias fora do lugar, palavras inconsequentes, ações erradas ou tardias.O Brasil exige respeito", argumentou a carta pública assinada por 1,5 mil empresários, banqueiros e economistas, que teve grande repercussão no país.

'Políticas sejam atenuadas ou extintas'

Contrário às medidas de fechamento, o presidente Jair Bolsonaro disse nessa quinta-feira (25), que espera que as políticas de lockdown sejam "atenuadas ou extintas" daqui a três meses. O prazo foi indicado após o presidente comentar a decisão do Ministério da Economia de adiar o recolhimento de tributos para empresas do Simples Nacional nos meses de abril, maio e junho.

"O governo federal via Ministério da Economia anunciou o diferimento, o atraso, da contribuição do Simples Nacional por três meses. Isso o governo abre mão nesses três meses de receber R$ 27 bilhões", disse em transmissão ao vivo nas redes sociais nesta noite. "Mas, em contrapartida, depois do fim do terceiro mês, no quarto (mês) vai ter seis meses para pagar o que (o governo) deixou de receber. Espero que até lá a economia volte e as políticas de lockdown sejam atenuadas ou extintas", acrescentou.

Em sua live semanal, o presidente afirmou que o "governo federal manteve viva a economia ano passado". Ele destacou medidas para a manutenção do emprego, como o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) e o Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda (BEm) que terão novas fases.

"O BEm, que é o benefício emergencial e permite acordos entre patrões e empregados, está na iminência de sair, ser publicado", comentou. "Vai atingir diretamente 11 milhões de pessoas que poderão fazer acordos com seus patrões fazendo com que seus empregos sejam mantidos", disse o presidente.

Bolsonaro ressaltou que o Pronampe, que é um programa de crédito para pequenas empresas, ajudará em especial donos de negócios afetados por medidas de fechamento. "Vai ajudar diretamente grande parte daquele pessoal que trabalha em restaurantes e hotéis, que com essas políticas de fica em casa tirou-lhes o emprego (sic)", afirmou.

O presidente também reiterou que, uma vez aprovado o Orçamento de 2021, o governo antecipará o pagamento do 13º salário para beneficiários do INSS. O texto-base da Lei de Orçamentária Anual 2021 foi aprovado nesta noite pelos deputados, que agora analisam os destaques à proposta. "Caso seja votado hoje, nos próximos dias vamos antecipar o pagamento do 13º salário, a primeira parcela, dos aposentados e pensionistas do INSS", informou o presidente.


AFP/Agência Estado/Dom Total



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