Brasil

29/03/2021 | domtotal.com

Nosso Brasil doente

Penso no presidente da nossa pobre república, que ignorou a ciência e deixou o vírus correr solto

Fiscalização da Vigilância Sanitária em eventos irregulares em São Paulo, a 13 de março
Fiscalização da Vigilância Sanitária em eventos irregulares em São Paulo, a 13 de março (Govesp)

Afonso Barroso*

E assim estabeleceu-se o dilema: se abre tudo, à base do laissez passer, a Covid se alastra e vai matando gente. Se fecha tudo, a economia se encolhe. Confinado em casa e preso às tornozeleiras eletrônicas da televisão e do computador, resta pensar no que é mais importante: a vida e a realidade desta nova vida em permanente perigo. Como existo, me ponho a pensar.

Penso nos aglomeradores sem noção, que se juntam e espalham o vírus, doando-o uns aos outros e mandando milhares aos hospitais.

Penso nos hospitais que não dispõem de leitos e profissionais suficientes para atender à crescente demanda de pessoas tomadas pela fatídica doença.

Penso no meu filho Afonsinho e na linda mulher dele, a Sabrina, que moram no Espírito Santo. Foram ambos acometidos pelo vírus e dele escaparam graças aos médicos e à boa estrutura do hospital de Vila Velha.

Penso no meu cunhado Fernando, que também se livrou, milagrosamente, da doença com tratamento intensivo em Governador Valadares.

Penso no meu genro, Samuel, eleito prefeito da cidade de Goiabeira, que não pôde participar da cerimônia de posse porque teve de se internar e foi salvo graças aos médicos, enfermeiros, e também à sua boa forma física.

Penso no presidente da nossa pobre república, que deixou o vírus correr solto, sem tomar conhecimento da gravidade da "gripezinha" e receitando cloroquina aos incautos seguidores, como se médico fosse.

Penso no ex-ministro general da Saúde, que não entende bulhufas de saúde e não soube, por isso mesmo, administrar a crise sanitária mais grave da História. Parecendo associados num conluio sinistro, ele e seu comandante fizeram do Brasil um cemitério geral e um triste exemplo para o mundo. Mesmo cumprindo militarmente as ordens do capitão, o obediente ministro acabou defenestrado, a exemplo dos dois anteriores, esses porque não se submeterem às ordens do tresloucado chefe.

Penso na recusa do presidente em adquirir vacinas, o que só resolveu fazer quando a mortandade já se alastrara de maneira incontrolável, costeando a barreira da catástrofe. Ele só se torna um ser humano mais ou menos normal e razoável quando discursa lendo no teleprompter o que para ele escrevem.

Penso, horrorizado e penalizado, nas famílias das centenas de milhares de pessoas mortas em virtude do descaso e da inércia do governo, contrário a todas as medidas recomendadas pelos médicos e pela Ciência para combater a proliferação do vírus.

Penso na laive de um dos rebentos do presidente mandando as pessoas enfiarem as máscaras em lugar bem diferente do que recomendaria o decoro. Coisa que ele, definitivamente, não sabe o que é, mesmo sendo deputado federal.

Penso nas pessoas que aplaudem entusiasticamente o presidente quando ele diz que é preciso acabar com a frescura e o mimimi e que ninguém deve dar ouvido às medidas de isolamento social.

Penso nas palavras chulas que o presidente costuma vociferar, coisa também praticada pelos seus próprios filhos, de 01 a 04, numa clara demonstração de que a falta de decoro é reflexo da deseducação familiar.

Penso, enfim, na solução possível do dilema com uma única verdade: quer viver, siga o bom senso; quer morrer, siga o presidente.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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