Religião

29/03/2021 | domtotal.com

Com poucos fiéis, papa celebra Domingo de Ramos mais uma vez limitado pela pandemia

Segundo Francisco, Semana Santa é marcada pelo sofrimento do mundo

O papa Francisco celebrou a missa do Domingo de Ramos na basílica de São Pedro, Vaticano
O papa Francisco celebrou a missa do Domingo de Ramos na basílica de São Pedro, Vaticano (GIUSEPPE LAMI/AFP)

O papa Francisco celebrou a missa do Domingo de Ramos, que marca o início da Semana Santa, e rezou o Angelus na presença de um reduzido número de fiéis convidados na Basílica de São Pedro do Vaticano.


O pontífice recitou as homilias diante de 100 fiéis e 30 religiosos, incluindo cardeais.

A tradicional procissão dos fiéis com ramos de oliveira foi cancelada para cumprir as normas sanitárias e Francisco os abençoou à distância, do altar.

"Entramos na Semana Santa. Pela segunda vez vivemos no contexto da pandemia. No ano passado estávamos mais chocados, este ano estamos mais afetados. E a crise econômica está mais grave", disse o pontífice.

Francisco pediu aos fiéis que "rezem por todas as vítimas da violência, especialmente pelas vítimas do atentado cometido esta manhã na Indonésia diante da catedral de Makassar". Ao menos 14 pessoas ficaram feridas no atentado suicida.

Há um ano, a primeira onda da pandemia de Covid-19 devastou a Itália. O papa celebrou sozinho, em uma basílica deserta, o Domingo de Ramos, que recorda a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém na tradição cristã.

O pontífice, 84 anos, acostumado a receber multidões, apertar a mão dos fiéis e beijar as crianças, reduziu significativamente as aparições públicas desde o início da pandemia.

Ele foi obrigado a cancelar várias audiências das quartas-feiras e também se viu obrigado a celebrar o Angelus em sua biblioteca privada.

Além disso, as medidas de confinamento impedem que os peregrinos se reúnam na praça de São Pedro.

A visita ao Iraque no início de março foi sua primeira viagem ao exterior desde novembro de 2019.

Missa do Domingo de Ramos do dia 28 de março no Vaticano (Vatican Media)Missa do Domingo de Ramos do dia 28 de março no Vaticano (Vatican Media)

Homilia do papa Francisco no Domingo de Ramos

Todos os anos, esta liturgia cria em nós uma atitude de espanto, de surpresa: passamos da alegria de acolher Jesus, que entra em Jerusalém, à tristeza de O ver condenado à morte e crucificado. É uma atitude interior que nos acompanhará ao longo da Semana Santa. Abramo-nos, pois, a esta surpresa.

Jesus começa logo por nos surpreender. O seu povo acolhe-O solenemente, mas Ele entra em Jerusalém num jumentinho. Pela Páscoa, o seu povo espera o poderoso libertador, mas Jesus vem cumprir a Páscoa com o seu sacrifício. O seu povo espera celebrar a vitória sobre os romanos com a espada, mas Jesus vem celebrar a vitória de Deus com a cruz. Que aconteceu com aquele povo que, em poucos dias, passou dos "hosanas" a Jesus ao grito "crucifica-O"? O que aconteceu? Aquelas pessoas seguiam mais uma imagem de Messias do que o Messias. Seguiam a imagem, não o Messias. Admiravam Jesus, mas não estavam prontas para se deixar surpreender por Ele. A surpresa é diferente da admiração. A admiração pode ser mundana, porque procura os próprios gostos e anseios; a surpresa, pelo contrário, permanece aberta ao outro, à sua novidade. Também hoje há muitos que admiram Jesus: falou bem, amou e perdoou, o seu exemplo mudou a história… Admiram-no, mas a vida deles não muda. Porque não basta admirar Jesus; é preciso segui-Lo no seu caminho, deixar-se interpelar por Ele: passar da admiração à surpresa.

E qual é o aspecto do Senhor e da sua Páscoa que mais nos surpreende? O fato de Ele chegar à glória pelo caminho da humilhação. Triunfa acolhendo a dor e a morte, que nós, súcubos à admiração e ao sucesso, evitaríamos. Ao contrário, Jesus "despojou-Se – disse São Paulo –, humilhou-Se"(Fl 2, 7.8). Isto surpreende: ver o Omnipotente reduzido a nada; vê-Lo, a Ele Palavra que sabe tudo, ensinar-nos em silêncio na cátedra da cruz; ver o Rei dos reis que, por trono, tem um patíbulo; ver o Deus do universo despojado de tudo; vê-Lo coroado de espinhos em vez de glória; vê-Lo, a Ele bondade em pessoa, ser insultado e vexado. Porquê toda esta humilhação? Por que permitistes, Senhor, que Vos fizessem tudo aquilo? Esta pergunta espanta-nos.

Fê-lo por nós, para tocar até ao fundo a nossa realidade humana, para atravessar toda a nossa existência, todo o nosso mal; para Se aproximar de nós e não nos deixar sozinhos no sofrimento e na morte; para nos recuperar, para nos salvar. Jesus sobe à cruz para descer ao nosso sofrimento. Experimenta os nossos piores estados de ânimo: o falhanço, a rejeição geral, a traição do amigo e até o abandono de Deus. Experimenta na sua carne as nossas contradições mais dilacerantes e, assim, as redime e transforma. O seu amor aproxima-se das nossas fragilidades, chega até onde mais nos envergonhamos. Agora sabemos que não estamos sozinhos! Deus está conosco em cada ferida, em cada susto: nenhum mal, nenhum pecado tem a última palavra. Deus vence, mas a palma da vitória passa pelo madeiro da cruz. Por isso, os ramos e a cruz estão juntos.

Peçamos a graça do assombro. A vida cristã, sem surpresa, torna-se cinzenta. Como se pode testemunhar a alegria de ter encontrado Jesus, se não nos deixamos surpreender cada dia pelo seu amor espantoso, que nos perdoa e faz recomeçar? Se a fé perde o assombro, torna-se surda: já não sente a maravilha da graça, deixa de sentir o gosto do Pão da vida e da Palavra, fica sem perceber a beleza dos irmãos e o dom da criação. Não tem outro caminho a não ser refugiar-se nos legalismos, clericalismos, tudo aquilo que Jesus condena no capítulo 23 do Evangelho de São Mateus.

Nesta Semana Santa, ergamos o olhar para a cruz a fim de recebermos a graça do assombro. São Francisco de Assis, ao contemplar o Crucificado, espantava-se com os seus frades por não chorarem. E nós, conseguimos ainda deixar-nos comover pelo amor de Deus? Por que é que já não sabemos surpreender-nos à vista dele? Porquê? Talvez porque a nossa fé foi corroída pelo hábito; talvez porque ficamos fechados nas lamúrias e deixamo-nos paralisar pelos dissabores; talvez porque perdemos a confiança em tudo, chegando ao ponto de nos consideramos mal feitos. Mas, por trás destes "talvez", tantos "talvez" encontra-se o fato de não estarmos abertos ao dom do Espírito, que é Aquele que nos dá a graça do assombro.

Recomecemos do espanto; olhemos o Crucificado e digamos-Lhe: "Senhor, quanto me amais! Como sou precioso a vossos olhos!" Deixemo-nos surpreender por Jesus para voltar a viver, porque a grandeza da vida não está no ter nem no afirmar-se, mas na descoberta de que somos amados. Esta é a grandeza da vida. Descobrir que somos amados. E a grandeza da vida está precisamente na beleza do amor.

No Crucificado, vemos Deus humilhado, o Omnipotente reduzido a um descartado. E, com a graça do assombro, compreendemos que, acolhendo quem é descartado, aproximando-nos de quem é humilhado pela vida, amamos Jesus, porque Ele está nos últimos, nos rejeitados, nos que a nossa cultura farisaica condena.

O Evangelho de hoje, imediatamente depois da morte de Jesus, mostra-nos o ícone mais belo da surpresa. É a cena do centurião, que, ao vê-Lo expirar daquela maneira, disse: 'Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!'"(Mc 15, 39). E de que maneira vira Jesus morrer? Viu-O morrer amando. Sofria, estava exausto, mas continuava a amar. Eis aqui a surpresa diante de Deus, que sabe encher de amor o próprio morrer. Neste amor gratuito e inaudito, o centurião, um pagão, encontra Deus. Verdadeiramente era Filho de Deus! A sua frase chancela a Paixão. Muitos antes dele, no Evangelho, admirando Jesus pelos seus milagres e prodígios, reconheceram-No como Filho de Deus, mas o próprio Cristo mandava-os calar, porque havia o risco de se deterem na admiração mundana, na ideia dum Deus que Se devia adorar e temer, enquanto poderoso e terrível. Agora já não há tal risco; ao pé da cruz, já não é possível errar: Deus revelou-Se e reina só com a força desarmada e desarmante do amor.

 Irmãos e irmãs: hoje, Deus ainda surpreende a nossa mente e o nosso coração. Deixemos que nos impregne este assombro, olhemos para o Crucificado e digamos também nós: "Tu és verdadeiramente Filho de Deus. Tu és o meu Deus".


AFP/Ecclesia/Dom Total



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