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29/03/2021 | domtotal.com

O ioiô econômico da Argentina desce, mas não sobe


As economias em geral têm uma curva que parece um de ioiô, que desce até ao limite do barbante, mantêm-se suspenso por um instante, e depois sobe por ali acima até à mão do dono. Mas não é assim com economia argentina

O presidente argentino, Alberto Fernández (E), chega acompanhado se sua vice, Cristina Kirchner, ao Congresso argentino para fazer o discurso anual à Nação na abertura das sessões no Legislativo, em Buenos Aires, em 1º de março de 2021
O presidente argentino, Alberto Fernández (E), chega acompanhado se sua vice, Cristina Kirchner, ao Congresso argentino para fazer o discurso anual à Nação na abertura das sessões no Legislativo, em Buenos Aires, em 1º de março de 2021 (Natacha Pisarenko/AFP)

José Couto Nogueira*

Já aqui escrevi sobre o país dos pampas e do tango, faz pouco mais de um ano, a propósito das eleições presidenciais que afastaram o centro-direitismo de Maurício Macri e reinstalaram – mais uma vez! – o peronismo, agora incarnado em Alberto Fernandez. Não vale a pena ficar contando pormenorizadamente as contorsões da democracia constituicional argentina para que o populismo de Juan/Evita Peron, que governaram efetivamente entre 1946 e 1955, rejuvesneça continuamente, apesar dos maus resultados econômicos.

Nestes últimos anos, a Argentina foi talvez o pior pagador das dívidas internacionais. Desde a independência, em 1816, jé entrou em default nove vezes. O default de 2001 levou quinze anos a pagar.

Talvez o problema não seja o peronismo, como grande parte da inteligentzia internacional gosta de dizer, mas o país em si. A verdade é que, tirando a substância ditatorial, Peron melhorou a vida dos trabalhadores e deu-se bem com os empresários. Aliás, esta é mais ou menos a fórmula universal do populismo, de esquerda ou direita: mostrar-se cúmplice dos "descamisados" mas não incomodando muito os "camisas de seda". Foi o caso do PT, para dar um exemplo que todos conhecemos.

Ao fim de dez governos peronistas e apenas três de tendências centristas, isto desde 1946, quase metade dos argentinos vive abaixo do limiar de pobreza e o país anda constantemente pedindo e não pagando ao FMI.

À crise endêmica somou-se, desde o ano passado, o espectro da pandemia. O desastre sanitário foi terrível; há uma média de 50 mil casos por milhão de habitantes. Mas o efeito econômico dos lockdowns, o abrandamento do mercado e a redução das exportações, foi ainda pior.

Alberto Fernandez, o presente peronista de serviço, teve então a ideia de fazer os ricos pagarem a aflição – uma ideia que é muito falada no mundo inteiro, mas que parece nunca sair das boas intenções. No caso, a proposta é taxar os ricos uma única vez, em 2-2,5% do seu capital. Para se ter uma ideia do fosso econômico entre argentinos ricos e remediados/pobres, a medida atinge 12 mil pessoas, num país com 45 milhões. Está agora no Senado, onde deverá ser aprovada. Se passar, o que é quase certo, trará teoricamente ao Estado a bela quantia de 3,5 mil milhões de dólares.

E digo teoricamente porque há razões práticas que impedem uma medida destas de funcionar, por mais lógica e justa que seja. Uma, evidentemente, é que os ricos sabem muito bem esconder os seus bens e a corrupção do sistema ajuda. A outra é que o capital está globalizado há muito tempo e, se um país se torna incômodo, nada impede quem pode de ir viver noutro.

No caso da Europa, os países que favorecem descaradamente esta possibilidade são Holanda e Luxemburgo. Nem é preciso deslocar-se fisicamente para lá, basta contabilisticamente. No caso da Argentina, o paraíso chama-se Uruguai.

A Oxman, um consórcio internacional de mais de três mil parceiros que se dedica a estudar estas situações de desigualdade econômica, calcula que as fortunas dos milionários da América do Sul cresceram 17%  desde Março de 2020, o equivalente a 38% dos pacotes de estímulos dos governos e nove vezes o valor alocado pelo FMI.

Para estas pessoas, o Uruguai oferece grandes vantagens fiscais, recentemente melhoradas exatamente para atraír clientela. Uma condição é morar lá. Mas isso também se torna uma vantagem. Como sabemos, é um país pacífico socialmente e bastante civilizado, o lugar ideal para se morar. O sistema político tem uma estabilidade única na America latina. Montevidéu, cidade pequena e simpática, está mesmo ao pé de praias maravilhosas, com uma estrutura turística bem desenvolvida.

O problema da Argentina é o mesmo que se verifica em todo o mundo. Ainda esta semana o presidente Biden colocou a hipótese de criar um imposto especial para as grandes fortunas, mas é impossível que passe no Senado. Na Europa, de onde vem o famoso livro do economista francês Thomas Piketty, O capital no século 21, recebido com grande sucesso, que analiza exatamente a questão – o capital dos mais abonados aumenta mais do que o P.I.B. dos países – falou-se muito e não se fez nada. O dinheiro traz poder político, como se sabe.

No caso da Argentina, os grandes proprietários já se habituaram a viver com os peronistas há muito tempo. A grande produção do país, e também as maiores exportações, vêm do setor agropecuário, onde é fácil usar uma contabilidade criativa.

As medidas de nivelamento social, a que a direita chama de socialistas e a esquerda de populistas, têm mais impacto político do que econômico. Os peronistas não desistem da sua postura popularucha, que lhes fica muito bem, mas no fundo sabem que não podem atingir os beneficários do sistema, com crise ou sem ela.

Se neste caso, por milagre, o imposto funcionar e aliviar a situação, não deixaremos de comentar aqui. Com perplexidade.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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