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30/03/2021 | domtotal.com

'Melhor não fica'

União Europeia é a forma ideal da Europa evitar o pior para si

Uma viagem histórica pela União Européia e o império dos Habsburgo, escrita pela jornalista holandesa, Caroline de Gruyter
Uma viagem histórica pela União Européia e o império dos Habsburgo, escrita pela jornalista holandesa, Caroline de Gruyter (Divulgação)

Lev Chaim*

"Melhor não fica" é uma tradução livre do título do livro recém-lançado na Holanda, escrito pela jornalista, colunista e correspondente em Bruxelas, durante anos, do jornal NRC, Caroline de Gruyter. Ela se refere à União Europeia, numa comparação direta e reta com o império dos Habsburgo que, durante 500 anos, dominou grande parte do Continente Europeu, sendo enfraquecido por Napoleão. Um século depois, no século 19, o império se desintegra, logo após o início da Primeira Guerra Mundial.

Mas por que a comparação da União Europeia com o império dos Habsburgo? Pesquisando arquivos históricos, Gruyter fez uma comparação realmente interessante e instrutiva para todos os europeus e principalmente para os que estão no comando da União Europeia (EU). Suas comparações são elucidativas para os pontos de vista da União e para se entender melhor a geopolítica dentro do Continente Europeu e principalmente da Europa Central, inclusive o papel rebelde que sempre teve a Hungria. Esta rica comparação acontece de duas maneiras: pelos locais que Gruyter viveu, Bruxelas e Viena, como também pelos bons contatos com os quais ela conversou, inclusive os bisnetos Georg e Karl, do último imperador dos Habsburgo, Karel I, que teve um período curto de reinado, de 1916 a 1918.

A União Europeia abrange 26 países, já sem o Reino Unido. O império dos Habsburgo também continha uma coleção de Estados e regiões europeias, com dezessete línguas diferentes. E tinha também um mercado comum e uma moeda única, por incrível que pareça. Quem olha pela primeira vez esta história até pode dizer que os Habsburgo prolongaram o império com o nome de União Europeia. Como agora, também existiam queixas de uma região para outra sobre políticas internas e burocratas. Mas, de qualquer forma, a história prova que os Habsburgo eram os melhores líderes que a Europa já tiveram, em se tratando de evitar conflitos e guerras dentro do próprio continente, tal qual a União Europeia, desde o final da Segunda Guerra Mundial.

E tal qual nos tempos dos Habsburgo, uma vez dentro, você estava salvo. Na União Europeia acontece o mesmo: apesar dos críticos à política de Bruxelas, a EU evita de todas as maneiras os conflitos internos, ou seja, tal qual se fala hoje em dia, "boa de conversa mas lenta na resolução de problemas". Mas a autora deste livro também enumerou as diferenças entre os dois, ao mencionar uma que pode ser notada até hoje na vida da capital austríaca, Viena. Ali, encontram-se cafés e bares com fotos de diversos imperadores dos Habsburgo's, tal qual Frans Josef. Em outras palavras, o império sempre teve um rosto comum para todos e a União Europeia não. E a autora do livro pergunta: "Já imaginaram algum estabelecimento do continente, após 150 anos, ter pendurado na parede, alguns retratos dos presidentes da União Europeia, tal qual a atual, a alemã Ursula von der Leyen?" Nunca. A grande semelhança entre os dois é mesmo, segunda a autora, a política de empurrar com a barriga, certas questões conflituosas dos países membros.

A grande pergunta que a autora desse livro faz é assertiva e preocupante: "Será que um dia a União Europeia poderá se desintegrar como aconteceu com o império dos Habsburgo? Sem responder diretamente, ela, ao recordar o fim do império e seus fatos históricos importantes, deixa bem claro a sua impressão sobre tudo isto e, ao meu ver, totalmente coberta de razão. Ela diz que tal qual o império, a União Europeia, apesar dos problemas, é a forma ideal da Europa de se evitar o pior para o continente, ou seja, uma guerra mundial ou um conflito nuclear. E também a melhor forma de enfrentar os atuais populistas da extrema-direita que pregam uma cartilha já usada pela Grã-Bretanha: "recuperar totalmente a nossa soberania, para se conseguir o melhor para a nação". Quantas vezes a União Europeia não ouviu esta ladainha dos britânicos, como se eles, separados da União, pudessem sobreviver sem o seu grande parceiro comercial, que é a própria União Europeia. Na Holanda, também temos partidos da extrema-direita que pregam essa cartilha, tal qual o partido "Forum voor Democratie", liderada pelo racista e antissemita Thierry Baudet.

Ao ler esse interessante livro, você entende o título um tanto quanto ambíguo: "Melhor não fica". Na verdade, a autora estava apenas exercitando seus poderes de pitonisa histórica, ao dizer que, a recordação da história, nos deixa claro uma coisa: mesmo que melhor não fique, devemos lutar para preservar a União Europeia, que é a melhor coisa para todo o continente. Mesmo porque, apesar de ter diversas línguas e uma só moeda para alguns países, cada um  mantém ainda a sua própria identidade e soberania em muitos assuntos, sem ter que enfrentar qualquer tipo de inimigo. E a autora também tem razão quando ela fala dos insurgentes e cita a Hungria que, até hoje, dos países da Europa Central, continua sendo uma pedra no sapato de todos, com o seu regime da extrema direita do primeiro-ministro, Viktor Orbán. Enfim, melhor com a União Europeia do que sem ela.

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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