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30/03/2021 | domtotal.com

Sobre a importância das elites

O Brasil com certeza poderia estar próximo dos países de ponta

José Antonio de Sousa Neto
José Antonio de Sousa Neto (Unsplash/Joshua Hoehne)

Jose Antonio de Sousa Neto*

Ao final de 2020 a organização Suíça Elite Quality  produziu um relatório importante onde apresenta uma estrutura analítica baseada na teoria econômica e de gestão projetada para interpretar, e possivelmente contribuir para transformar, o estado do mundo e seu futuro. A metodologia se consolida em um índice para a mensuração da "qualidade" das elites em diversos países do mundo. A amostra tem uma abrangência de 32 países e o Brasil está entre eles neste estudo. Existem evidentemente diferenças substanciais nos níveis de qualidade das elites em todo o mundo e esta qualidade é determinante para o desenvolvimento humano e econômico de seus respectivos países.

Aqui cabem algumas considerações feitas no relatório:

  • "As elites são uma inevitabilidade empírica, dominando todas as economias políticas. Elas fornecem a capacidade de coordenação necessária para os recursos da economia, sejam humanos, financeiros ou baseados no conhecimento.
  • Ao determinar instituições que permitem a coordenação, as elites moldam o desenvolvimento humano e econômico, o destino das sociedades, a riqueza das nações e sua ascensão e queda.
  • Para sustentar sua posição, as elites administram modelos de negócios que acumulam riqueza. Elites de alta qualidade executam modelos de negócios de Criação de Valor que dão mais à sociedade do que recebem. As elites de baixa qualidade fazem o oposto e operam modelos de Extração de Valor".

De forma bastante sumarizada, o quadro abaixo lista 14 países (de uma amostra com 32 países), a partir daquelas cujas elites são as que criam mais valor.

Classificação dos países

Fonte: www.elitequality.orgFonte: www.elitequality.org

Neste ponto vale algumas observações:

  • As elites anglo-saxãs são de alta qualidade e esta qualidade em grande medida está ancorada nas excelentes instituições destes países
  • A China tem super elites chegando em 12º lugar, em um nível muito mais alto do que seus pares na categoria de renda média, e superando muitos países da União Europeia
  • Os países do Brics (retirando a China) estão agrupados nos níveis mais baixos. Rússia, Índia, Brasil e África do Sul – nessa ordem - classificação entre 23º e 30º.

As elites são grupos estreitos e coordenados com modelos de negócios que acumulam riqueza com sucesso, são uma inevitabilidade empírica de acordo com o estudo realizado e existem em todas as sociedades do planeta. Neste sentido, a organização Suíça Elite Quality, nos aponta duas surpresas e dois fatos:

"Surpresa 1: as elites são uma certeza matemática; elas são inevitáveis

Surpresa 2: as elites fornecem capacidade de coordenação essencial para a sociedade

Fato 1: Elites podem ser criadores de valor de alta qualidade

Fato 2: Elites também podem ser extratores de valor de baixa qualidade".

Como aponta o relatório, mais valor foi criado nos últimos anos do que em qualquer outro momento da história econômica. As melhorias materiais resultantes da criação de valor por meio de ciência pioneira, serviços inovadores e modelos de negócios inteligentes ainda são enormes e evidentes. A extraordinária engenhosidade da humanidade tem produzido benefícios crescentes para todos, possibilitados pela consolidação de mecanismos fenomenais de coordenação global e, sim, as elites. No entanto, apesar da produção prodigiosa e acelerada de nosso trabalho coletivo, valores e criatividade, o descontentamento, a desordem e o estresse têm aumentado.

Mas a síntese das características e estado de desenvolvimento elaborada pela Elite Quality nos ajuda, em muito, a entender e conectar muitas coisas:

Fonte: Baseado em figura do relatório da organização Elite QualityFonte: Baseado em figura do relatório da organização Elite Quality

Descrição dos 4 "Estados / Quadrantes das Elites"

Quadrante 1

Vê as "elites competitivas" em uma situação que mais se assemelha a um mercado livre. Esse estado é caracterizado por ciclos de curta duração de elites altamente inovadoras e lucrativas que chegam ao topo em rápida sucessão. Se as disputas entre as elites forem civis, essa competição produzirá uma infinidade de bens públicos, incluindo o desenvolvimento humano e econômico. As possibilidades tecnológicas são aproveitadas e o crescimento econômico de longo prazo é maximizado e limitado apenas pela capacidade humana de inovar. 

Quadrante 2

Vê elites poderosas que dominam a economia política. Essas coalizões dominantes, no entanto, evitam a extração de valor, apesar de sua capacidade de obter rendas, e em vez disso, optam por administrar modelos de negócios que criam valor. O estado de "elites iluminadas" é aquele em que as elites são muito poderosas e, no entanto, criam um valor substancial. Aqui estão países como o Reino Unido e os Estados Unidos.

Quadrante 3

Exibe as "elites rentistas". Os países com economias neste estado são caracterizados por elites altamente dominantes e poderosas que consolidaram modelos de negócios de extração de valor. Tendo capturado as alavancas do poder e superado a resistência das forças produtivas, as elites criaram instituições que favorecem seus modelos de negócios às custas de não elites cada vez mais desmoralizadas que têm pouco incentivo para investir em atividades de criação de valor. Aqui estão países como o Brasil e a Argentina.

Quadrante 4

Vê a extração de valor irrestrita por uma infinidade de agentes diversos. As elites do baixo poder competem por aluguéis e os modelos de negócios de criação de valor estão ausentes, desafiados por todos os lados. O estado de "elites em luta" é uma situação de "Leviatã ausente" (Acemoglu, & Robinson, 2019) e bastante instável, com elites incipientes cuja busca de renda extrativa é real, mas (ainda) não foi escalada. Os grupos de interesse emergentes se envolvem em lutas de todos os tipos por posições dominantes que lhes permitirão moldar instituições que, por sua vez, protegerão e consolidarão seus modelos de negócios.

O breve vídeo de um minuto que está abaixo, com comentários da procuradora da república dra. Thaméa Danelon e que versa sobre o sistema eleitoral no Brasil, é apenas um dos inúmeros caminhos que nos remetem a uma clara identificação de causas e sintomas que colocam nosso país no terceiro quadrante e próximo do quarto quadrante:

Nossas elites, que nasceram a partir das capitanias hereditárias, são camaleões que mudam de cor, mas não de genética. Os donos das capitanias eram os donos das terras, dos cartórios e também os juízes. Ao longo da história são centrões amorfos, que se associam ao império, à república ou a qualquer coisa que beneficie a sua extração predatória de valor. Por 35 anos, em passado mais recente, se associaram a elites de ideologias extremas que corroeram as instituições tornando-as tão disfuncionais que colocaram e colocam em risco o próprio estado democrático de direito. Alguns acreditam que a intenção de parte desta elite era e continua sendo essa mesma. Sabemos que a democracia exige eterna vigilância.

Desde o início da nossa história o público e o privado sempre se confundiram na essência de nossas elites. Seus membros estão em ambos ou tem vínculos fortíssimos que permitem a manutenção do status quo de imensos privilégios, muitos deles imorais e antiéticos, e grande poder. Por exemplo, como comentou a Procuradora da República, temos uma democracia apenas formal, uma democracia de direito, mas não de fato.

Mas estar no quadrante 3 e próximo do quadrante 4, não significa de forma nenhuma que este é o nosso destino. Apesar das inúmeras quedas e retrocessos gravíssimos, inclusive em passado bem recente, o país sempre se mostrou resiliente e ciente de seu inequívoco potencial. A consciência da nação só pode vir pela educação e informação. Justamente porque isto coloca em risco o sistema e seu mecanismo, uma parte poderosa da elite no Brasil atingiu o estado da arte naquilo que se refere à desinformação e à perpetuação do desconhecimento e da ignorância. Como senhores de engenho e seus feitores lidando com seus escravos. Temos muitos desafios pela frente, mas o país com certeza poderia estar próximo dos países que estão no quadrante 2.

*Professor da EMGE (Escola de Engenharia e Ciência da Computação)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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