Mundo

30/03/2021 | domtotal.com

Repressão a protestos em Mianmar já deixa mais de 500 mortos desde o golpe de Estado

Grupos rebeldes armados ameaçam a junta militar e cresce o temor de guerra civil

Mulher chora durante o funeral de parente na cidade de Taunggyi, em Mianmar
Mulher chora durante o funeral de parente na cidade de Taunggyi, em Mianmar (AFP)

Desde o golpe de Estado de 1º de fevereiro em Mianmar, a junta militar que governa o país vem reprimindo com violência as manifestações, o que resultou na morte de mais de 500 civis, incluindo muitos estudantes e adolescentes. Os números foram levantados pela ONG Associação de Ajuda aos Presos Políticos (AAPP). Como consequência, grupos rebeldes armados ameaçam aderir aos protestos contra a junta militar caso persista a repressão violenta.

Ignorando as críticas e sanções ocidentais, os generais birmaneses prosseguem com a repressão brutal, em uma tentativa de frear os protestos e greves pró-democracia que abalam o país país desde o golpe que derrubou o governo civil de Aung San Suu Kyi.

A ONG afirma que o número de vítimas "é provavelmente muito maior", sobretudo porque centenas de pessoas continuam desaparecidas. Diante do banho de sangue, vários grupos rebeldes ameaçaram nesta terça-feira (30) usar suas armas contra a junta. 

"Se as forças de segurança continuarem matando civis, vamos colaborar com os manifestantes e adotaremos represálias", afirma uma declaração conjunta, assinada, entre outros, pelo Exército de Arakan (AA), um grupo armado com milhares de homens e recursos importantes.

"Risco de guerra civil"

Debbie Stothard, da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH), afirma que "a situação corre o risco de virar uma guerra civil total". "A junta não quer ceder em nada e os manifestantes, que até agora foram pacíficos em sua maioria, estão tentados a pedir ajuda das facções armadas para obter proteção", completa.

Desde a independência de Mianmar em 1948, vários grupos étnicos entraram em conflito com o governo central para conseguir mais autonomia, acesso aos recursos naturais do país ou a uma parte do lucrativo tráfico de drogas.

Nos últimos anos o Exército estabeleceu um cessar-fogo com alguns grupos e até chegou a retirar o AA de sua lista de organizações terroristas. Mas no fim de semana passado, a junta militar executou ataques aéreos no sudeste do país contra um dos maiores grupos armados de Mianmar, a União Nacional Karen (KNU), depois que esta facção assumiu o controle de uma base militar e matou vários soldados.

Estes foram os primeiros ataques do tipo na região em 20 anos. Quase 3mil pessoas fugiram da violência para a vizinha Tailândia, segundo organizações locais. Mas as autoridades tailandesas as rejeitaram, disse a ativista dos direitos humanos Karen Hsa Moo. "Afirmaram que deveriam retornar para casa porque não havia combates", disse a ativista, que citou novos ataques na segunda-feira à noite.

A ativista afirmou que a Tailândia também está bloqueando o acesso das organizações humanitárias, incluindo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Tanee Sangrat, porta-voz do ministério das Relações Exteriores da Tailândia, negou as informações. "Seguiremos atendendo os que estão no lado tailandês, enquanto avaliamos a evolução e as necessidades no local", disse. A polícia tailandesa informou que interceptou 10 pacotes com 100 granadas e 6 mil cartuchos destinados à cidade fronteiriça de Tachileik.

"Greve de lixo"

Ao mesmo tempo, os protestos contra o golpe continuam em todo o país com novas táticas de resistência. Nesta terça-feira foi convocada uma "greve de lixo", com pedidos para que os moradores joguem os resíduos de suas casas nas ruas e bloqueiem os cruzamentos das rodovias.

Em Yangon, a capital econômica do país, algumas estradas estavam repletas de lixo de todo tipo, além de cartazes com frases como "Precisamos de democracia". O número de mortes aumentou consideravelmente nos últimos dias.

Ao menos 107 civis, incluindo sete menores de idade, morreram no sábado, Dia das Forças Armadas birmanesas. Na segunda-feira foram organizados os funerais das vítimas do fim de semana, com milhares de pessoas. Muitos fizeram a saudação de três dedos, um sinal de resistência.

Divisões na comunidade internacional

Em resposta à repressão, o governo dos Estados Unidos anunciou a suspensão imediata do acordo sobre comércio e investimento concluído em 2013 com Mianmar, até que um governo "eleito democraticamente" seja restaurado.

A França denunciou a "violência cega e mortal" do regime e exigiu a libertação de "todos os presos políticos", incluindo Aung San Suu Kyi, que está detida em um local secreto e sem comunicação. As autoridades do Reino Unido pediram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, que acontecerá na quarta-feira a portas fechadas.

Os militares birmaneses, no entanto, deram pouca atenção aos protestos e sanções ocidentais, aproveitando as divisões da comunidade internacional. China e Índia se recusaram a condenar formalmente o golpe. A Rússia mantém laços estreitos com a junta militar. O vice-ministro da Defesa, Alexander Fomin, acompanhou no sábado o desfile anual das Forças Armadas birmanesas.

O Kremlin expressou preocupação com o "crescente" número de mortos, mas declarou que Mianmar continua sendo um "aliado confiável e parceiro estratégico" com o qual deseja fortalecer suas relações militares. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu à comunidade internacional "maior unidade" e "maior compromisso" para pressionar a junta.


AFP



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!