Brasil

31/03/2021 | domtotal.com

O mundo de Olavo

Vaidade, onipotência e delírios de grandeza de Olavo de Carvalho o levaram à arrogância e, portanto, à estupidez.

Olavo de Carvalho conversa com Moisés Rabinovici no programa 'Um olhar sobre o Mundo'
Olavo de Carvalho conversa com Moisés Rabinovici no programa 'Um olhar sobre o Mundo' (TV Brasil)

Reinaldo Lobo*

Parece que a direita habitual, bem como os fascistas assintomáticos – como diz um amigo – ou protofascistas, não entendem o "pensamento vivo" de Olavo de Carvalho. Devo dizer que a esquerda também não o entende inteiramente.

O enigma desse influencer com milhares de seguidores é bem simples: tudo nele é fake, falso como uma nota de três reais. É feito do mesmo artifício que o delírio. O delírio, como muitos sabem, é uma ideia sem um objeto real.

Conheci Olavo há mais de quarenta anos, na redação do Jornal da Tarde, onde nós trabalhávamos. Ele havia saído de uma internação psiquiátrica e, na recuperação, teve uma conversão espetacular: de comunista que se dizia membro do PCB, passou a fanático anticomunista, graças à leitura de seu então autor preferido, um professor francês de Humanas, Georges Gusdorf, cuja teoria privilegiava o Eu individual em detrimento do coletivo.

Daí, veio a inspiração para o seu best seller O Imbecil coletivo, onde circunscreve o inimigo, seu alvo preferencial: o coletivismo. Como Margareth Thatcher, Olavo prefere acreditar que a "sociedade não existe", só os indivíduos. Um pulo fácil para o neoliberalismo e o norte-americanismo, de sua devoção.

Ao mesmo tempo, Olavo desenvolvia naquela ocasião uma teoria própria calcada na astrologia, que havia estudado no seu lazer no hospital, para explicar o papel do Eu na história e seus feitos baseados no alinhamento dos planetas e astros.

Ele me seguia com frequência na redação para me expor seus achados teóricos. Aparentemente, julgava que eu era um bom ouvinte, apesar de nem ser psicanalista naquela época.

Certa vez, quando eu estava sentado ao lado de um colega mineiro, jornalista com autoridade na redação, Olavo chegou e passou a expor para ambos a relação entre os astros e a realidade social do planeta. O meu colega, que nada tinha de psicólogo, disse com algum sarcasmo e um tom de terna compreensão: "Você não se sente meio esquisito, não se acha meio estanho, quando faz essas teorias?" Olavo riu primeiro, sem graça, virou as costas irritado e foi embora. Nunca mais falou comigo, por ser "aliado" daquele abusado.

Não se diz ou insinua a um indivíduo que diz ser Napoleão que ele não é ou mesmo que devia sentir-se esquisito por dizê-lo. Ele dirá que você é o almirante Nelson, cuja meta é derrota-lo em Waterloo. Olavo se irritou, com certeza, pois era um recém convertido, um crente fanático que idealizou e se apegou às teorias de Gusdorf, "o maior intelectual do mundo contemporâneo, o único a fazer frente à falácia da dialética marxista".

Olavo deu aulas de astrologia e ganhou a vida por algum tempo com isso, mas depois percebeu que precisava de algo mais sério para sustentar sua crença anticomunista. Passou a estudar mais e chegou, finalmente, aos militares. Fez palestras para plateias sedentas de "embasamento teórico" nas academias militares e, dizem, até para o Alto Comando, para o qual desancou o "politicamente correto" que seria a versão pós-moderna do "marxismo cultural".

Aparentemente, o único autor marxista que Olavo levou a sério no tempo que se intitulava comunista foi o italiano Antônio Gramsci, que passou a odiar por sua proposta de solidificar na sociedade civil valores anticapitalistas a fim de, gradualmente, "prepará-la" para instituir o socialismo e, quem sabe no futuro, o comunismo. Olavo considera essa proposta um "maquiavelismo", que o próprio Gramsci deveria assumir. 

Cita Gramsci insistentemente como o inventor do "marxismo cultural", pois isto seria uma doutrinação por meio das artes e dos espetáculos. Qualquer crítica artística à sociedade capitalista é vista por ele como um sinal da conspiração do marxismo cultural. Isso explica em parte o ódio do atual governo protofascista brasileiro à esfera cultural e aos artistas.

Não faltam críticas de filósofos profissionais e intelectuais às inconsistências e contradições do "pensamento vivo", além de sua precariedade curricular. Ele se auto intitulou "filósofo" sem ter a mínima qualificação acadêmica para isso. Leu, é verdade, e confundiu muitas coisas. Seu ressentimento em relação à área o leva a dizer absurdos como "Hegel era um satanista", por ter buscado formular um sistema filosófico completo e autoexplicativo, que gerou seguidores "como Marx", mas elogia o grego Aristóteles, que fez algo semelhante e que gerou seguidores "como" Santo Thomas de Aquino e toda a Igreja Católica por séculos.

Não é, porém, apenas por esse caminho da inconsistência intelectual que Olavo constrói um mundo paralelo, um mundo vermelho, cheio de mal intencionados comunistas que se fazem passar por democratas. Toda sua visão do mundo é pura ideologia reativa à sua decepção com o comunismo.

Isaac Deutscher, um brilhante marxista histórico, biógrafo de Trotsky, costumava dizer que não havia nada pior do que um comunista arrependido – seja pelos crimes de Stálin ou qualquer outro motivo –, que não elaborou suficiente e racionalmente sua crise de consciência. Sempre seria um convertido, um imaturo, projetando no outro lado todas as suas tentações totalitárias. Quando Olavo vê vermelho até no liberalismo com preocupações sociais, está revelando essa imaturidade, seu lado infantil, que precisa de uma crença cega contra um inimigo inventado. A conversão se assemelha às dramáticas conversões religiosas, com visões e alucinações abundantes.

O mundo está cheio de ex-comunistas que não amadureceram, como o também jornalista Carlos Lacerda – infinitamente mais talentoso e inteligente do que Olavo, é verdade –, mas igualmente trêfego e cego, que via até trabalhismo como comunismo. Ou o próprio Benito Mussolini, que foi da Segunda Internacional comunista, sofreu uma derrota dentro dela, e acabou por inventar uma estúpida e monotemática Terceira Via antimarxista.

O problema do fanatismo de Olavo é que sua vaidade, onipotência e delírios de grandeza o levaram à arrogância e, portanto, à estupidez. Ele é inteligente, apesar de suas confusões e impaciência, mas, como bem diria Ariano Suassuna, "fanatismo e inteligência não moram na mesma casa". Um deles tem de sair.

*Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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