Cultura

01/04/2021 | domtotal.com

Viajo porque preciso, volto porque te amo

Mercado cultural impõe urgências desnecessárias que deixam passar belezas essenciais

Cena de 'Viajo porque preciso, volto porque te amo'
Cena de 'Viajo porque preciso, volto porque te amo' (Reprodução)

Ricardo Soares*

Uma das coisas que sempre me afligiu como jornalista e "pitaqueiro" da área cultural foi o quanto somos submetidos pelas leis do mercado ao próprio mercado. Me explico: a pauta que rege a mídia cultural é a novidade, o lançamento, o que vai para as muitas vitrines, agora notadamente virtuais. Disso se ressente a música, a literatura, artes visuais e, lógico, o cinema. É tudo muito volátil, tudo muito rápido e aqui também me pergunto: onde vamos com tanta pressa?

Diante dessa premissa a "novidade" da semana passada fica velha na semana seguinte e não sobra tempo para digerir o que o talento (ou oportunismo) humano nos coloca a disposição. É a velha máxima de Caetano revisitada: "quem lê tanta notícia?". O critério de "qualidade" parece então ser tão somente a "novidade".

O fenômeno que atinge todos os que, digamos, "consomem arte" faz com que deixemos passar batido livros, músicas, filmes que deveriam ter sido melhor vistos, discutidos, digeridos. Encontro uma lista imensa e cada qual deve ter a sua.

Andei refletindo sobre isso quando finalmente vi por esses dias o belíssimo filme brasileiro  Viajo porque preciso, volto porque te amo, produção de 2009   da dupla de craques  Marcelo Gomes (Cinema, aspirinas e urubus) e Karim Ainouz (Madame Satã, Céu de Suely, Praia do Futuro), que a partir de uma narração em off – de um geólogo que percorre cantos ermos do Nordeste –reconstrói em cacos a própria vida, lembranças, trajetórias e amores do protagonista, numa colagem que ensejou um dos melhores roadie movies que  vi na vida. O ator narrador é o mais que competente Irandhir Santos, vivendo o geólogo Zé Renato, 35 anos, que está no sertão  nordestino realizando uma pesquisa de campo para avaliar  o provável  percurso de um canal que será construído desviando as águas de um  rio caudaloso da região. Toda e qualquer semelhança com a transposição do São Francisco não parece mera coincidência.  Durante a viagem, o geólogo purga um grande amor desfeito e entre ele, a paisagem e as pessoas que encontra pelo caminho, há em comum a desolação, o isolamento, a vaga esperança de que, talvez, quem sabe, dias melhores virão.

Na época, apesar do meu interesse no filme, perdi sua curta exibição entre os cinemas do Rio e São Paulo onde alternava trabalho, diversão e, vá lá, prazer. Eis que agora, apesar de todos os seus pesares, a Netflix disponibiliza essa pérola de delicadeza que revela (como raros filmes brasileiros fizeram) um país nordestino verdadeiro, nu e cru, apesar da glamourização que faz dele outras mídias.  Consta que o filme é uma edição inspirada de rebotalhos de imagens de outros filmes feitos pelos diretores e daí me vem a máxima do poeta Wally Salomão: "a memória é uma ilha de edição".

O filme sempre me interessou, a começar pelo título tirado de notória frase de para-choques de caminhões Brasil adentro: "Viajo porque preciso, volto porque te amo". Vi e li essa frase durante os quatro anos iniciais de minha carreira jornalística (1978 a 1982), onde viajei Brasil afora trabalhando em revistas para caminhoneiros publicadas pela editora Abril (O carreteiro) e Bloch Editores (Boléia) e me enxerguei em muitas passagens do protagonista. Sim, eu ia viajava porque precisava. Voltava porque amava.

O filme de certa forma aplaca um pouco meu raciocínio crítico em relação ao cinema nacional que sempre acreditei ter mostrado pouco o tal Brasil real ou "Brasil profundo", que é esse termo do qual ando tomando birra pois sempre usado por intelectuais que nunca puseram o pé na estrada. Mas essa é outra rota e não vou entrar nela.

O fato é que dormi com o coração aquecido nesses dias difíceis depois de assistir ao filme do Karim e do Marcelo. Me vi entre Transamazônica, Belém-Brasília, Canudos, Tocantins, Matos Grossos, serras e espinhaços baianos e gaúchos, sempre em busca do trabalho e de mim mesmo, com o perdão do chavão. E apesar de ser do tal "ramo cultural", me penitencio por não ter assistido a essa beleza há mais tempo. Fui vítima da mesma "lógica do mercado" que critico e nos impõe urgências desnecessárias que deixam passar belezas essenciais.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

*Ricardo Soares é escritor, jornalista e documentarista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários. Seu blog é www.todoprosa.blogspot.com

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