Religião

02/04/2021 | domtotal.com

Ressurreição: compreender a linguagem, para redescobrir o significado

Jesus passou da morte à ambiência da vida plena e indestrutível do Pai

Após sua morte, Cristo foi despertado, erguido
Após sua morte, Cristo foi despertado, erguido (Unsplash/Pisit Heng)

Felipe Magalhães Francisco*

Nos meios cristãos dizemos a palavra ressurreição. A comemoração mais central de todo o cristianismo é resumida nessa palavra. O Novo Testamento, sobretudo com a teologia de Paulo, deixa claro: é a ressurreição o esteio da fé cristã, de modo que, se Cristo não houvesse ressuscitado, todo o anúncio cristão seria vazio, vão. Tão logo já afirmamos algo que nos soa fundamental: a palavra privilegiada pela Tradição para falar do que ocorreu com Jesus, entre sua morte e o surgimento da primeira comunidade cristã, é uma metáfora.

Julgamos importante a consideração de que a palavra ressurreição seja uma metáfora, pois caímos no infortúnio da banalização desta palavra, com a consequente perda de sua força. E esse esvaziamento da palavra não se dá por causa do seu frequente uso, e sim pelo fato de nossa catequese ter, justamente, perdido a sua dimensão carregada de simbolismo. Dizer que se trata de uma metáfora não é, absolutamente, desvalorizá-la e reduzi-la em seu significado. Ao contrário, trata-se de destacar sua importância. O acontecido com Jesus, após a sua morte, foi algo inaudito, no sentido de que seus seguidores e seguidoras não esperavam. Diante de uma experiência arrebatadora feita por esses discípulos e discípulas, era preciso encontrar na linguagem mediações que pudessem colocar em evidência a força daquela experiência.

E, se prestarmos bastante atenção em todo o Novo Testamento, veremos que os autores sagrados recorreram a vários termos metafóricos, para tentar dizer o extraordinário ocorrido com Jesus, depois de sua morte, e do qual os discípulos e discípulas acabaram se tornando testemunhas experienciais. Mesmo a palavra privilegiada, ressurreição, precisou ser ressignificada, para servir ao propósito cristão do anúncio daquilo que se tornou o fundamento da fé cristã. Essa palavra já compunha a semântica do judaísmo farisaico e, apropriada pelos cristãos e cristãs, foi usada para comunicar algo sem precedentes. As outras palavras, em companhia, são importantes para ajudar a compreensão do que foi, realmente, a ressurreição de Jesus, segundo o testemunho daqueles que dela fizeram experiência, e o Novo Testamento, muito acertadamente, lançou mão dessas outras palavras, para compor uma linguagem própria do que era elementar para os depois de Jesus.

Quando nosso olhar sobre os textos neotestamentários foca nessa dimensão da linguagem, descobrimos coisas interessantes e importantes, que não podem ficar despercebidas. Em português, traduzimos por "ressurreição", duas palavras gregas: ambas com sentido metafóricos bastante fortes. A primeira, despertar; a segunda, erguimento. Após sua morte, Cristo foi despertado, erguido. Aliadas às outras palavras-metáforas do Novo Testamento, essas duas palavras comunicam o algo acontecido com Jesus, e que mudou a vida dos discípulos e discípulas de modo radical: verdadeiramente morto, Jesus foi exaltado por Deus e elevado à sua direita; foi alcançado pela Vida de Deus, não em sentido biológico, de uma vida material que tem fim, mas de uma indestrutível; foi glorificado, tornando-se partícipe do ser mesmo de Deus, este que constituiu Jesus como Senhor… É por isso que as narrativas teofânicas dos evangelhos – para dizer que há a revelação de uma ação de Deus, ali – inspiram a que os discípulos não procurem entre os mortos, aquele que Vive, pois ele foi entronizado em Deus, em todo o seu ser. Toda essa diversidade linguística quer evocar um passamento, uma páscoa: Jesus passou da morte à ambiência da vida plena e indestrutível do Pai, ao qual ele serviu com amor radical.

Como podemos ver, o olhar a respeito da linguagem da ressurreição não é uma questão meramente técnica. É, ao contrário, condição de possibilidade para mergulho profundo no significado da fé cristã. Uma vez que trilhamos este caminho linguístico, apresentamos os três artigos que compõem nosso Dom Especial, e que são um convite a uma redescoberta da força da ressurreição para a fé cristã. O primeiro artigo, Redescobrir a Ressurreição, é proposto por Fabrício Veliq e, partindo da teologia paulina, chama a atenção para a necessidade de que vivamos nossa história, realmente calcados numa experiência de ressurreição. Rodrigo Ferreira da Costa, no artigo A Ressurreição de Jesus como caminho de compreensão de sua vida e missão, ajuda-nos a redescobrir a atuação de Jesus em favor do Reino e o amor do Pai, em assentimento a tudo o que o Filho disse e fez. Por fim, Daniel Couto, no artigo Levantai-vos!, lança um importante convite à redescoberta de que o cristianismo é a religião da vida, compreensão fundamental que leva cristãos e cristãs a lutarem contra o poder e a força da morte.

Nestes tristes e lamentáveis tempos, onde a morte vai se fazendo mais que cotidiana, tanto por força da pandemia quanto da necropolítica, que a redescoberta da ressurreição de Jesus nos inspire à ética da fé, e nos ajude a viver com esperança operosa! Boa Páscoa!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena a editoria de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.



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