Religião

02/04/2021 | domtotal.com

Na prática, quais os efeitos das viagens pontifícias?

Desde Paulo VI, saiba como as visitas internacionais do papa impactaram a sociedade

Papa Francisco em cerimônia na praça Hosh al Bieea, em Mossul, no Iraque, em março
Papa Francisco em cerimônia na praça Hosh al Bieea, em Mossul, no Iraque, em março (AFP)

Mirticeli Medeiros

Em março deste ano, o papa Francisco passou três dias intensos no Iraque. E os frutos desta visita já começam a aparecer. Autoridades civis e religiosas já se encontraram para fazer um balanço desse encontro com o sumo pontífice. E não só: se comprometeram a colocar em prática alguns dos conselhos do papa para o país. O mais incrível: estamos falando de um país cuja maioria é muçulmana. A informação foi divulgada pela emissora árabe Al Araby Al Jadeed.

As viagens do papa são uma extensão da linha de governo que ele adota. São chamadas de "visitas apostólicas" porque a intenção, do ponto de vista religioso, é a de, primeiramente, confirmar a fé das pessoas do país anfitrião. Não são feitas ao acaso e, a depender da ocasião, seguem uma estratégia geopolítica bem articulada.

Paulo VI foi quem começou essa aventura de embarcar rumo a terras longínquas. Impulsionado pelo Concílio Vaticano II, da década de 1960, que pedia esse olhar mais ‘universal’ sobre a Igreja, foi o primeiro sumo pontífice a sair da Itália. Levou tão a sério esse desejo de abraçar todo o mundo católico, que atravessou o Atlântico, foi à Ásia e não deixou de fora nem a Oceania nem o Oriente Médio.

Sua viagem à África, para onde nunca tinha ido antes, nem como cardeal, serviu de inspiração para o documento Populorum Progressio (1967), a encíclica social que, entre outras coisas, condena a desigualdade social e o neocolonialismo que impera nos países mais pobres. Em visita à Terra Santa (1965), se encontrou com o Patriarca Atenágoras, da Igreja Ortodoxa, com quem selou um pacto de comunhão nunca antes visto desde o cisma do Oriente, de 1054.

E foi o próprio Paulo VI, durante a audiência geral de 8 de maio de 1968, a explicar por qual motivo resolveu inaugurar a tradição do 'papado itinerante':

"As vias do mundo são abertas, inclusive logisticamente, ao ministério do papa. Isso é muito significativo e importante e, talvez, com o passar do tempo, poderá produzir mudanças notórias no exercício prático da nossa missão apostólica".

Dito e feito. As viagens pontifícias redimensionaram o papel do papado. João Paulo II que o diga. Foram 104 viagens apostólicas fora da Itália e centenas de documentos de magistério que foram enriquecidos a partir desse contato maior com outros povos. Dificilmente o papado moderno teria retomado sua soberania espiritual caso não tivesse atravessado os muros do Vaticano.

Papa Francisco, com sua 'geopolítica das periferias', segue, mais uma vez, a ‘profecia’ de Paulo VI, que via nas viagens apostólicas uma nova página na história do papado. Ao ir a países nunca antes visitados por um papa ou a lugares onde os cristãos são minoria, o pontífice argentino coloca "a cereja no bolo". Como seus antecessores, segue revolucionando essa instituição, chamada papado, porém, para além de realizar feitos inéditos, tem a clareza que evitará 'a morte do cristianismo' somente se tiver a coragem de sair da sua zona de conforto.

Francisco também sabe que, nas realidades mais simples, onde ainda existe um impulso para uma nova evangelização, a fé não é negociada. A visita ao Iraque foi uma expressão máxima dessa consciência. Desafiando os riscos que aquela viagem comportava, quis proclamar, em meio às ruínas da guerra, que a fé, naquele local, não estava morta, e que aquilo serviria de exemplo para o Ocidente "das facilidades".

Depois da pandemia, o papa terá que recalcular sua rota, mas continua firme na ideia de privilegiar as periferias. Daqui pra frente, como líder global que é, e fazendo bom uso da própria influência que exerce, fará um apelo para que as grandes potências, que se professam cristãs, façam jus ao título e abracem os países mais pobres. É essa a estratégia de Francisco para ressuscitar não só o cristianismo, mas o senso cristão.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras

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