Religião

02/04/2021 | domtotal.com

Levantai-vos!

Cristão devem lutar contra o poder e a força da morte em coerência com sua fé na vida

A nova vida nos chama à responsabilidade da justiça e da paz
A nova vida nos chama à responsabilidade da justiça e da paz (Unsplash/Tucker Good)

Daniel Couto*

Louvor a Deus que livra o pobre, em Cristo vencedor da morte. Que brilha na ressurreição e a todos traz libertação. Do Santo Espírito a ternura renove toda criatura, pois dele desce todo o bem.
(Salmo 114, Ofício Divino das Comunidades)

O cristianismo é uma religião da vida! Por mais que algumas leituras, oriundas de um certo "obscurantismo", apontem para uma fixação pela morte e uma "religião do Deus morto", o evento que funda toda a tradição das comunidades que seguem o Cristo é a ressurreição. Não são poucas as passagens do livro sagrado nas quais a vida é valorizada, em sua completude e originalidade, como o caminho para o ser humano experienciar de maneira profunda a sua humanidade. Se, de algum modo, nos espantamos com a "divindade que se faz humana", deixamos de lado uma outra dimensão: a "divindade que experimenta a vida". Antes de morrer na cruz, Jesus passou por toda a experiência existencial, isto é, compartilhou a nossa condição, esteve sujeito a uma cultura, a um contexto político, a um pertencimento de classe e a todas as dualidades presentes na vida humana.

Esse distanciamento da "vida de Deus" se deu, por muito tempo, pela supervalorização da dimensão divina em detrimento à humanidade. Como poderia Deus sofrer as mesmas mazelas que o ser humano? Como seria essa humanidade de Jesus? Ele é Deus e ser humano, portanto diferente de nós? Para compreendermos como a valorização da vida se constitui como centro da experiência cristã, temos que recordar que o ser humano é chamado a "viver o Reino". O mistério pascal de Cristo tem, como cerne, essa passagem da morte para a vida, essa ruptura de um estado afônico, onde não é possível se relacionar com Deus, para um corpo místico que possui voz e vida plena. Não se trata da subjugação de uma natureza a outra, humano-divino, mas de uma compreensão de vida que encontra o seu modelo no corpo ressurreto.

Leia também:

Ao passar pela experiência da vida, Jesus consolida, em si, uma maneira de viver que não pode ser destruída pela morte. Mesmo que as circunstâncias o tenham levado à perseguição, ao julgamento e à condenação, nada disso invalida tal modelo. A relação estabelecida entre o mestre e aqueles que o seguiam foi afetiva, corporal e espiritual, de modo que o fortalecimento desses laços construiu uma existência subjacente aos próprios corpos e que se manteve mesmo na ausência física. Isso pode parecer estranho, uma vez que associamos a vida ao corpo, porém temos que compreender que a existência possui diversos aspectos e que, ao limitarmos a nossa compreensão apenas a um deles, deixamos de enxergar com os olhos da fé. As promessas de vida eterna, portanto, não poderiam comportar a mesma existência que os sujeitos possuíam, pois, o evento da morte nos muda, como afirma a própria sagrada escritura, de maneira profunda. Quem passa pela morte, mesmo que viva, não viverá da mesma forma. Quem renasce já não é mais o mesmo e, por isso, Cristo vive nele.

Neste sentido, a ressurreição ?" a vida nova do Cristo ?" e o batismo ?" marca indelével do cristão ?" se constituem como o fundamento da fé. Os que creem nessa nova vida não podem manter os seus olhos fixos na cruz e na dor, apesar de compreenderem que esse foi o evento pelo qual a passagem (páscoa) aconteceu, mas acolher uma nova existência que não depende somente de si, mas da conversão (conformação com o modelo de humanidade apresentado no Evangelho) e na graça divina, elemento espiritual que fortalece, e possibilita, o renascimento da nova criatura. Mais do que a "volta dos mortos", uma maneira de compreender a ressurreição que encontramos em outras tradições religiosas, a ressurreição de Cristo é a ressurreição de toda a humanidade. Todos os elementos simbólicos que encontramos no novo testamento apontam para um evento que extrapola a pontualidade da crucificação, preparação, sepultamento e sumiço do corpo de Jesus. Se essa factualidade da condenação e morte indica os fatores físicos onde o corpo é a prova da morte. A ausência do corpo, já em dimensão mística-escatológica, demonstra que o acontecimento da fé extrapola as determinações da nossa experiência comum. Jesus não levanta no sepulcro, como se os eventos predecessores não tivessem acontecido, mas ele ressuscita em um corpo glorioso. Somente o céu (e, de maneira análoga, todo o cosmo/universo organizado) é testemunha da ressurreição. O ato da divinização da humanidade acontece em uma dimensão distinta, pois não é a própria humanidade que se eleva, mas Deus que, em si, a recoloca no jardim da criação. O novo sepulcro, jardim no qual o corpo sem vida é colocado, torna-se o local da reconstituição da humanidade. Do jardim do "pecado" ao jardim da "ressurreição", Deus caminha com o seu povo para reestabelecer sua aliança.

Em um panorama geral, a ressurreição de Jesus não é uma narrativa inédita, como dito anteriormente, mas dialoga com uma série de histórias/mitos nos quais é possível acessar o "mundo dos mortos" e regressar para a continuidade da vida. Porém, essas narrativas não são ingênuas e pretendem nos mostrar que, mesmo que seja possível um resgate daqueles que "morreram", a existência deles não é a mesma. Se tomamos como exemplo o admirável Orfeu, que na mitologia grega desceu aos infernos para resgatar o seu amor, percebemos que as artimanhas do resgate esperado o fazem retornar sem sua amada e, de maneira mais marcante, sem a vontade de permanecer vivo. Ir aos infernos muda, profundamente, a própria existência, seja para o herói, o poeta ou até mesmo para os deuses.

Qual é a diferença da ressurreição de Jesus?

O traço identitário da fé cristã é que o Cristo não foi ao inferno "apenas" para resgatar os seres humanos que padeciam. Ele viveu a morte em sua plenitude. Jesus permaneceu três dias, período de confirmação da sua condição de ser humano e, portanto, de mortal. Sua existência se encaminhou para a morte porque ela é o destino de todos nós. É nessa mesma condição que foi possível o reencontro com a vida. A marca do cristianismo, a ressurreição, é precedida pela morte real do ser humano e tomada em plenitude quando o ressuscitado se torna tudo em todos. A experiência de Jesus no inferno é a experiência da humanidade, tanto que na tradição encontramos o amado em busca da sua amada, Cristo em busca da humanidade, que resgata Adão e Eva, derruba os frontões da prisão existencial e da impossibilidade de relação. Jesus nos pega pela mão e nos faz emergir em uma nova vida. Experimentar a vida, descer ao inferno e ressurgir como uma nova criatura é o clarão que Cristo refulge para nós.

Sendo assim, os cristãos são chamados à vida e o Messias está presente em seu meio, relacionando-se, de corpo e sangue, perpetuação da sua existência no mundo. O projeto do seu Reino se consolida, cada vez que os batizados, mergulhados nas águas e emergidos para a nova vida, se reúnem e se configuram como o seu corpo eclesial. A ressurreição dá ao Filho do Homem uma nova existência que é real, relacional e experiencial. Ele está verdadeiramente acompanhando o seu povo, mas não da mesma maneira que estava quando passou pelo mundo pregando a Boa Notícia. O corpo ressuscitado, que é também o corpo da Igreja, se move a partir do seu exemplo e da sua palavra. Jesus é a cabeça (que possui, entre outros significados, a compreensão de que ele guia, ensina e coordena) de um corpo universal, presente em todos os lugares e tempos. A atemporalidade, a imaterialidade e a onipresença divina são reforçadas pela ressurreição e nos tornamos partícipes dessa natureza divina. Deus realiza esse enlace extraordinário entre a natureza humana e a natureza divina e, em Jesus, torna possível que a caminhada de um só ser humano se torne caminhada coletiva de justiça, amor e libertação.

Não nos resta dúvidas de que a ressurreição é o evento fundante do cristianismo e, deste modo, a celebração da vigília pascal (no caso dos cristãos católicos) é o centro a partir do qual emana toda a mística da igreja. Quando todos os seres humanos reconhecem que n?Ele fomos resgatados dos grilhões da morte e que a uma "vida nova" é possível, não estamos apenas apontando para um futuro, mas dizendo que hoje, isso mesmo, hoje, a morte perde todo o seu poder. Continuamos caminhando para a morte, pois ela é o destino que nos espera, mas a vida plena encontra novo sentido. O corpo eclesial é a assembleia dos seres humanos irmanados pelo amor e todo o cosmo glorifica a divindade por permitir que, em meio à realidade dura da matéria, possamos experimentar a atemporalidade do divino. Os astros são testemunhas, os seres humanos os convidados e o Cristo o redentor. Jesus ressuscitado nos convoca: levantai-vos! A morte já não tem mais poder sobre nós. A nova vida nos chama à responsabilidade da justiça e da paz. Afastai-vos cristãos daqueles que acreditam que a vida de cada pessoa humana não precisa ser valorizada. O Cristo nos chamou para a vida. O Cristo rompeu o véu que separava o humano do divino. Levantai-vos, a morte foi vencida pelo amor!

*Daniel Couto é doutorando em Filosofia pela UFMG



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!