Religião

02/04/2021 | domtotal.com

Para além da fé, urge também o senso de justiça

Olhando para a nossa realidade contemporânea, me pergunto quantos Cristos também estão sendo crucificados todos os dias

Jesus foi morto não por dizer que era o Filho de Deus, mas principalmente por provocar mudanças na realidade do seu tempo
Jesus foi morto não por dizer que era o Filho de Deus, mas principalmente por provocar mudanças na realidade do seu tempo (Guido Da sacco / Unsplash)

Isabela Amorim Santiago*

A Sexta-feira da Paixão é um dos dias mais importantes para os cristãos, pois representa o momento máximo de amor de Deus para com todos nós, ao entregar o Seu Filho muito amado em remissão dos nossos pecados. Eu sempre me comovi muito com os filmes que retratavam seus momentos finais, antes da ressurreição, e com as leituras sobre a morte de Jesus. Mas teve uma celebração que me tocou em especial. Eu devia ter uns quinze anos e fui com minha avó Nenzinha na Igreja de Santo Antônio, lá de Teixeira de Freitas (BA). Lembro da leitura do Evangelho e do quanto aquilo me doía. Era como se eu estivesse lá, junto com Maria, com as mulheres e os discípulos, acompanhando todo aquele martírio tão injusto e cruel que alguém tão santo como Jesus era obrigado a passar. Desde então, comecei a perceber que, para além da fé católica, havia algo que colaborava para que eu sentisse tamanha comoção: o meu senso de justiça.

Jesus foi morto não por dizer que era o Filho de Deus, mas principalmente por provocar mudanças na realidade do seu tempo - ao abraçar os desvalidos, as prostitutas, as viúvas, os mais pobres e os estrangeiros; ao dizer duras verdades e revelar as tantas hipocrisias sob as quais o manto religioso daquela época tentava esconder; por buscar a igualdade e o respeito entre todos, independente de etnia, credo, classe social ou gênero; e por resumir todos os outros mandamentos em um só (Amar ao próximo como a ti mesmo).

Olhando para a nossa realidade contemporânea, me pergunto quantos Cristos também estão sendo crucificados todos os dias - pela desigualdade social, pela fome, pelo racismo, pela violência de gênero, pela xenofobia, pela homofobia e por tantos outros preconceitos que a gente finge nem sequer conhecer.

No dia 1º de abril de 2021, completou-se exatos 57 anos da instituição de um regime ditatorial no Brasil. Um regime militar que perseguiu, prendeu e torturou 20 mil brasileiros, segundo o Human Right Watch, e retirou a vida de quase 500. Quantos ali também não sofreram injustamente? Quantos ali não foram perseguidos simplesmente porque suas ideias não batiam com o que era pré-determinado pelo governo? Quantos tiveram suas vozes silenciadas por quem não admitia ouvir a verdade, nem sequer suportar a existência daqueles que pensavam diferente?

Enquanto no Brasil, mais e mais vidas vão sendo perdidas para um vírus que não se importa com raça, classe social, idade ou crença, ainda há quem comemore e vanglorie um período tão nefasto na história brasileira.

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Voltando à nossa realidade atual, em tempos de pandemia, me pergunto se o martírio o qual estamos vivendo - com os quase 330 mil mortos - não poderia ter sido evitado - não só antes, como também agora. O que nós estamos, de fato, fazendo para que este quadro mude? O que é preciso para acabar com esse caminho de morte que a gente tem percorrido há mais de um ano? Quanto tempo mais as pessoas vão desviar os olhos dessa realidade tão doída e manter essa tamanha indiferença à dor dos outros? Será que pra aprender a ter um pouco de empatia será preciso perder os nossos ou a nossa própria vida?

Em meio a tanta dor, de perdas físicas, materiais e espirituais, peço a Deus que tenha misericórdia de todos nós.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

*Isabela Amorim Santiago é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e Relações Públicas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente integra a equipe de jornalismo do Dom Total

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