Brasil

03/04/2021 | domtotal.com

O coveiro

Inacreditável a capacidade do atual (des)governante em produzir instabilidade, cizânia, bizarrices e afrontas constantes às leis

Foto de 22 de janeiro de 2021, de túmulo de uma vítima da Covid-19 no cemitério Nossa Senhora Aparecida em Manaus
Foto de 22 de janeiro de 2021, de túmulo de uma vítima da Covid-19 no cemitério Nossa Senhora Aparecida em Manaus (AFP)

Eleonora Santa Rosa*

Sem palavras e sem esperança que a situação se reverta a curto prazo, assistimos boquiabertos e arrasados aos relatos médicos e às cenas dramáticas do alastramento da pandemia em todas as regiões do país, já à beira de um colapso funerário precedido da falência da rede de saúde de norte a sul. 

Estarrecidos presenciamos a coletiva do novo ministro da Saúde, um médico amigo do filho Zero 1 (senador da Rachadinha), presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, praticando malabarismo verbal inacreditável para não se confrontar com o facínora que prega a aglomeração, a (a)normalidade da rotina do dia a dia, a volta ao trabalho, defensor intransigente do comprovado ineficiente e pernicioso tratamento precoce da Covid-19, cujo resultado, de fato, tem sido o crescimento de outras doenças advindas de uso indevido e ineficaz de cloroquina, azitromicina e assemelhados, e das internações causadas pelas graves repercussões desses medicamentos no fígado dos pacientes.

País desassossegado e fraturado, já não bastasse a gravíssima situação do sistema de saúde, ainda passa por uma mega turbulência decorrente da demissão sumária dos ministros da Defesa e das três armas militares.

Inacreditável a capacidade do atual (des)governante em produzir instabilidade, cizânia, bizarrices e afrontas constantes às leis. Desprovido de qualquer senso de empatia, com evidentes disfunções no que toca a compreensão de seu papel e suas obrigações constitucionais, além de sua efetiva incapacidade de análise e percepção da realidade da catástrofe que enfrentamos hoje, em boa medida decorrente de suas atitudes desvairadas e de seu péssimo exemplo comportamental, conduz o país ao abismo aterrorizante. 

O prognóstico de cientistas e médicos para o mês de abril é alarmante. Devemos nos preparar para o muito pior. Estrangulados estamos pela deliberada decisão de seu governo de não adquirir vacinas a tempo, ainda em 2020, decisão pautada pela estupidez de seu ex-ministro da Saúde, um subalterno de farda e de comprovada incapacidade técnica. Pasmos, ouvimos o disparate do discurso do coveiro esta semana, conclamando os cidadãos a saírem de casa! Asqueroso personagem de mau agouro e maus sentimentos, será julgado como responsável primeiro pela dizimação de brasileiros pela Covid.

Os asseclas, áulicos, vassalos, prepostos e subalternos que lhe servem nesse particular também o serão, pois não há escusas, atenuantes ou mesmo perdão pela omissão, conivência ou concordância com o morticínio em curso. Fechamos o março com o sangue de mais de 300 mil brasileiros inundando nosso mapa. Em breve, se não houver uma contundente, urgente e radical mudança de rumo, serão 500 mil vidas desperdiçadas.

Aos olhos do mundo, nos transformaremos num país de párias e covas, como já vaticinava o poeta:

parabéns coveiros que nos encovaram
estamos perfeitamente encovados
ninguém melhor encovados que nós
estercos de terceira mão

*Fragmento Parodices de Sebastião Nunes (Antologia Mamaluca e Poesia Inédita, Volume 1, Edições Dubolso, 1988).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ocupou diversas funções públicas de relevo e desenvolveu projetos de educação patrimonial e de patrimônio cultural de repercussão nacional. Ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR (de novembro de 2017 a novembro de 2019), é considerada uma das mais experientes e respeitadas profissionais no campo da viabilização, implantação e soerguimento de equipamentos culturais no país. Estrategista e gestora cultural, tem larga experiência editorial; foi responsável pela publicação de mais de meia centena de obras voltadas à história e à cultura de Minas Gerais, tendo sido coordenadora editorial das consagradas Coleções Mineiriana e Centenário da Fundação João Pinheiro. Diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, é autora do livro Interstício

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