Religião

06/04/2021 | domtotal.com

Lavagem cerebral: Igreja Católica do Brasil luta contra a negacionismo da Covid-19

A caridade da Igreja passa pela luta contra as estruturas injustas

Dom Sérgio abençoa alimentos doados pelo MST em Ponta Grossa em fevereiro de 2021
Dom Sérgio abençoa alimentos doados pelo MST em Ponta Grossa em fevereiro de 2021 (Jade Azevedo MST-PR)

Eduardo Campos Lima*
NCR

Uma segunda onda de infecções de Covid-19 varreu o Brasil nos últimos meses, elevando o número médio de mortes diárias para mais de 2.500 e causando o colapso do sistema de saúde em várias cidades.

À medida que a crise cresce, os líderes da Igreja Católica enfrentam grandes desafios para ajudar os necessitados e combater o negacionismo da pandemia, que muitas vezes é apoiado pelo homem que muitos culpam pelo caos no país, o presidente Jair Bolsonaro.

O Brasil contabiliza mais de 313 mil mortos e 12,5 milhões de casos confirmados da doença. A pandemia se agravou rapidamente depois que uma nova cepa do vírus, mais contagiosa e letal, desenvolveu-se na cidade amazônica de Manaus no final de 2020.

"Infelizmente, muitos católicos são influenciados por grupos políticos que não têm uma opinião crítica sobre esse estado de coisas", disse o padre Geraldino de Proença, da Diocese de Apucarana. "Os cristãos, em geral, estão agora muito suscetíveis a notícias falsas sobre a pandemia no Brasil".

A nova onda deixou hospitais em 19 capitais operando quase em plena capacidade. Os suprimentos de oxigênio e de medicamentos usados para intubação de pacientes estão faltando em algumas regiões. Até os serviços funerários estão chegando ao limite do que é possível em grandes cidades como São Paulo.

Apesar dessas questões, uma pesquisa recente mostrou que 22% dos brasileiros rejeitam a ideia de um lockdown imposto pelo governo federal para conter a propagação do vírus, um isolamento que os cientistas dizem ser urgentemente necessário. Os números ressoam em certo grau com a atitude negacionista que Bolsonaro tem mostrado desde o início da pandemia.

Bolsonaro sempre se opôs à adoção de medidas de distanciamento social e frequentemente criticou governadores de estados e prefeitos que decretaram bloqueios parciais.

O presidente repetidamente deixou de usar máscara facial em eventos públicos, provocou deliberadamente reuniões de seus apoiadores e colocou em dúvida a eficácia da vacina chinesa CoronaVac.

Acima de tudo, Bolsonaro não conseguiu estabelecer uma política coordenada de combate à pandemia, algo que teria sido crucial, segundo especialistas.

O padre Proença é membro dos grupos não oficiais Padres da Caminhada e Padres contra o Fascismo, que incluem uma grande parte dos membros do clero mais progressista do Brasil.

Os grupos emitiram um comunicadoconjunto no início de março denunciando o "desprezo [pela população brasileira] demonstrado ao presidente da república e suas autoridades aliadas" e a contínua "negação da ciência" promovida por Bolsonaro.

O documento também mencionou a morte de 65 padres e infecção de mais de 1.400 membros do clero. Os padres concluíram a carta pedindo vacinas para todos.

"Cabe à Igreja alertar as pessoas sobre o que está acontecendo. Algumas pessoas dizem que a Igreja não deve se intrometer na política, mas não se trata de política partidária. Estamos defendendo a vida", disse Proença.

Na verdade, a Igreja tem tentado denunciar a má gestão da pandemia por parte do governo em diferentes frentes. Em 2020, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) juntou-se a importantes organizações cívicas, como a Ordem dos Advogados do Brasil e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em um chamado Pacto pela Vida, uma iniciativa para pressionar as autoridades a assumirem o controle sobre a pandemia.

No mês passado, os signatários do pacto divulgaram uma declaração dura pedindo ao governo que "parasse a escalada de mortes". O título da carta, O povo não pode pagar com a vida!, fazia referência direta à alegada incapacidade de Bolsonaro.

"É notória a ineficiência do governo federal, principal responsável pela tragédia que vivemos. Governadores e prefeitos não podem ser cúmplices dessa demonstração de desprezo pela vida humana", afirma o documento.

A carta, que é co-assinada pelo arcebispo de Belo Horizonte e presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, enfatiza a necessidade de que a população brasileira seja vacinada rapidamente.

Desde meados de 2020, Bolsonaro tem mostrado uma atitude crítica em relação às vacinas e não conseguiu negociar com as empresas farmacêuticas para a aquisição antecipada de doses. Agora, a vacinação no Brasil está progredindo muito lentamente e apenas 15,5 milhões de pessoas receberam pelo menos uma injeção. O país tem uma população de 211 milhões de pessoas.

O comunicado também exorta os demais poderes do Estado a assumirem o maior controle possível sobre a gestão da crise e exorta a sociedade a tomar as medidas cautelares necessárias.

"As manifestações da CNBB sempre buscaram trazer esperança e conciliação, mas a comunicação mais recente tem uma nota clara de denúncia, considerando a falta de responsabilidade [do governo]", disse Carlos Moura, advogado e antigo membro da Comissão Episcopal Justiça e Paz.

Parece ser uma tarefa difícil encontrar o tom apropriado em tais afirmações.

Por um lado, a Igreja não pode ficar em silêncio e fingir que o governo de Bolsonaro está trabalhando adequadamente para acabar com a pandemia. Por outro lado, não pode ser muito crítica, porque uma parte considerável de seu eleitorado – cerca de 30% dos brasileiros que o apoiam – é católica.

"A Igreja não quer se envolver em disputas ideológicas", disse o bispo auxiliar de Belo Horizonte, dom Joaquim Giovanni Mol, presidente da Comissão de Comunicação dos Bispos.

"Na atmosfera atual, não seria útil", disse dom Mol. "Você não pode convencer alguém que já está convencido de algo".

Em vez de enfatizar as muitas falhas do governo Bolsonaro, os bispos têm se concentrado em medidas concretas para ajudar os pobres e na comunicação contínua da atitude adequada para conter a propagação do vírus.

"Talvez assim, as pessoas comecem a entender que há falta de coordenação nacional na crise atual", disse dom Mol. "É um esforço monumental para continuar a nutrir espiritualmente as pessoas e ajudá-las a perceber como o país deve proteger suas vidas".

"As pastorais sociais católicas não apenas contribuem diretamente para encontrar soluções para diferentes problemas sociais, mas também os denunciam publicamente", manifestou a CNBB. "Essa é uma maneira que a Igreja tem de defender concretamente a vida e mudar a opinião das pessoas".

As congregações católicas em todo o país intensificaram ultimamente uma grande variedade de serviços de ajuda, que são acompanhados por um esforço de conscientização sobre a pandemia, explicou irmã Maria Inês Ribeiro, da congregação das Mensageiras do Amor Divino e presidente nacional da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB).

"A desorganização do governo contribui para aumentar o negacionismo entre algumas pessoas", disse a irmã Ribeiro. "Mas nossas ações de socorro mostram que pensamos diferente. Temos mobilizado todas as nossas equipes para divulgar informações sobre a doença".

A ação direta para ajudar as pessoas afetadas pela crise pandêmica também ajuda a pressionar o governo e grupos que negam a crise, disse o arcebispo de Manaus, Leonardo Steiner.

"Essas questões ideológicas são muito complexas", disse Steiner. "Mas a Igreja não pode deixar de manifestar suas posições. Ao mesmo tempo, mostramos por meio de nosso trabalho o que pensamos ser a verdadeira solidariedade".

Mesmo em Manaus, onde surgiu a nova cepa do vírus, há grupos que divulgam notícias falsas sobre a pandemia.

"Essas pessoas perderam a sensibilidade para com o próximo", disse o arcebispo. "Mas o trabalho que os católicos vêm fazendo em Manaus, levando consolo e esperança aos sem-teto, aos imigrantes e aos pobres, é fantástico. Por isso nossa voz continuará sendo ouvida".

Os segmentos negacionistas parecem estar cada vez menores, embora ainda tenham grande capacidade de comunicação nas redes sociais, disse o bispo de São Félix do Araguaia, dom Adriano Ciocca Vasino.

"Quando a doença atinge alguém da família, alguns deles mudam de ideia", disse Vasino. "Na nossa região, apesar de todo peso ideológico do agronegócio local [que é um segmento muito próximo do Bolsonaro], o medo vem crescendo e é raro ver gente sem máscara".

Uma atitude de negação em relação à doença é frequentemente conectada à "negação da fé católica", disse o arcebispo.

"Muitas dessas pessoas também criticam o papa Francisco quando enfatiza a opção preferencial da Igreja pelos pobres", disse Vasino. "Acho que é uma espécie de lavagem cerebral".

Publicado originalmente por NCR

*Eduardo Campos Lima é graduado em jornalismo e doutor em literatura pela Universidade de São Paulo, Brasil. Entre 2016 e 2017, foi estudante pesquisador visitante da Fulbright na Columbia University. Seu trabalho aparece na Reuters e no jornal brasileiro Folha de S. Paulo.



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