Cultura

06/04/2021 | domtotal.com

O racismo nosso de cada dia

No momento em que algo que é dito tem o poder de ferir não somente uma pessoa, mas toda uma coletividade, é porque aquilo não é 'brincadeira', mas uma ofensa

O professor João Luiz durante o Jogo da Discórdia da última segunda-feira (5)
O professor João Luiz durante o Jogo da Discórdia da última segunda-feira (5) (Reprodução TV Globo)

Isabela Amorim Santiago*

Por mais que ainda tenha quem pense que cabelo é meramente estética, eu afirmo o contrário. O cabelo é uma espécie de moldura do rosto e tem uma relação muito latente com a nossa autoestima - e isso independe se você é homem ou mulher. O que acontece é que existem questões problemáticas que interferem na forma como enxergamos um tipo de cabelo como "bom" ou "ruim" - e muitas vezes essa visão distorcida é reflexo de um problema ainda maior: o racismo.

Quando decidi fazer minha segunda graduação, optei por fazer um trabalho  que tivesse uma ligação com a minha própria história: os cabelos. Isso porque eu tenho cabelos cacheados mas, durante grande parte da minha infância e toda a adolescência eu via isso como algo ruim. Dos 12 aos 21 anos eu alisei o meu cabelo e só pude enxergar a minha real beleza quando me permiti voltar às minhas raízes, em 2015.

No meu trabalho de conclusão de curso, portanto, eu optei por fazer um livro-reportagem que envolvesse a temática dos cabelos crespos e cacheados e o empoderamento feminino, tendo em vista o boom da publicidade e dos produtos voltados a este segmento nos últimos anos.

Claro que eu trouxe um pouco da minha própria experiência ao escrever sobre esse tema, só que, em determinado momento eu me deparei com algo que eu nunca senti: o racismo. Por isso, eu busquei dar espaço para vozes de mulheres que sofreram e sofrem com tal preconceito. E eu percebi o quão dolorosa era a relação que elas tinham com o seu próprio cabelo, já que desde cedo elas eram levadas a crer que seus fios eram ruins e feios, de modo que só poderiam ser aceitos caso fossem alisados. Isso sem falar com as inúmeras ofensas vindo dos coleguinhas de escola, dos vizinhos, dos amigos e até mesmo da própria família.

Todas as mulheres entrevistadas, tanto brancas quanto negras, tiveram seus cabelos alisados ao longo da infância e da adolescência, mas só na fase adulta tiveram forças para aceitar as suas raízes encaracoladas, crespas e volumosas. Hoje em dia, falar sobre aceitação virou algo muito mais comum, até porque a própria mídia tem ajudado a reverberar vozes como essas que antes nem sequer eram escutadas. 

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Na semana passada, o Big Brother Brasil mostrou uma cena que incomodou muita gente exatamente por resgatar todos os sentimentos negativos já vividos por quem tem cabelo crespo ou cacheado. O cantor sertanejo Rodolffo fez um comentário comparando a peruca do "monstro" (uma fantasia de homem das cavernas) com o cabelo black power do professor João Luiz. No dia, ele ficou paralisado com o comentário e só conseguiu falar da situação constrangedora com a amiga e influencer Camilla de Luca. Nessa segunda-feira (5), porém, o jovem acabou expondo sua insatisfação com o comentário do colega de reality ao vivo.

A fala de João Luiz não pode ser interpretada como uma mera reclamação, mas como o reflexo de uma situação que ocorre na vida de muitas pessoas. Em pleno século 21, não dá mais pra aceitar comentários preconceituosos e racistas. Porque foi a partir da ideia de que preto é ruim e branco é bom que foi estabelecido um sistema que legitimou a escravização de pessoas negras.

No momento em que algo que é dito tem o poder de ferir não somente uma pessoa, mas toda uma coletividade, é porque aquilo não é "brincadeira", mas uma ofensa. E sim, todos nós somos passíveis de sermos racistas na medida em que a desconstrução do preconceito é algo que precisa ser feito cotidianamente - afinal de contas, nós vivemos em uma sociedade racista. O que não dá é continuar com uma postura que normaliza falas racistas e se mostra indiferente à dor alheia.

A gente precisa sim aprender a escutar e, mais que isso, a respeitar a dor dos outros. Se a palavra da vez é "empatia" que façamos dela a nossa maior bandeira.

*Isabela Amorim Santiago é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e Relações Públicas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente integra a equipe de jornalismo do Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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