Religião

07/04/2021 | domtotal.com

Sou cadeirante e não me sinto bem-vinda na Igreja

Falta de acessibilidade, bem como discursos e práticas capacitistas ainda são presentes em muitas igrejas

Muitas igrejas não têm entradas acessíveis à pessoas cadeirantes
Muitas igrejas não têm entradas acessíveis à pessoas cadeirantes (Pixabay/stevepb)

Erin Murphy*

Imagine ir à missa e não conseguir entrar no prédio de uma igreja. Imagine se confessar e não conseguir entrar no confessionário. Imagine um padre dizendo que você é um fardo para seus pais. Imagine não poder subir ao altar para ser leitor, coroinha ou ministro da eucaristia.

Como usuária de uma cadeira de rodas ao longo de toda minha vida, aprendi que muitas das dificuldades, das decepções e da discriminação diária que experimento na vida cotidiana também ocorrem na Igreja Católica.

No ano passado, ouvi uma homilia durante a missa que foi notoriamente errada: Uma mulher com deficiência foi descrita como um fardo para seus pais e a deficiência foi equiparada ao pecado. O padre acrescentou: "Ela nunca teria uma vida plena". Foi uma experiência desumanizante para mim.

Escrevi ao pároco expressando minha tristeza após a missa daquela manhã de segunda-feira.

Embora reconhecesse a dor que esta homilia me causou, o padre me encaminhou às várias pastorais da paróquia dedicadas às pessoas com deficiência e se recusou a reafirmar o valor dos católicos deficientes em uma futura missa.

O padre não conseguiu ver aquela mulher da escritura e a mim com o rosto de Deus. A experiência teve um impacto duradouro sobre mim e me fez questionar se outra denominação cristã seria uma opção melhor.

O capacitismo (preconceito ou discriminação social sobre pessoas com deficiência) em nossa Igreja é excessivo. Não é específico de uma igreja, estado ou região do país. Antes da pandemia, muitas vezes levava semanas para encontrar uma igreja que fosse fisicamente acessível. Quando consigo entrar na igreja de forma autônoma, imediatamente me sinto bem-vinda à comunidade. Infelizmente, essa sensação de boas-vindas se dissipa à medida que aparecem bandeiras vermelhas na forma de diversas barreiras. Prefiro receber a Eucaristia em minhas mãos, mas os ministros eucarísticos ficam impacientes enquanto manobro minha cadeira de rodas. Normalmente não há recortes nos bancos para cadeiras de rodas, o que significa que sou forçada a sentar na frente do primeiro banco ou bloquear o corredor durante a comunhão.

Em um mundo onde muitas Igrejas dizem: "Todos são bem-vindos", inúmeras vezes me pergunto se isso se aplica a católicos com deficiência como eu.

As igrejas nos Estados Unidso estão isentas de cumprir as leis para PCD. Por este motivo, muitos não têm instalações totalmente acessíveis com calçadas ou rampas nas calçadas, nem uma entrada acessível perto da entrada comum, e nem portas com botão de pressão, banheiros acessíveis, espaço para ficar com a cadeira de rodas próximo a um banco, acesso total a espaços dedicados a diferentes encontros e eventos especiais, e muito menos acesso ao altar e à casa paroquial.

Na minha antiga igreja, poucos me notavam ou apertavam minha mão estendida durante o momento da "paz". Havia uma porta acessível, que infelizmente estava sempre trancada. Depois de advogar por mim mesma, um leigo foi designado para abrir a porta acessível. Então, fiquei doente e perdi semanas de igreja. Quando voltei, a porta estava trancada e pedi a um paroquiano que dissesse ao padre que precisava de ajuda para entrar. A pessoa designada para manter a porta aberta veio e disse com raiva: "Se você não vem, eu não vou continuar abrindo a porta aberta".

Eu era uma paroquiana fiel, mas enfrentava consistentemente barreiras físicas e de atitude que me impediam de realmente me sentir bem-vinda à mesa de Deus.

Lutar contra o capacitismo é uma tarefa muito solitária e, muitas vezes, ir à igreja se torna a hora mais solitária da minha semana. A Igreja Católica tem a responsabilidade de acolher os marginalizados, incluindo os portadores de deficiência. Todavia, eu pergunto: como podemos criar uma Igreja mais acessível que priorize as experiências dos católicos com deficiência?

Apesar das necessidades não atendidas de seus próprios fiéis, as comunidades frequentemente arrecadam dinheiro para embelezar suas igrejas e missões em outros países. As igrejas precisam priorizar todas as pessoas em sua arrecadação de fundos. Esses recursos podem ser usados para financiar portas com botões e banheiros acessíveis. Se as igrejas tivessem portas pesadas que seus fiéis não pudessem abrir e nenhum banheiro, não há dúvida de que as pessoas se uniriam para consertar esses problemas.

A instituição de uma pastoral da acolhida também pode mitigar alguns dos desafios que muitas vezes enfrentamos sozinhos. Esta pastoral pode ser a instância na qual as pessoas com deficiência vão para que se lhes prepare um lugar, inclusive nos feriados e em grandes eventos. A pastoral pode gerir a comunicação para facilitar a entrada em caso de obstáculos ou outras barreiras no caminho, para que todo usuário de cadeira de rodas possa transitar e garantir que sua entrada acessível esteja livre de detritos ou neve.

A cultura do capacitismo e da deficiência deve ser ensinada no seminário. Houve ocasiões em que os padres disseram: "Vou orar por você. Você vai se levantar e andar em pouco tempo. Sei que Deus vai ajudá-la". Em outras ocasiões, as homilias incluíram linguagem e conceitos capacitistas. Isso me fez sentir menos do que indesejável, e me fez questionar se estou em uma Igreja que reflete os ensinamentos de Jesus.

Além disso, os sacerdotes e fiéis devem estar cientes de usar a linguagem humana, da pessoa em primeiro lugar. Fui chamada de "cadeirante" ou "garota deficiente" tanto por padres quanto por fiéis. Eu sou uma pessoa em primeiro lugar, por isso é importante dizer "pessoa com deficiência". Além disso, é importante conhecer a cultura da deficiência, como a importância de nunca tocar ou mover a cadeira de rodas ou o dispositivo de auxílio de uma pessoa, que é uma extensão do corpo dela.

A formação na Igreja deve ser estendida aos ministros eucarísticos e àqueles que fazem a coleta das oferendas. É importante não supor que eu quero a Eucaristia na minha boca ou que a coleta deva me pular por causa de sua percepção de que não tenho dinheiro.

Muitos padres católicos começam e terminam a missa na entrada inacessível, o que me impede de ter contato direto com um deles. Isso afeta meu conforto ao tentar marcar uma hora para a confissão, já que não consigo entrar na maioria dos confessionários. Também afeta minha capacidade de buscar aconselhamento. As pessoas com deficiência frequentemente passamos por vários testes de vida, e é desconfortável buscar conselho espiritual quando você nunca conheceu seu sacerdote e ouviu temas capacitistas em sua pregação.

Para que as pessoas com deficiência sejam totalmente integradas à Igreja, devemos ser convidados e bem-vindos a participar na pastoral, no conselho paroquial e nos eventos comunitários. Ao trabalharmos para tornar a Igreja um lugar mais acolhedor para todos, nunca devemos subestimar o poder do convite.

Por último, importantes organizações católicas voltadas para a justiça social, como Justiça, Paz e Integridade da Criação e o Secretariado de Justiça e Ecologia, devem incluir iniciativas relacionadas às pessoas com deficiência.

À medida que a Igreja Católica se torna mais acolhedora sob a liderança do papa Francisco, tenho a esperança de que a defesa e a inclusão de pessoas com deficiência floresçam e todos seremos bem-vindos à mesa de Deus.

*Erin Murphy mora em Cambridge, Massachusetts. É assistente social clínica independente licenciada e membro da Pi Alpha Alpha Honor Society for Public Administration.



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