Cultura

08/04/2021 | domtotal.com

Rumo a um caleidoscópio

Urge enquadrar outras formas e realidades diante do atual cenário monótono

Prefiro imaginar que esteja indo direto e reto rumo a um caleidoscópio
Prefiro imaginar que esteja indo direto e reto rumo a um caleidoscópio (Unsplash/Jakob Owens)

Ricardo Soares*

Como o escritor John Fante, que escreveu um romance chamado Rumo a Los Angeles, eu poderia batizar essa modesta crônica de Rumo, escolhendo a seguir o nome de qualquer outra cidade, logradouro, ladeira ou porto para onde eu rumei e de onde eu voltei.

Mas agora, ano da peste de 2021, não é prudente rumar ou voltar de lugar algum, talvez só fazer viagens dentro do próprio quarto, quando muito, com escalas na cozinha, sala e banheiro, para os afortunados que tem esses cômodos a disposição em casa.

Poderia ir rumo a Belo Horizonte, onde vive parte da minha família e dos meus afetos; poderia ir em direção ao Rio de Janeiro, onde fui concebido e vivi amores tórridos, com "vastas sensações e pensamentos imperfeitos", para lembrar aqui de outro escritor, Rubem Fonseca, que no título de um livro seu usou o que aqui uso entre aspas.

Poderia ir rumo a minha infância, adolescência, juventude e descobrir que não tive empregos no porto de Santos, nem de Paranaguá e nem Los Angeles . Não colhi maçãs na Espanha, não percorri a rota da seda, não fui ao Marrocos e nem ao Nepal, desconheço a maior parte das trilhas hippies e yuppies, termos inclusive agora em desuso.

Sob os meus olhos, que agora já se cansam, começam a se formar bolsas, talvez provocadas por noites mal dormidas ou por ter tanto arregalado minha visão diante do que chamam "cenas fortes", para as quais agora tenho baixa tolerância.

Assim sendo, e até me policiando para não escrever mais um triste relato de naufrago nesses tempos tristes, eu prefiro imaginar que esteja indo direto e reto rumo a um caleidoscópio com todas aquelas suas coloridas e lisérgicas combinações, que nos fazem crer que tudo é possível de se ver conforme o enquadramento e o movimento. É isso. Cada vez mais urge enquadrar outras formas e realidades diante do atual cenário monótono, triste e cinzento, que parece a paisagem do lado de fora e do lado de dentro da desumanidade.

Ricardo Soares é escritor e jornalista. Publicou 9 livros. Titular do blog www.todoprosa.blogspot.com

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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