Brasil

09/04/2021 | domtotal.com

A vida é sonho

Figuras da Cultura nos possibilitam sonhar e ampliar nossos horizontes pessoais

Palmirinha, Renato Aragão e Fernanda Montenegro já receberam a primeira dose da vacina
Palmirinha, Renato Aragão e Fernanda Montenegro já receberam a primeira dose da vacina (Reprodução Instagram)

Eleonora Santa Rosa

Ao assistir, esta semana, o vídeo que traz inúmeros artistas – músicos, atores, atrizes, compositores, cineastas, produtores, fotógrafos, comediantes, gente à esquerda, ao centro e à direita (ou quase) – sendo vacinados, chorei copiosamente. Por tudo, por todos, pela situação que nos oprime e entristece diariamente. Pelo país e sua duríssima realidade, sob a tutela de um genocida e asseclas da espécie mais vil que se tem notícia.

Emocionada, revi, muitas vezes, em regozijo e afeto redobrado, os registros de ídolos, de personalidades que expressam o que o Brasil tem de mais sublime, genuíno, criativo; figuras da cultura, que nos enobrecem, que nos ajudam a atravessar o rubicão, cujo talento nos liberta, nos possibilitam sonhar e ampliar nossos horizontes pessoais, que nos levam a caminhos inesperados, a emoções extraordinárias proporcionadas por seus ofícios. Ofícios de amor, de doação, de compartilhamento generoso, que transformam nossas vidas em todos os sentidos.

Tocante ver Milton, Chico, Egberto, Fernanda Montenegro, Ziraldo, Antonio Fagundes, Zé Celso, Simone, Gil, Zezé Polessa, Renata Sorrah, Pereio, Nanini, Faustão, Paulo Betti, Teuda, Ney Matogrosso, Sidney Magal, Odair José, Rita Lee, Glória e Tarcísio, Alcione, Martinho da Vila,  Sérgio Mamberti, Chico Caruso, Amelinha, Nana Caymmi, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Tony Ramos, Ary Fontoura, Lima Duarte, Herson Capri, Emiliano Queiroz, Renato Borghi e tantos outros e outras, todos firmes, cada qual a seu modo e estilo, no cumprimento da vida, celebrando a crença na ciência, no SUS, saudando, com alegria e fé, os profissionais de saúde que lhes aplicavam a dose da esperança, o antídoto à desumanidade e à destruição.

Comoventes a música, a edição e, sobretudo, a narração e o texto retirado de peças do Grupo Galpão, uma ode à beleza do trabalho do artista, da magia do placo, do teatro, emblematizando todas as artes e a vida. Imensidão de pessoas, de talentos, de sensibilidades, de vida, como a extraordinária, memorável e atemporal peça de Dom Calderón de la Barca:

A Vida é Sonho

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.


La Vida es Sueño – peça teatral do dramaturgo espanhol Pedro Calderón de la Barca, de 1635.

*Eleonora Santa Rosa - Jornalista, gestora e empreendedora cultural, foi Secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais. Ex-diretora do Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro, exerceu diversas funções públicas ao longo de sua trajetória de mais de 35 anos de trabalho. Recentemente, de novembro de 2017 a novembro de 2019, dirigiu o Museu de Arte do Rio - MAR. Estrategista Cultural, concebeu, coordenou e implantou diversos projetos, programas, iniciativas e equipamentos culturais de repercussão nacional. É fundadora e diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, prestando assessoria e consultoria cultural nos mais diversos segmentos, tanto públicos como privados. Autora do livro Interstício

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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