Cultura

12/04/2021 | domtotal.com

Da utilidade do suspensório

Seu João Silvério, o maestro, ostentava uma barriga do tamanho dos seus conhecimentos musicais

Suspensório deixou de ser apenas um suporte às calças dos barrigudos para tornar-se um componente da indumentária mais sofisticada, servindo democraticamente aos gordos e aos esguios
Suspensório deixou de ser apenas um suporte às calças dos barrigudos para tornar-se um componente da indumentária mais sofisticada, servindo democraticamente aos gordos e aos esguios (Unsplash/Peter Rerko)

Afonso Barroso*

No meu aniversário, um amigo me deu de presente sabe o quê? Um suspensório. Não sei se isso pode ser considerado presente de grego, até porque meu amigo não é grego, mas o fato é que recebi com interesse. Não o interesse de usar, o que nunca tivera intenção de fazer, mas o repentino interesse de pensar um pouco sobre esse assessório e sua influência no mundo fashion, assim como na protuberância dos usuários.

A utilidade precípua do suspensório é segurar as calças dos barrigudos. Nesse sentido, faz todo sentido: mantém as calças no lugar, sem o risco de cair ou ficar pedindo ao dono que as puxe toda vez que ameaçam desabar perigosamente para a virilha. Como minha barriga não cresceu ao ponto de não ser capaz de segurar as calças no devido lugar, não vejo utilidade no uso do suspensório.

Aí me lembro do maestro João Silvério, um músico idoso e pançudo, contratado não sei onde para formar a banda de música do distrito de Jacuri. Eu, embora ainda com apenas oito anos de idade, fui um dos selecionados para aprender música e tocar um instrumento, o sax-horn. É uma espécie de bombardino de fácil execução. Serve para acompanhar, com notas repetidas e compassadas, o andamento das marchas e dobrados.

Seu João Silvério era um maestro competente e ostentava uma barriga do tamanho dos seus conhecimentos musicais. Impaciente, não tolerava desafinações nas aulas de solfejo. Se alguém semitonava em uma nota qualquer ele fungava nervosamente e os nervos pareciam dar-lhe nas calças, que ameaçavam cair quando ele fungava. Enquanto puxava as calças, dizia entre dentes uma frase que nunca esqueci: "?" danisco, como tá ruim". As calças não caíam, mas protestavam, sentindo claramente a falta de um suspensório.

Deixo de lado o maestro para lembrar um fato interessante na história desse adereço que já foi exclusivamente masculino. De repente, não sei há quantos anos e por qual estilista, descobriu-se que o suspensório era um complemento capaz de se tornar fashion e compor com elegância a vestimenta, não apenas dos varões, mas também, vejam só, das mulheres. Aí o suspensório deixou de ser apenas um suporte às calças dos barrigudos para tornar-se um componente da indumentária mais sofisticada, servindo democraticamente aos gordos e aos esguios. E então apareceram de todos os estilos e cores, segurando calças de homens e mulheres pelo mundo a fora. O mundo dos modelos, claro.

Como me lembrei do suspensório que meu amigo me deu no aniversário, fui procurá-lo (o suspensório) em algum canto dos meus guardados, e achei. É bonito e elegante. Feito de tecido elástico branco, tem uma listra vermelha longitudinal que o torna bem atraente. Ao examiná-lo, cheguei a me entusiasmar.

Como a barriga até que já merece uma atenção, passarei a usá-lo. Sim, tornei-me um adepto do suspensório. Vou ligar ao meu amigo e agradecer uma vez mais o presente. Talvez o convide para um almoço ao qual deverei comparecer... de suspensório.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos