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13/04/2021 | domtotal.com

Quando as distâncias se encurtam

Numa dessas caminhadas, lembrei de um encontro que tive com um turista, no porto da cidade

Heusden, o porto da cidade onde encontrei o senhor que havia estado no Brasil e visitado várias cidades, inclusive Belo Horizonte
Heusden, o porto da cidade onde encontrei o senhor que havia estado no Brasil e visitado várias cidades, inclusive Belo Horizonte (Lev Chaim)

Lev Chaim*

Andava solto pelos arredores da cidade de Heusden, cercada por água e pelo rio Mas, localizada ao sul da Holanda. Eram caminhadas que refrescavam a mente e treinavam as pernas. Principalmente quando andava só, sem o meu cãozinho, que já está com quase 13 anos e já não faz grandes distâncias. 

Numa dessas, lembrei de um encontro que tive com um turista, no porto da cidade, há cerca de um ano e meio. Andava com o meu celular, a olhar as fotos que havia feito naquele mesmo instante. E com isto, o mundo ao meu redor desaparecia totalmente. Até o momento em que trombei com um homem pelas costas, que estava parado, olhando os barcos estacionados no porto.

Eu me assustei, mas ele exagerou, pensando que eu era alguém com uma arma tentando assaltá-lo. A primeira frase gritada de sua boca foi:

- Não atire, por favor, eu entrego tudo 

- Nem revolver tenho - respondi a ele. 

- A batida em minhas costas foi dura, parecia o cano de um revolver! 

- Foi o meu celular.

- Tem que olhar por onde anda. Trombar com esta força, contra alguém, assim é para assustar qualquer um!

- Desculpe-me, até parece que o senhor mora na América Latina ou algo assim!

Encarando-me nos olhos, ele disse: 

- Como é que você sabe? 

- Pela sua maneira de reagir. A primeira coisa que as pessoas naquela região pensam é que seja um assalto, principalmente em cidades grandes. 

- Como um holandês pode saber isto? Já morou nesses lugares?

A minha resposta foi fulminante:

- Não só morei, como nasci no Brasil.

- E com essa sua história, você acha que eu esteja exagerando na minha reação? Pensei que você fosse um holandês babaca, que nunca havia pisado fora da Holanda.

Aí, calmamente, eu disse: 

- Meu senhor. Eu sei temperar as coisas. Moro aqui na Holanda há quase 40 anos, mas nasci em Franca, estado de São Paulo. Eu sei separar as coisas. Estamos em Heusden, com 1,4 mil habitantes, tranquila, e a primeira coisa que o senhor pensa é que está sendo assaltado? Não acha isto um exagero? 

- A minha esposa também me fala isto. Mas eu acabei de chegar da Colômbia, onde fui assaltado duas vezes. Antes, eu já havia sido assaltado uma vez por um garoto, com uma faca, no Rio de Janeiro.

- Eu o compreendo, mas agora o senhor está na Holanda, em Heusden e não em Amsterdã, ou em Rotterdam ou em Haia, grandes cidades onde as vezes acontecem assaltos inesperados.

- Cheguei há dois dias e resolvi vir à Heusden, para ver esta linda cidade. Moro há poucos quilômetros de Heusden, mas nunca a tinha visitado antes.

Típico de holandês, pensei eu, conhece o mundo inteiro, mas não conhece o próprio país e as cidades vizinhas à sua.

Vendo-se apertado sem ser abraçado, ele perguntou com um ar maroto: 

- E você, nasceu em Franca, mas com certeza não conhece o mais novo jornal daquela cidade.

Totalmente surpreso pela pergunta, eu disse em um tom mais alto que o normal:

- De que jornal o senhor fala? 

Ele, com um sorriso ainda mais maroto respondeu. 

- Tá vendo, não sabe... Estou falando do mais recente jornal criado naquela cidade, o Verdade.

Quase cai duro no chão de susto e surpresa. 

- Como o senhor conheceu esse jornal? 

- Eu o comprei nas bancas, recomendado por nosso cliente na cidade. Eu falo mal português, mas leio perfeitamente. Queria me informar das coisas na região

Aí foi a minha vez: 

- Estou aposentado da Radio Internacional da Holanda, mas escrevo ainda todas as quintas para a minha coluna no Verdade.

O homem, boquiaberto, olhos arregalados, perguntou-me:

- Não venha me dizer que você é o Lev Chaim!

- Sim, fala diretamente com ele.

Depois do susto, ele deu gargalhadas. Aí, eu perguntei: 

- Por que o senhor conhece os meus artigos? 

- O dono da fábrica com quem trabalhei, vendendo máquinas para calçados, me recomendou o Verdade, em especial, os artigos do Lev Chaim, que morava na Holanda. Pena que não posso comprar o jornal aqui. 

Aí, mais do que depressa, eu respondi: 

- Mas se for para ler os artigos de Lev Chaim, o senhor pode lê-los através do site Dom Total, todas as terças-feiras, quando sou publicado. 

Aí, ele arregala os olhos e pergunta:

- Esta revista também é de Franca? 

- Não, respondi, é de Belo Horizonte. 

Aí, para a minha total surpresa, ele respondeu: 

- Conheci também, é uma linda cidade! 

- Mas por que o senhor conheceu Belo Horizonte? - perguntei meio suspeito.

- Porque tive que ir a Betim, na fábrica da Fiat!

Admirado com este holandês viajado, eu o convidei para tomar um café em minha casa, já que todos os cafés, bares e restaurantes de Heusden estavam fechados devido a pandemia. No meio do caminho eu o ensinei a conectar o site do Dom Total.

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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