Meio Ambiente

13/04/2021 | domtotal.com

Japão despejará no mar água tratada de usina nuclear de Fukushima

Água foi filtrada várias vezes para eliminar a maioria das substâncias radioativa, mas decisão gerou polêmica entre organizações ambientalistas como o Greenpeace

Cerca de 1,25 milhão de toneladas de água foi acumulada no local da usina nuclear
Cerca de 1,25 milhão de toneladas de água foi acumulada no local da usina nuclear (Kazuhiro Nogi/AFP)

O Japão vai lançar no mar a água procedente da usina nuclear acidentada de Fukushima (nordeste) depois de tratada, anunciou na terça-feira (noite de segunda, 12, no Brasil) o primeiro-ministro Yoshihide Suga, apesar da oposição gerada pelo projeto.

A decisão põe fim a sete anos de debates sobre como se livrar da água da chuva, das camadas subterrâneas ou de injeções necessárias para esfriar os núcleos dos reatores que se fundiram como consequência do tsunami de 11 de março de 2011.

A água será lançada "depois de se assegurar de que se encontra em um nível (de substâncias radioativas) claramente inferior aos padrões de segurança", declarou Suga, acrescentando que o governo adotará "medidas" para impedir que isto prejudique a reputação da região.

Atualmente, cerca de 1,25 milhão de toneladas de água contaminada está armazenada em mais de mil cisternas perto da usina nuclear, no nordeste do Japão. Era preciso tomar uma decisão urgente porque no outono de 2022 podem-se alcançar os limites de capacidade de armazenamento de água no local.

A água que será lançada no mar nesta operação, que durará dois anos, foi filtrada várias vezes para eliminar a maioria das substâncias radioativas (radionuclídeos), mas não o trítio porque não pode ser retirado com as técnicas atuais.

O trítio só é perigoso para a saúde em doses muito altas, de acordo com especialistas. Ele se desintegra 50% após 12 anos (uma a duas semanas no corpo humano), emitindo radiação beta de baixa energia.

Qual o motivo desta escolha?

Como a capacidade de armazenamento do local vai saturar no segundo semestre de 2022, uma decisão teve que ser tomada com urgência sobre a água "tritiada". Em janeiro de 2020, um grupo de especialistas contratado pelo governo defendeu sua dissolução progressiva no oceano, descartando assim a solução alternativa, que consistia na evaporação no ar.

O despejo de água tritiada no mar "já é praticado no Japão e no exterior" a partir de usinas em operação e, portanto, é "mais viável", estimaram os especialistas. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) também considera esta solução "consistente" com as práticas "estabelecidas" em todo o mundo.

Críticas

A decisão do Japão foi duramente criticada pela China que classificou a medida de "irresponsável", nesta terça-feira (13). A medida "é extremamente irresponsável e irá prejudicar muito a saúde e a segurança pública no mundo, bem como os interesses vitais dos países vizinhos", denunciou a chancelaria chinesa em comunicado.

Organizações ambientalistas como o Greenpeace afirmam que a água de Fukushima contém outros elementos radioativos, como carbono-14, com o risco, segundo eles, de entrar na cadeia alimentar e danificar o DNA se as doses se acumularem no longo prazo. Essas ONGs defendem o armazenamento sustentável até que a tecnologia de filtragem de água melhore.

Os pescadores japoneses temem que isso prejudique sua imagem. "A mensagem do governo de que a água não é perigosa não chega ao público, esse é o grande problema", afirmou um diretor da associação sindical dos pescadores de Fukushima, consultado pela reportagem.

"Nossos parceiros comerciais nos dizem que deixarão de vender nossos produtos" se o despejo ocorrer e alguns consumidores já reclamaram, acrescentou. "Nossos esforços para restaurar a indústria pesqueira na última década seriam frustrados", disse ele.

Desde o desastre de 2011, todos os produtos agrícolas e pescados do Japão são submetidos a rígidos controles sanitários. Também são aplicados padrões de radioatividade duas vezes mais severos do que os nacionais aos alimentos do departamento de Fukushima, para tranquilizar os consumidores.

O que dizem os cientistas?

Para Michiaki Kai, especialista em riscos de radiação da universidade de ciências da saúde de Oita (sudoeste do Japão), a chave é controlar a diluição e o volume da água tritiada lançada no mar.

"Há um consenso entre os cientistas de que o impacto na saúde (de um derramamento de água triturada no mar) é minúsculo", mas "não podemos dizer que o risco é zero, por isso é polêmico", disse.

Geraldine Thomas, especialista em radiação do Imperial College de Londres, acredita que o trítio "não apresenta nenhum risco à saúde, especialmente porque é preciso levar em conta que ele será diluído no Oceano Pacífico".

O carbono-14 na água de Fukushima também não é prejudicial, aponta. Os poluentes químicos nos oceanos, como o mercúrio, deveriam preocupar muito mais os consumidores do que "tudo o que vem da fábrica de Fukushima", ressalta.


AFP/Dom Total



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