Cultura TV

13/04/2021 | domtotal.com

Literatura TV: um caso de amor

Por mais livros e menos mito

Tony Ramos interpretou Miguel em Laços de Família, o dono de uma livraria aficionado em literatura
Tony Ramos interpretou Miguel em Laços de Família, o dono de uma livraria aficionado em literatura (Divulgação/Rede Globo)

Alexis Parrot*

Sempre gostei de novelas e séries de TV adaptadas de livros.

Pode ser fixação de roteirista, mas antes da estreia de Tieta, fui ler na fonte para degustar melhor o que Aguinaldo Silva decantou de Jorge Amado – como já tinha feito muitos anos antes com a Gabriela e Quincas Berro D'água e ainda voltei a fazer com Porto dos Milagres, entre outras tantas.

Li Um certo capitão Rodrigo antes do primeiro episódio de O tempo e o vento; li o Incidente em Antares porque me entusiasmei com a minissérie – do Érico para o Paulo José e de volta ao Érico por causa do Paulo José. Eu não passava de um mineiro tateando pelo Rio Grande de meu pai e guiado por dois gaudérios da melhor estirpe, um escrevendo e o outro dirigindo.

Sempre defendi o diálogo entre televisão e literatura. Acredito que a divulgação e adaptação de obras literárias não passa de obrigação muito pouco cobrada da TV – uma concessão pública com deveres educativos, apesar do pendor natural que possui para o entretenimento. Unir as duas coisas é um grande desafio, mas também uma decisão política das emissoras.   

Os Maias, a cena final do livro deu as caras na TV sem tirar nem por, linda e literalmente transposta, interpretada por Fabio Assunção e Selton Mello de forma inesquecível. A minissérie em questão lembra aquela propaganda de biscoito: ficou tão gira porque Maria Adelaide Amaral soube ler o trabalho do patrício Eça ou porque o Eça, sem saber, é que já havia deixado tudo mastigadinho para facilitar a vida da Maria Adelaide? É muito provável que ambas hipóteses estejam corretas.

Sempre admirei Walter Avancini e sua militância pela literatura brasileira. Por suas mãos, cheguei à já citada Gabriela, mas não só. Fui apresentado à Morte e vida severina de João Cabral, conheci o Seu Quequé de José Condé, me embrenhei pelas Memórias de um gigolô de Marcos Rey e comecei a desbravar o Grande sertão roseano – do tamanho das Minas Gerais e maior que o mundo em seus significados.

Andei escoltado por Guel Arraes durante um bom tempo. Antes do Auto da Compadecida, sua obra-prima e minha peça favorita de Suassuna, fui do interior fluminense à capital do estado da Guanabara em três adaptações: O alienista, O coronel e o lobisomem e O homem que sabia javanês. Este último vigarista (que conheci originalmente em um teleteatro da antiga TVE, interpretado por Ewerton de Castro) fui reencontrar anos depois em Tubiacanga ao lado de Cassi Jones de Azevedo, Clara dos Anjos, Numa Pompílio de Castro e Raimundo Flamel em mais um trabalho aguinaldiano impecável; dessa vez, d'après Lima Barreto.

Sempre me lembro de Tony Ramos vivendo o Miguel, dono da livraria Dom Casmurro cuja paixão maior eram os livros e a Helena de Vera Fischer. Batia longos papos sobre literatura com Leonardo Villar, um revisor tão fã de Machado que batizou sua filha de Capitu. A novela era Laços de família, de Manoel Carlos e, como de hábito, ambientada no Leblon.

Mais recentemente, a novela Bom sucesso elegeu uma editora como um dos núcleos principais por onde se movimentavam seus personagens. Antonio Fagundes fez um editor desenganado às voltas com Grazi Massafera e questões do coração. Os autores, Paulo Halm e Rosane Svartman, inseriam trechos de livros como O Mágico de Oz e Dona Flor nos diálogos. A cada livro citado, aferia-se um aumento na busca pelo título em livrarias virtuais.

Sempre vale mais um pássaro na mão do que dois voando – assim pensam os executivos das emissoras de TV. Na dúvida, por que não reencenar um antigo sucesso? O remake é uma estratégia de programação mais velha que Matusalém, mas parece que ganha força mesmo quando a matriz do folhetim é um livro. Prova disso são as cinco versões de Éramos seis já levadas ao ar até hoje, baseadas na obra de Maria José Dupré; ou as quatro de A muralha; ou as três de Meu pé de laranja lima...

Em 1975, a Globo estreou o horário das seis com uma ambiciosa iniciativa de adaptações literárias de obras clássicas brasileiras. A primeira novela foi Helena, baseada em Machado de Assis, seguida de O noviço, de Martins Pena; Senhora, de José Alencar; A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo; Olhai os lírios do campo, de Marques Rebelo e O feijão e o sonho de Orígenes Lessa. O projeto culminou com o êxito – inclusive internacional – de A escrava Isaura.    

E houve também o Sítio do Picapau Amarelo, a série épica infanto-juvenil a partir da criação de Monteiro Lobato onde várias aventuras movimentavam livros e personagens da literatura universal. Pelo Sítio passaram Dom Quixote, Capitão Gancho, o gênio da lâmpada e Pedro Malasartes, só para iniciar a conversa. Isso sem falar no Visconde de Sabugosa, o boneco feito de sabugo de milho que, ao ler os livros da biblioteca de Dona Benta se tornou um grande sábio. 

Com um relacionamento tão íntimo com a literatura, nossa TV deveria voltar mais vezes a ela, alimentar-se dela sempre e inspirar-se nela para seguir inspirando. Principalmente em tempos tão tenebrosos para a cultura de nosso país.

A última investida do governo Bolsonaro contra a educação e cultura tem justamente os livros como alvo. O fim da isenção de impostos sobre o papel para impressão e os livros não didáticos é a nova cruzada dos luminares do obscurantismo da receita federal sob o comando de Paulo Guedes.

Argumentam que apenas os mais ricos compram livros e que, por isso, a isenção não beneficia os mais pobres. Ao naturalizar tão perversamente assim um erro histórico, distorcem o próprio sentido das políticas públicas. Se o povo não compra livros, o preço tinha era que cair mais ainda para estimular amplamente o acesso a eles. O próximo passo será queimá-los em praça pública?

O país que desejo ver na TV e nas ruas tem mais livros e menos mito.

Frase da semana

Do jornalista José Trajano, ontem, no seu programa Papo com Zé Trajano, na TV do Trabalhador, sobre o absurdo de ainda ter alguém que concorde com o discurso de Bolsonaro contra as medidas restritivas de prefeitos e governadores no enfrentamento ao coronavírus: 

"Teve um grupelho aí do gado que saiu por Copacabana, na Paulista, com umas senhoras com um cartaz: 'não é pandemia, é comunismo'... Dá um desânimo, né?"

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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