Religião

15/04/2021 | domtotal.com

A ressurreição de Jesus nos ensina como viver após a pandemia

Temos visto e sentido muitas feridas nestes últimos tempos. Como viver para além de nossas cicatrizes?

Vacinação de pessoas de 55 a 59 anos com qualquer comorbidade em Manaus no dia 12 de abril
Vacinação de pessoas de 55 a 59 anos com qualquer comorbidade em Manaus no dia 12 de abril (João Viana / Semcom)

Rebecca Collins Jordan
NCR

Frequentemente ouvimos que Jesus, tornando-se humano, identificou-se conosco. Às vezes, porém, pergunto para mim mesma e para você que lê, quantas vezes esquecemos do nosso lado, da parte onde nós, seres humanos, devemos nos identificar com Deus. Não quero dizer isso de forma exagerada ou ritualizada, para você não se preocupar. Porque Cristo, em verdade, queria que víssemos nossa divindade em meio a nossa frágil e bela humanidade.

Não sei sobre você, mas me coloquei no lugar de quase todos nas histórias da Ressurreição. Já fui Maria Madalena no túmulo e no jardim. Já me imaginei naquela estrada para Emaús mais vezes do que posso contar. Na maioria das vezes, me vejo como Tomé, precisando ver por mim mesma que as boas novas são verdadeiras. Mas nunca me coloquei na perspectiva de Jesus durante a história da Páscoa.

Sempre sinto uma necessidade de me distanciar da ressurreição de Jesus. É o momento menos identificável na Bíblia para mim, de certa forma, porque é nele que Jesus transcende as limitações de ser humano. Ele vence o que é uma constante para nós, ou o que pensamos ser: a morte. E este ano, a morte parece uma constante, mais do que nunca. Eu me senti muito limitada, muito fraca e impotente.

Todavia, esse sentimento durou até me colocar na experiência de Jesus. Afinal, ele acabara de experimentar o momento mais humano de todos – o momento em que gritou: "Meu Deus, por que você me abandonaste?". Jesus também se sentia impotente contra as forças da morte e da autoridade injusta. Ele também parecia tão terreno, tão frágil. E ele também morreu.

Então veio o momento mais confuso do que todos os outros e se levantou novamente. Jesus se levantou e saiu do túmulo.

A ressurreição de Cristo é mais do que um símbolo de fé; é um modelo de renascimento para todos nós. Mostra a resiliência de Deus com seu Filho – e de Deus com a humanidade – durante um tempo violento e turbulento. O Jesus que os discípulos encontram no Evangelho de João é um homem ferido, um ser humano que carrega suas cicatrizes não para focar nelas, mas para viver além delas.

O que significa então estar profundamente ferido, ser desprezado e depois morrer? E o que significa enfrentar a morte, conhecê-la e partir?

No final da Quaresma e no início desta época de Páscoa – e no final desta pandemia e no início da temporada de vacinação – eu me pergunto o que significa viver para além das cicatrizes.

Vimos e sentimos, como sociedade, muitas feridas no ano passado. Vimos a morte e a injustiça racial, a desigualdade impressionante, os altos índices de desemprego, a solidão, a depressão e a fadiga. As notícias sobre a situação cada vez pior do clima continuam crescendo e o discurso cívico se tornou mordaz. No meio do caos e da tragédia, tenho sido como os discípulos, inquieta e andando de um lado para o outro, visitando o túmulo da dor sob o véu da noite, precisando da garantia de ver Jesus novamente, lutando para compreender que às vezes as notícias podem ser boas.

É hora de uma mudança de perspectiva – os sinais de uma nova vida, de ressurreição, nem sempre precisam estar voltados para o exterior. Sempre procuro a ressurreição e a esperança em sinais externos – nas manchetes, ou nas flores da primavera, ou em palavras amáveis ou momentos comoventes. Em dias mais calmos, sem todos os sinais óbvios, a fé vacila.

Então, talvez seja hora de procurar em outro lugar a nossa esperança. É hora de olhar para dentro. A mudança torna o momento da ressurreição radicalmente diferente. Não é um momento de crença ou dogma, mas sim um momento de profunda segurança, um momento da totalidade que olha para o negativo do mundo com uma sensação de paz radical e um sentimento de justiça incorporada se gestando dentro de si. A ressurreição não precisa ser buscada, não precisa ser acreditada – ela só precisa ser vivida e conhecida.

Mais do que tudo, aquele momento de ressurreição, pensando na mente de Cristo, é um momento de misericórdia. Viver como Jesus no primeiro dia de Páscoa significa mostrar misericórdia para com os outros em um nível que o mundo não conhece. Significa encontrar a força de vida em nossos corações para nos levantarmos em meio à tragédia global, sacudir a poeira e reconstruir – alimentar, vestir, libertar, confortar uns aos outros apoiados na força de Deus, de uma forma que é profundamente corajosa e desafiadora da morte. Essa é a lição do túmulo vazio – nada pode impedir a obra de Deus.

Nada pode mudar o sentimento permanente em nossos corações da presença e vitalidade de Deus dentro de nós e ao nosso redor. É o sentimento que obriga a atos de serviço e conexão. É o sentimento que nos chama para pegar o telefone, entrar na ligação do Zoom, caminhar, doar, orar, ensinar. É o sentimento que nos pede que esperemos na fé e que nos pede agir, mesmo quando a morte parece envolvente e o ambiente muito escuro.

Ver a ressurreição dos olhos de Jesus é desistir da pergunta usual do cristianismo: você crê? Em vez disso, ver desta forma a ressureição nos chama a viver a missão de Cristo, proclamar o triunfo da justiça, da misericórdia e da paz sobre as forças da morte e da divisão. Não é tanto a visão das mãos de Jesus como Tomé as viu, mas o conhecimento de que as mãos feridas podem curar e que aquilo que estava morto em nós pode voltar à vida.

O longo sono da tragédia do ano passado é o que também nos chama agora a despertar como agentes de amor e esperança. Na certeza e misericórdia de Deus, espero que todos possamos, juntos, construir um mundo a partir de nosso eu ferido, mas vivificado, carregado com um chamado que supera a morte. É hora de mostrar ao mundo a vida de Deus em nós mesmos e de transformar a misericórdia por meio da fé que nos chama a olhar para dentro, para os nossos corações feridos. Nem sempre precisamos procurar por sinais de ressurreição – nem mesmo precisamos saber o que é a Ressurreição, contanto que possamos incorporar uma nova vida, nos levantando e caminhando para fazer a obra de Deus.

Publicado originalmente por NCR

*Rebecca Collins Jordan é professora na cidade de Nova York. Originalmente do Oregon, formou-se no Union Theological Seminary e na University of Montana.



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