Religião

16/04/2021 | domtotal.com

O pequeno, mas importante, papel dos anjos e demônios na Bíblia

Confira a entrevista com Charles Camosy, co-autor do livro 'O que a Bíblia diz sobre anjos e demônios?'

'A destruição do Templo do Vício' (1832)
'A destruição do Templo do Vício' (1832) (Wikimedia)

Charles C. Camosy
Crux Now

John Gillman Ph.D., é conferencista do Departamento para o Estudo da Religião da San Diego State University e educador certificado pela ACPE para Educação Pastoral Clínica. Também é Editor Associado do The Catholic Biblical Quarterly. Entre outras publicações, e é autor de What does the Bible say about life and death? (O que a Bíblia diz sobre a vida e a morte?, em tradução literal). Neste artigo reproduzimos uma entrevista com Charles Camosy sobre seu novo livro What does the Bible say about angels and demons? (em tradução literal, O que a Bíblia diz sobre anjos e demônios?).

Você pode nos contar um pouco sobre sua formação e como isso o levou a escrever um livro sobre anjos e demônios?

Primeiro, um pequeno histórico: cresci em uma família católica tradicional em uma pequena cidade no sudeste de Indiana. Depois de completar meus estudos de doutorado na Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica, uma universidade fundada em 1425, dediquei minha vida profissional a uma combinação de trabalho pastoral e academia. Servi como capelão em diversos ambientes, como educador certificado para Programas de Educação Pastoral Clínica (CPE) e como professor universitário no Departamento de Estudos da Religião no estado de San Diego, onde nos últimos três anos lecionei um curso sobre "Morte, falecer e viver após a morte". Atualmente, sou editor associado do Catholic Biblical Quarterly.

A resposta à pergunta sobre como vim a ser co-autor deste livro é muito simples. O editor da série estava procurando alguém para concluir o projeto depois que o autor original teve que se retirar por motivos de saúde. Aceitei o convite, caso contrário, provavelmente não teria começado a escrever sobre este assunto. Assim que comecei trabalhar no material, no entanto, fiquei fascinado com o tema. Eu não pensava muito em anjos desde a infância, quando memorizei a oração tradicional do anjo da guarda. Quanto aos demônios, fiquei intrigado com o filme O Exorcista (1973), o nono filme de maior bilheteria de todos os tempos nos EUA e Canadá. Além disso, anos atrás, uma mulher perturbada me pediu para abençoar sua casa e protegê-la do que acreditava ser uma presença demoníaca. Eu fiz a bênção - não era um exorcismo - e parecia ter trazido algum conforto.

Anjos e demônios são tópicos populares em nossa imaginação cultural, mas adotar um ângulo especificamente bíblico é interessante. Existe algo como uma visão bíblica coerente sobre anjos e demônios? Até que ponto essa visão se sobrepõe - ou não - ao nosso imaginário cultural popular?

Os anjos raramente faziam mais do que aparições no Antigo e no Novo Testamento. Eles não são o foco central. As exceções são os anjos nas narrativas da infância de Mateus e Lucas (onde o anjo se chama Gabriel) e o Livro de Tobias, onde encontramos Rafael. Na última história, Rafael é enviado por Deus a Tobias e sua família servindo como guia e protetor, mediador do casamento, conselheiro de cura e fonte de orações.

Ao contrário dos anjos na cultura popular, onde às vezes são retratados como humanos que partiram, os anjos bíblicos funcionam não por sua própria autoridade, mas como mensageiros celestiais de Deus. Uma sobreposição ocorre na assistente social angelical Monica da popular série de TV O toque de um anjo (1994-2003). O seriado oferece uma intervenção útil na vida das pessoas em dificuldades.

Embora a crença em demônios tenha uma longa história que remonta à Mesopotâmia e à Grécia, os demônios estão praticamente ausentes no antigo Israel. Satanás, não apresentado como um demônio, mas como um acusador, desempenha um papel no início do Livro de Jó. O diabo só aparece no Novo Testamento, cerca de 35 vezes, mais proeminentemente nas tentações de Jesus.

Hoje, os cristãos podem atribuir a fonte da tentação ao diabo e as pessoas, em geral, podem atribuir eventos horríveis e a discórdia divisora a espíritos demoníacos ou malignos. Por exemplo, após uma eleição contenciosa, o cardeal Gregory de Washington, DC, declarou: "Temos muitos espíritos malignos que de alguma forma estão destruindo e trazendo mal para a nação, fazendo com que pessoas de diferentes raças, culturas, línguas e religiões tenham medo de uns dos outros" (janeiro de 2021).

Entendo, só tenho que perguntar algo porque um colega meu (teólogos podem ser pessoas estranhas!) é meio obcecado com esse assunto. A Bíblia tem uma visão de anjos e demônios que permite que alguns deles sejam algo diferente do espírito? Para ser mais direto: a Bíblia imagina que alguns anjos e demônios têm corpos?

A resposta curta é sim. No Livro de Tobias, mencionado acima, Rafael aparece pela primeira vez disfarçado de jovem e não é identificado como um anjo até muito mais tarde na narrativa. O demônio que confronta Jesus no deserto é apresentado com características humanas: o demônio leva Jesus até um ponto alto para mostrar-lhe todos os reinos do mundo, leva-o a Jerusalém e o seduz por meio de palavras comuns, tudo em vão. Seria ir além da narrativa da tentação, porém, sustentar que o diabo que aparece tem um corpo físico.

É uma coisa muito católica acreditar no Anjo da guarda. Existe um fundamento bíblico para essa crença?

Embora seja verdade que a crença no Anjo da guarda é uma "coisa católica", alguns protestantes também têm crenças semelhantes. Por exemplo, a declaração de Martinho Lutero "que os anjos estão conosco é muito certo, e ninguém deveria ter duvidado disso" se aproxima de uma crença em anjos da guarda. Embora a expressão "anjo(s) da guarda" não apareça na Bíblia, há alguns textos que apontam nessa direção, como no Salmo 91,11. "Porque a seus anjos Ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos". Em Mateus 18,10 é relatado que Jesus disse: "Cuidado para não desprezarem um só destes pequeninos! Pois eu digo que os anjos nos céus estão sempre vendo a face de meu Pai Celeste". E em Atos 12,15, quando Pedro chegou à casa de Maria, os presentes acreditaram que era "seu anjo". Em Hebreus 1,14, surge a pergunta "Os anjos não são, todos eles, espíritos ministradores enviados para servir aqueles que hão de herdar a salvação?".

Muitos relatam ter um anjo da guarda. No outro dia, encontrei a história de Francisca de Roma (1340-1440), que recebeu um anjo da guarda enviado por Deus depois que seu marido se foi e um filho morreu, para servir como companheiro constante durante os últimos vinte anos de sua vida. Ela teria sido capaz de ver este anjo. Pouco antes de sua morte, disse: "O anjo terminou sua tarefa - ele me chama para segui-lo". Entre aqueles que acreditam em anjos, poucos parecem ter uma experiência tão vívida.

Esta é uma pergunta complexa, mas é outra que tenho que fazer. Suspeito que muitas pessoas se interessam por anjos e demônios pelos mesmos motivos pelos quais se interessam por dragões, alienígenas e zumbis. Leva você de seu mundo atual, totalmente físico, para um lugar fantástico de imaginação encantada. Mas seu livro deixa claro que, para as pessoas da Bíblia, este não era um mero lugar fantástico de imaginação. A existência de anjos e demônios para os antigos era muito séria. É possível para nós, pessoas da modernidade, entrar na mentalidade encantada que abre espaço para a realidade de anjos e demônios?

Existem tantas oportunidades através de programas de TV, filmes e outras mídias, para entrar em um mundo tão encantado. No entanto, não tenho certeza se uma pessoa precisa entrar em uma "mentalidade encantada" para criar espaço para essa realidade. Algumas semanas atrás, comentei com um amigo da caminhada sobre meu livro sobre anjos e demônios. Ele se virou para mim e disse: "Não tenho certeza do que acredito nos anjos". Em seguida, passou a contar o que começou como uma história mundana sobre como a luz de verificação do motor em seu carro havia se acendido durante uma viagem para fora do estado. Meu amigo parou para investigar, e descobriu que havia algum outro problema relacionado ao funcionamento seguro de seu carro que não tinha conexão com o indicador "verificar motor". Subiu as mãos e se perguntou: de que se tratava esse aviso?

Agora sobre os demônios: quando o ataque ao Capitólio dos EUA ocorreu em 6 de janeiro de 2021, o representante Jim McGovern, um veterano da Marinha, disse depois que "viu o mal" nos olhos dos atacantes. Se isso era o mal personificado, o demônio em ação ou simplesmente loucura, ele não diz. Não é absurdo interpretar isso como algo mais do que uma turba fora de controle envolvida em algo que as pessoas mais razoáveis imaginariam como totalmente impensável.

Para muitos, a questão permanece em aberto se o espaço (sobre o qual você pergunta) deve ser aberto para anjos e demônios. Outros podem ter fortes convicções de um lado ou do outro. A Bíblia oferece suporte para tal realidade e, de muitas maneiras, nossa cultura contemporânea também o faz.

Publicado originalmente em Crux Now.

Traduzido por Ramón Lara



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