Brasil

15/04/2021 | domtotal.com

Nova São Paulo, novo Brasil (crônicas utópicas 1)

A mudança é possível quando se elege quem de fato pensa no nosso futuro

A recuperação da paisagem foi se refletindo nas atitudes das pessoas
A recuperação da paisagem foi se refletindo nas atitudes das pessoas (Jorge Araujo/FotosPublicas)

Ricardo Soares*

Os peixes foram voltando aos poucos ao rio Pinheiros. Depois ao Tietê. E pouco a pouco começaram a ressurgir cotias, capivaras, jacarés e juritis. O fedor às margens foi passando e, como se sentissem isso, as árvores frutíferas começaram a crescer mais rápidas e a dar frutos grandes e cheirosos que alimentavam os passantes, os atletas e os sem teto. Jacas, mangas, goiabas, pitangas, amoras, laranjas e mexericas.

Com o renascimento do Pinheiros e do Tietê, os governos estaduais e municipais se animaram e fizeram um grande plano de recuperação e despoluição de todos os rios que cortam a capital, dando inclusive bônus alimentícios aos que ajudassem a preservar, despoluir e fiscalizar os poucos que ainda insistiam em jogar entulhos nos leitos desses rios. E os governos foram além. Libertaram da canalização secular o rio Anhangabaú, que agora corre solto onde sempre correu lá no centro, transformando aquele vale, de novo, numa plantação de chá.

Com os rios limpos e suas margens recuperadas, os negócios prosperaram. Quiosques de lazer foram criados sobre calçadas que lembravam as de Copacabana e os mais concorridos ficavam justamente ao lado dos atracadouros que levavam a grandes passeios aquáticos. E isso foi ainda antes das barcas lentas ou as velozes que começaram a ajudar e muito no transporte de passageiros do norte para o sul da cidade. Alguns atracadouros aproveitaram até as estruturas já existentes das estações de trem e de metrô.

Todas essas ações conjuntas foram motivadoras de uma ação geral de embelezamento e recuperação da imagem de São Paulo, tida e havida como uma metrópole feia e cinzenta. E a recuperação da paisagem foi se refletindo nas atitudes das pessoas, que passaram a cuidar melhor de suas ruas, praças e avenidas. Os carros começaram a ter cada vez mais seus espaços restringidos a favor dos pedestres. E pouca gente chiou porque com a integração entre ônibus, metrôs, ciclovias, trens e barcas a locomoção, enfim, se tornou muito melhor em São Paulo.

Começou então um inesperado e abrupto movimento para demolição de muitos grandes shoppings na cidade, essas aberrações arquitetônicas que embutem vidas artificiais dentro de ares condicionados repletos de bactérias e o bodum das comidas requentadas das praças de alimentação. Assim, ao invés delas, foram erguidas tantas lindas e novas praças gigantes que, em pouco tempo, São Paulo foi se tornando uma cidade com o maior número de árvores e praças do mundo. De novo, incentivos foram dados aos plantadores de vida. A lógica de cercar e destruir praças e espaços públicos foi rapidamente revertida nesse Planalto de Piratininga, que viu uma linda festa quando voltaram as competições de regatas e natação ali pelos lados do clube Tietê.

O que uma vez foi chamado de elevado Costa e Silva e depois de João Goulart, mas na verdade era conhecido como "Minhocão", veio abaixo. Todo o trânsito restante foi para os subsolos da cidade e onde se via aquela monstruosidade aparecia agora um imenso boulevard, onde as pessoas se reuniam para rir, contar histórias passadas e lembrar que tudo aquilo lembrava agora as "ramblas" de Barcelona.

Assim todos os museus reabriram, ativos e altaneiros, com entradas gratuitas para que conhecêssemos o passado da cidade, do estado, do Brasil. E São Paulo foi se tornando muito mais do que uma flor do cacto, solitária a vicejar em meio ao caos. O que acontecia aqui foi contaminando o Brasil e, em pouco tempo, a boa moda chegou ao Rio de Janeiro, a Salvador, a Belo Horizonte ?" que viu crescer em toda a extensão do ribeirão Arrudas um enorme jardim de fazer inveja ao de Luxemburgo lá em Paris.

Ah, pois sim, tudo isso foi sendo possível na medida em que todos os paulistas, paulistanos e brasileiros foram tomando consciência e começaram a eleger quem de fato pensava e pensa no nosso futuro. Gente com preocupação com o que está por vir, gente desencanada com o imediatismo eleitoreiro e sem a vontade de destruir o que um antecessor ergueu. Digo tudo isso aqui e agora, meditando ao lado do rio Tietê, com um retrato do escritor Mário de Andrade no meu bolso e imaginando que a felicidade é agora o sonho feliz dessa cidade. Sem lembrança alguma de peste, monstros e pandemia. Aliás, que pandemia?

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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